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Relatório mensal: ciclo de queda de juros no Brasil deve ter chegado ao fim

A equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulgou nesta quinta-feira (6) mais uma edição do seu relatório macroeconômico.

Atualizado em

Felipe Salles, head da equipe de economia.

Internacional

EUA

A economia segue em expansão e o mercado de trabalho permanece aquecido. A inflação continua persistente, com sinais de estar estabilizando acima da meta de 2%. O núcleo da inflação (medido pelo PCE) acumulou alta de 2,8% em abril. Membros do banco central americano continuam citando o pouco progresso da inflação em direção à meta como razão para manter os juros elevados e mencionam que um corte de juros deve demorar mais do que previam. Vários membros ponderaram que uma alta de juros ainda pode ser necessária. Em nossa visão, é provável que não haja cortes de juros nos EUA neste ano.

Europa

A atividade econômica está fraca, particularmente a indústria, com sinais incipientes de melhora. Apesar disso, o desemprego está em 6,4%, voltando a mínima histórica. A inflação subiu em maio, interrompendo uma sequência de desaceleração, com o núcleo alcançando 2,9%. O Banco Central Europeu cortou juros em 25 pontos-base, considerando um progresso na trajetória da inflação, mas reconhece que a pressão de preços segue elevada e que deve demorar mais tempo para alcançar a meta. Este foi o primeiro corte de juros desde o início do aperto monetário do Banco em julho de 2022. O BCE indicou que próximas decisões seguem dependentes de dados.

Japão

A inflação desacelerou em abril, em linha com o esperado, mas a expectativa é de um aumento de preços à frente, em razão da retirada de subsídios de energia e de reajustes salarias. A desvalorização do iene também pesa sobre a inflação. Neste cenário, a expectativa é que o Banco do Japão (BoJ) continue normalizando sua política monetária de forma gradual.  

China

A atividade econômica perdeu força em abril depois de um crescimento robusto no primeiro trimestre. O consumo e os investimentos desaceleraram, mas houve aumento das exportações. O setor imobiliário segue em contração. O governo anunciou medidas com a intenção de estabilizar o setor. A expectativa é que a economia siga apoiada por iniciativas do governo para alcançar a meta de crescimento de “cerca de 5%” em 2024. No longo prazo, problemas estruturais (envelhecimento da população, endividamento já elevado dos governos locais e enfraquecimento no setor imobiliário) devem levar a China a um crescimento menor.

Brasil

Após um avanço de 2,9% em 2023, a economia deve continuar registrando expansão em 2024, impulsionada principalmente pelo aumento das despesas do governo. A divulgação do PIB do 1T24 confirmou um início de ano forte para a atividade, mostrando crescimento de 0,8% contra o trimestre anterior. A expansão veio do setor de serviços e da agropecuária. O crescimento da massa salarial e os estímulos fiscais contribuíram para estimular a expansão de serviços nestes primeiros meses do ano. Já a agropecuária se beneficiou de uma safra elevada de grãos. Mantemos nossa projeção de crescimento do PIB em 2,2% neste ano e de 1,2% em 2025.

O crescimento acima do que consideramos ser o potencial do Brasil (cerca de 1,5%) deve contribuir para manter a taxa de desemprego em patamar baixo. Novas surpresas nos dados de mercado de trabalho nos levaram a rever a projeção de taxa de desemprego para o final de 2024 e de 2025 de cerca de 7,5% para algo mais próximo de 7%. A forte expansão da renda real corrobora nossa visão de mercado de trabalho aquecido.

Do lado fiscal, o setor público registrou déficit de 2,3% do PIB em 2023.Os gastos públicos continuarão sendo um impulso para a economia em 2024. Ajustamos nossa projeção de um déficit primário de 0,7% do PIB para 0,8% neste ano devido aos programas de ajuda e recuperação do Rio Grande do Sul. Para 2025, mantemos nossa projeção de déficit de 0,9%. Acreditamos que o crescimento dos gastos obrigatórios possa comprometer o limite de despesas para os próximos anos. 

