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Resumo semanal: atividade e inflação global em alta

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

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Confira as principais notícias da semana (20/2-24/2), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: inflação acima do esperado

O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) aumentou 0,6% em janeiro em relação ao mês anterior, segundo dados do Departamento do Comércio americano. Preços tanto de bens como de serviços subiram 0,6%. O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, acelerou para 0,6% no mês e em doze meses acumula alta de 4,7%, bem acima da meta de 2% do Banco Central americano (Federal Reserve – Fed). A composição do índice de janeiro mostra que o núcleo da inflação continua pressionado pelos preços de serviços. Este comportamento reflete os altos preços de aluguéis e o mercado de trabalho aquecido, que aumenta os salários acima da produtividade e pressiona a inflação.  O índice PCE acumula alta de 5,4% nos últimos doze meses.

A ata da reunião do Fed trouxe poucas novidades. O documento indicou que a autoridade monetária segue comprometida em trazer a inflação para a meta, deve realizar mais aumentos de juros à frente e decisões futuras continuam dependentes de dados. Chamou a atenção, no entanto, que apesar de grande parte dos membros do Comitê preferir reduzir o ritmo de aumento de juros de 50 para 25 pontos-base, alguns poucos preferiam manter o ritmo anterior (de 50). Tal divergência e falas recentes de membros do Fed sugerem um possível aumento das projeções de juros terminais que serão apresentadas na próxima reunião, em março. Acreditamos que o Banco Central americano continuará subindo os juros, com pelo menos mais dois aumentos de 25 pontos-base, alcançando uma taxa terminal entre 5% e 5,25%, talvez um pouco acima disso. O importante, em nossa visão, é que o Fed deve manter os juros elevados por um período prolongado para consolidar o processo de desinflação. Não esperamos cortes de juros antes de meados de 2024.

A renda e o consumo das famílias seguem em alta. Houve aumento da renda de 0,6% em janeiro frente ao mês anterior, em razão de aumentos de salários do setor privado. Os gastos com consumo subiram 1,8% e houve revisão para cima do mês anterior. Houve aumento nos gastos com bens (2,8%) e com serviços (1,3%), segundo dados do Departamento do Comércio.

O PIB cresceu 2,7% no 4T22 em relação ao trimestre anterior, anualizado e com ajuste sazonal, de acordo com a segunda estimativa do Departamento do Comércio americano. A revisão para baixo do crescimento da economia ocorreu com uma desaceleração maior do consumo das famílias, que segue elevado.  No ano, o crescimento do PIB foi de 2,1%.

A atividade voltou a expandir. As prévias dos índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês) do mês de fevereiro vieram acima das expectativas de mercado. O PMI composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, subiu 3,4 pontos para 50,2, sinalizando crescimento após 7 meses consecutivos de retração. A melhora no indicador foi puxada pelo setor de serviços, enquanto manufaturas teve leve aumento: o PMI de serviços subiu 3,7 pontos para 50,5 e o PMI de manufaturas aumentou 0,9 ponto para 47,8. A criação de empregos acelerou em ambos os setores e os salários continuam pressionando a inflação.

Setor imobiliário continua enfraquecido. A venda de casas usadas diminuiu 0,7% no mês de janeiro em relação ao mês anterior, segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês), completando doze meses consecutivos de queda e levando o nível de vendas ao menor patamar desde 2010. Os estoques de casas disponíveis para venda têm aumentado na margem e os preços continuam com tendência de queda.

O mercado de trabalho segue aquecido. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 192 mil na semana encerrada em 18 de fevereiro, 3 mil abaixo da semana anterior revisada.

Europa: núcleo da inflação alcança novo recorde

O conflito entre Rússia e Ucrânia completou um ano. Moscou continua com ataques e clama pelos territórios do leste da Ucrânia e da Crimeia. O presidente ucraniano disse que a luta continua enquanto tropas russas estiverem no país. Joe Biden, presidente americano, esteve na Ucrânia, reiterando apoio inabalado e solidariedade. Por sua vez, o presidente russo, Vladimir Putin, suspendeu sua participação no tratado nuclear “New Start”, que limita o arsenal atômico de Estados Unidos e Rússia. Enquanto isso, o principal diplomata chinês esteve na Rússia e reafirmou sólida relação entre os dois países. Um plano de cessar-fogo foi apresentado pela China, mas não deve ganhar apoio; dentre as medidas estão o congelamento das tropas russas nas posições atuais em território ucraniano e a retirada de sanções à Rússia não apoiadas pelo Conselho de Segurança da ONU, onde a Rússia tem poder de veto. O presidente do Brasil também enviou proposta de paz que considera a criação de um grupo, possivelmente incluindo Índia, China e Indonésia, para mediar conversas entre os países. Os Estados Unidos planejam mais sanções a setores-chave, que geram receita à Rússia, como defesa, financeiro e tecnologia. A União Europeia segue em discussão sobre novo pacote de sanções.

Preços das commodities energéticas seguem em patamares baixos. Entre os dias 17 e 23 de fevereiro, o preço do petróleo ficou praticamente estável, girando em torno de 83 dólares por barril (Brent). O preço do gás natural subiu 3,5% no mesmo período, mas segue 40% abaixo da média de janeiro de 2022 (pré-guerra), com temperatura mais amena na Europa e estoque de gás elevado no continente. O menor preço das commodities energéticas tem aumentado a demanda de países emergentes asiáticos, como a Índia, o que pode estabilizar os preços. No fechamento de quinta-feira, o preço do gás natural estava mais de 80% abaixo do pico de preços em agosto, o que continua sinalizando perspectivas melhores de crescimento na região.

