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Resumo semanal: bancos centrais mantêm o curso em meio às incertezas

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

Atualizado em

C6 Bank Felipe Salles. Foto: Germano Lüders

Confira as principais notícias da semana (20/3-24/3), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: FED aumenta juros e reforça confiança no setor bancário

O Banco Central americano (Federal Reserve – Fed) subiu os juros em 25 pontos-base e sinalizou mais aumentos à frente. O intervalo subiu para 4,75% a 5%, o mais alto desde 2008. O aumento foi justificado pela inflação elevada e mercado de trabalho aquecido. Aumentos futuros podem ser apropriados, segundo o comunicado, para trazer a inflação para a meta. A decisão foi unânime. Membros do comitê de política monetária mantiveram suas expectativas de taxa de juros terminal de 5,1% este ano e preveem crescimento baixo em 2023 de 0,4%.  No comunicado, o comitê deixa claro que o sistema bancário americano é sólido. O presidente do Banco, Jerome Powell, disse que não espera cortes de juros este ano e acrescentou que a decisão de aumento da taxa de juros está relacionada a dados macroeconômicos fortes e que outros instrumentos devem ser usados para lidar com instabilidade financeira. A decisão do Fed veio conforme esperávamos. Em nossa visão, a taxa terminal de juros deve ficar próxima à sinalizada pelo Banco. Não esperamos que os juros americanos caiam antes de meados de 2024 em razão da inflação alta, que deve demorar a ceder.

A secretária do Tesouro, Janet Yellen, falou ao Congresso americano que reguladores estão preparados para proteger depósitos bancários se necessário, em mais uma tentativa de acalmar preocupações relacionadas ao setor bancário.

A atividade segue em expansão. As prévias dos índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês) do mês de março vieram acima das expectativas de mercado. O PMI composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, subiu 3,2 pontos para 53,3, sinalizando crescimento sólido. A melhora no indicador foi puxada principalmente pelo setor de serviços que permanece indicando expansão: o PMI de serviços alcançou 53,8 pontos e o PMI de manufaturas aumentou 2 pontos para 49,3. A criação de empregos acelerou em ambos os setores e os salários continuam pressionando a inflação.

Setor imobiliário supera o pior momento. A venda de casas usadas teve forte aumento de 14,5% no mês de fevereiro em relação ao mês anterior, segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês), primeira alta após doze meses consecutivos de queda. Apesar do aumento, o nível de vendas segue fraco. Os estoques de casas disponíveis para venda permanecem baixos, mas os preços continuam com tendência de queda.

Os pedidos de bens duráveis e de bens de capital (excluindo aeronaves e equipamentos de defesa) ficaram praticamente estáveis no mês de fevereiro em relação ao mês anterior, segundo relatório do Departamento do Comércio dos Estados Unidos. Ambos os indicadores permanecem bem acima do nível pré-pandemia e indicam que investimentos seguem sólidos.

O mercado de trabalho segue aquecido. Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 191 mil na semana encerrada em 18 de março, mil abaixo da semana anterior.

Europa: BoE eleva taxa de juros com foco na meta de inflação

O conflito entre Rússia e Ucrânia está no segundo ano. Mísseis russos continuam sendo lançados sobre várias cidades. A região leste da Ucrânia segue sendo a mais afetada. O presidente chinês, Xi Jinping, esteve na Rússia e propôs um plano para terminar a guerra. Agora, o líder chinês quer o apoio de líderes europeus. Putin afirma que o plano pode ser usado como base, mas os Estados Unidos rejeitam a proposta por considerar que permitiria à Rússia permanecer em territórios ocupados na Ucrânia. O primeiro-ministro do Japão esteve na Ucrânia em demonstração de apoio a Zelensky. O Banco Mundial estima que será necessário investimento de 411 bilhões de dólares para reconstrução da Ucrânia. O acordo de exportação de grãos por portos ucranianos foi estendido. O conflito segue sem perspectiva de um fim próximo.

Preços das commodities energéticas seguem voláteis esta semana. Entre os dias 17 e 23 de março, o preço do petróleo subiu 4% revertendo parcialmente a queda da semana anterior. O preço está girando em torno de 75 dólares por barril (Brent). O aumento da incerteza global tem impactado o preço da commodity. O preço do gás natural ficou praticamente estável no mesmo período e está quase 50% abaixo da média de janeiro de 2022 (pré-guerra), com estoque de gás elevado, o que continua sinalizando perspectivas melhores de crescimento na região.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, reforçou que não vê conflitos entre as missões de trazer a inflação para a meta e manter estabilidade no sistema financeiro.  Disse que os instrumentos usados em cada caso são diferentes. Acrescentou, no entanto, que tensões no sistema financeiro podem ter impacto sobre a demanda e, portanto, podem fazer parte do trabalho da política monetária. O impacto é incerto no momento, mas precisa ser considerado na próxima decisão de política monetária.

A confiança do consumidor continua fraca. O índice reportado pela Comissão Europeia diminuiu levemente em março e continua bem abaixo da média pré-pandemia.