Na nossa visão, apesar de o novo arcabouço ser um passo importante para a sustentabilidade fiscal, na ausência de outras reformas que permitam reduzir os gastos obrigatórios, será necessária uma forte queda dos juros reais para impedir o crescimento da dívida do país.

A dívida líquida do governo encerrou o ano de 2023 em 60,9%. Para 2024 e 2025, a tendência de alta deve prosseguir, intensificada por juros terminais mais elevados – projetamos dívida líquida em 63,9% e 66,6% do PIB, respectivamente.

Acreditamos que o real deve continuar a depreciar, influenciado principalmente pela alta da dívida líquida do governo. Projetamos câmbio em R$ 5,30 ao final de 2024 e em R$5,50 ao final de 2025.

Os dados recentes de transações correntes mostraram nova piora. Revisamos nossa projeção de conta corrente de um déficit de US$ 18 bi para um déficit de US$ 33 bi em 2024. A piora recente observada no resultado da balança comercial e na conta de serviços também nos levou a rever nossa projeção de conta corrente para 2025. Projetamos déficit de US$25 bi para as transações correntes em 2025.  

O IPCA-15, a prévia da inflação oficial, acumula uma alta de 3,7% em maio. A desaceleração recente do índice se deve a fatores pontuais e não muda nossa visão de que a inflação deve se manter acima da meta nos próximos anos. Na nossa visão, o mercado de trabalho aquecido e o crescimento dos salários devem continuar pressionando a inflação de serviços. Essa dinâmica impõe desafios à trajetória da inflação à meta. Projetamos alta de 4,7% para o IPCA em 2024 e de 5% em 2025.

O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic de 10,75% para 10,5% em maio. Foi a sétima redução consecutiva nos juros, mas desta vez em um ritmo menor, de 25 pontos-base. Os membros do Banco Central deixaram em aberto os próximos passos de política monetária, não se comprometendo com mais cortes. Os discursos do presidente do Banco Central, logo após a decisão de juros de maio, reforçaram a preocupação do BC com a desancoragem das expectativas de inflação. Diante da contínua piora das expectativas de inflação, ainda que em ritmo lento, e da depreciação recente do câmbio, nossa expectativa agora é que o BC tenha terminado o ciclo de corte de juros e mantenha a taxa Selic em 10,5%. Na nossa visão, a resiliência dos preços de serviços e os dados fortes de atividade econômica são um obstáculo para a desaceleração da inflação. Revisamos nossa projeção de Selic de 10,25% para 10,5% em 2024. Para 2025, mantemos a expectativa para a taxa de juros em 9%.

Projeções macroeconômicas do C6 Bank

 201920202021202220232024P2025P
Atividade   
Crescimento Real do PIB1,2%-3,3%4,8%3,0%2,9%2,2%1,2%
PIB Nominal (R$ bi)7.3897.6109.01210.08010.85611.54212.374
Fiscal 
Resultado Primário (% PIB)-0,8%-9,2%0,7%1,2%-2,3%-0,8%-0,9%
Dívida Líquida (% PIB)54,7%61,4%55,1%56,1%60,9%63,9%66,6%
Dívida Bruta (% PIB)74,4%86,9%77,3%71,7%74,4%79,0%82,6%
Setor Externo 
R$/US$ (final de período)4,035,205,585,284,95,35,5
Balança Comercial (US$ bi)27323644817474
Conta Corrente (US$ bi)-68-28-46-48-31-33-25
Conta Corrente (% PIB)-3,6%-1,9%-2,8%-2,5%-1,4%-1,4%-1,1%
Inflação 
IPCA (Var. a/a)4,3%4,5%10,1%5,8%4,6%4,7%5,0%
Juros 
Selic (dez)4,50%2,00%9,25%13,75%11,75%10,50%9,00%
        
        

P=Projeção
Fontes: IBGE, BCB, Bloomberg, C6 Bank.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.
Os números contidos nos gráficos de desempenho referem-se ao passado; o desempenho passado não é garantia de resultados futuros.
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