A inflação ao consumidor foi revisada para cima, conforme esperado, depois da publicação de dados oficiais da Alemanha, divulgados com atraso. O índice (CPI, na sigla em inglês) subiu um décimo para 8,6% nos últimos doze meses até janeiro, de acordo com a estimativa final do Eurostat. O núcleo da inflação teve aumento recorde de 5,3% e segue elevado. Nesse contexto, o menor preço da energia apoia melhores perspectivas de crescimento para a região. No entanto, a inflação elevada ainda deve manter o Banco Central Europeu (BCE) em alerta, possivelmente subindo os juros além da reunião de março, quando uma alta de 50 pontos-base já foi sinalizada pelo Comitê.

A atividade melhorou em fevereiro, de acordo com as prévias dos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). O índice composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, foi puxado por uma melhora forte no indicador de serviços, que subiu 2,2 pontos para 53, reforçando a expansão iniciada em janeiro. O PMI de manufaturas diminuiu levemente 0,3 ponto, permanecendo em território contracionista em 48,5. Apesar de ainda abaixo de 50, o índice de manufaturas mostrou sinais positivos; houve aumento na produção e melhora significativa dos gargalos na cadeia produtiva, o que contribui para menor pressão inflacionária; o menor preço de energia também diminuiu pressão sobre preços; empregos seguem crescendo tanto no setor de manufaturas quanto de serviços e pressionam salários.

A confiança do consumidor continua subindo. O índice reportado pela Comissão Europeia teve o quinto aumento consecutivo em fevereiro e está no maior nível em um ano. Temperaturas amenas e menor preço de energia ajudaram no avanço do índice. Apesar da melhora, a confiança segue abaixo da média pré-pandemia.

A prévia do PMI do Reino Unido também sinalizou melhora na atividade, depois de seis meses de contração. O PMI composto subiu 4,5 pontos para 53, com aumento do índice de manufaturas para 49,2 e de serviços para 53,3. Por dentro dos indicadores, os sinais foram similares ao da zona do euro, com menor gargalo na cadeia produtiva, menor pressão de preços de energia, mas empregos elevados puxando salários.

China: atividade em recuperação

A melhora do quadro de Covid-19 na China continua e levou a União Europeia a decidir por eliminar gradualmente medidas restritivas, como testagem relacionadas a passageiros vindos do país. Em evento do partido Comunista, foi declarado importante triunfo no combate à Covid-19. O setor de turismo chinês deve se recuperar totalmente até o verão deste ano, segundo estimativas próprias, depois do forte aumento de viagens durante o ano novo chinês.

O presidente Xi Jinping pode aumentar o controle sobre o sistema financeiro, segundo fontes, e possivelmente apontar aliados em posições de liderança no PBOC (Banco do Povo da China).

Em decisão no início da semana, o PBOC manteve inalteradas as taxas de juros de curto prazo (LPR 1 ano) e de longo prazo (LPR 5 anos), conforme esperado. A LPR 1 ano permaneceu em 3,65% e a LPR 5 anos em 4,3%.

Brasil

Focus: projeções de inflação voltam a subir no longo prazo

A projeção para o IPCA subiu para 2023 (de 5,79% para 5,89%), ficou praticamente estável para 2024 (de 4% para 4,02%) e subiu também tanto para 2025 (de 3,6% para 3,78%) quanto para 2026 (de 3,5% para 3,7%). Os números esperados para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) permaneceram praticamente inalterados para 2023 (de 0,76% para 0,8%) e ficaram estáveis para 2024 (em 1,5%). A taxa Selic não foi alterada para 2023 (12,75%), para 2024 (10%) e nem para 2025 (9%). Já para 2026, houve leve elevação (de 8,5% para 8,75%). As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Setor externo: saldo negativo na conta corrente em janeiro

A conta corrente registrou déficit de US$ 8,8 bilhões no mês de janeiro. Considerando o dado com nosso ajuste sazonal, houve déficit de US$ 4 bilhões. O saldo foi positivo na balança comercial, porém negativo em serviços e rendas. Em 12 meses, o saldo de transações correntes acumula déficit de 2,9% do PIB. O Investimento Estrangeiro Direto (IED) veio em US$ 6,9 bilhões, abaixo do consenso. Para 2023 e 2024, projetamos déficit de US$ 51 bi e US$ 31 bi para as transações correntes, respectivamente.

Inflação: IPCA-15 de fevereiro corrobora cenário de queda lenta da inflação

O IPCA-15 de fevereiro registrou alta de 0,75%, em linha com a nossa projeção (0,76%) e um pouco acima do consenso de mercado (0,72%). O índice acumula alta de 5,6% na variação em 12 meses, número inferior a alta de 5,9% registrada no mês anterior. A média dos núcleos da inflação calculada pelo Banco Central, uma medida mais limpa da tendência dos preços, já mostra desaceleração, mas segue em patamar elevado. O indicador acumula alta de 8,4% em 12 meses. A inflação de serviços, na mesma métrica, está em 7,6% e a de bens industriais em 8%. A inflação de serviços sofre com os efeitos da inércia inflacionária e, por isso, deve demorar mais a ceder. Projetamos que o IPCA termine 2023 em 5,8%. Para 2024, nossa previsão é que a inflação fique em 5%.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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