A atividade melhorou em março, de acordo com as prévias dos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). O índice composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, foi puxado por uma melhora forte no indicador de serviços, que subiu 2,9 pontos para 55,6, reforçando a expansão iniciada em janeiro. O PMI de manufaturas diminuiu 1,4 ponto, permanecendo em território contracionista em 47,1. Na composição do índice houve moderação na pressão de preços, mas segue elevada, melhora no emprego e confiança no panorama da economia, apesar de preocupações recentes com o setor bancário e aumento do custo de crédito. 

No Reino Unido, a atividade também segue em expansão, porém mais moderada. A prévia do PMI da região diminuiu levemente para 52,2 pontos, com resiliência na expansão de serviços. O índice de manufaturas recuou para 48 e de serviços para 52,8. Por dentro dos indicadores, o emprego segue em expansão, porém mais modesta, e a demanda para indústria segue fraca.

A inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) no Reino Unido acelerou, contra as expectativas. O índice subiu 1,1% em fevereiro frente ao mês anterior, com aumento em alimentos e no núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia. Em 12 meses, a inflação acumula alta de 10,4% e o núcleo de 6,2%, ambos elevados.

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) elevou a taxa de juros em 25 pontos-base, conforme esperado, para 4,25% ao ano – maior nível desde 2008. O aumento foi o décimo-primeiro consecutivo. O BoE justificou o aumento em razão da inflação elevada, bem acima da meta de 2%, e mercado de trabalho aquecido. Na ata da reunião, o Banco reforçou que mais aperto na política monetária pode ser necessário, se existirem evidências de pressão inflacionária persistente. A expectativa do Comitê de Política Monetária (MPC, na sigla em inglês) é que a inflação diminua significativamente no 2T23 depois de medidas de apoio do governo para reduzir preço de energia e da queda do preço do gás natural. Sobre a volatilidade recente relacionada ao setor bancário, o MPC avalia que o setor permanece resiliente na região.

China: PBoC mantém taxas de juros baixas

Em decisão no início da semana, o Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) manteve inalteradas as taxas de juros de curto prazo (LPR 1 ano) e de longo prazo (LPR 5 anos), conforme esperado. As taxas têm permanecido no mesmo patamar desde meados do ano passado. A LPR 1 ano está em 3,65% e a LPR 5 anos em 4,3%. Na semana anterior, o PBoC cortou o compulsório bancário para aumentar liquidez no sistema financeiro e apoiar o crescimento econômico, segundo o comunicado do Banco.

Brasil

Focus: projeções de inflação voltam a subir

A projeção para o IPCA ficou praticamente estável para 2023 (de 5,96% para 5,95%) e subiu para 2024 (de 4,02% para 4,11%), para 2025 (de 3,8% para 3,9%) e para 2026 (de 3,79% para 4%). Os números esperados para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não apresentaram mudanças relevantes para 2023 (de 0,89% para 0,88%) e nem para 2024 (em 1,5%). A taxa Selic não foi alterada para 2023 (12,75%), 2024 (10%) e 2025 (9%). Já para 2026, houve leve alta (de 8,75% para 9%). As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Inflação: IPCA-15 de março apresenta desaceleração

O IPCA-15 de março registrou elevação de 0,69%, praticamente em linha com a nossa projeção (0,67%) e o consenso de mercado (0,67%). O índice acumula alta de 5,4% na variação em 12 meses, número inferior a alta de 5,6% registrada no mês anterior. A média dos núcleos da inflação calculada pelo Banco Central, uma medida mais limpa da tendência dos preços, veio melhor que o esperado e mostra desaceleração, mas segue em patamar elevado. O índice está em 7,9% em 12 meses. A inflação de serviços, na mesma métrica, está em 7,6% e a de bens industriais em 7,2%. A inflação de serviços sofre com os efeitos da inércia inflacionária e, por isso, deve demorar mais a ceder. Nas nossas projeções, o IPCA acumulado em 12 meses continuará desacelerando até o meio do ano, mas a partir de então voltará a subir e deve encerrar 2023 em 6%. Para 2024, nossa previsão é que a inflação fique em 5%.

Política monetária: Copom mantém perspectiva de Selic estável

O Banco Central do Brasil (BCB) confirmou as expectativas e manteve a taxa Selic em 13,75% nesta quarta-feira (22). O Comitê afirmou que “segue vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação”.

A projeção de inflação do BCB no cenário de referência passou de 5,6% para 5,8% para 2023 e de 3,4% para 3,6% para 2024. Este cenário supõe trajetória de juros que diminui de 13,75% para 12,75% até o final de 2023, para 10% ao final de 2024 e para 9% ao final de 2025.

Apesar de o Comitê reconhecer a redução da incerteza fiscal, o comunicado continuou dando ênfase às expectativas de inflação. De fato, as projeções da Pesquisa Focus encontram-se acima das metas em 2023 (5,95% versus 3,25%), 2024 (4,11% versus 3%) e em 2025 (3,9% versus 3%). De acordo com o texto, “a recente reoneração dos combustíveis reduziu a incerteza dos resultados fiscais de curto prazo. Por outro lado, a conjuntura, marcada por alta volatilidade nos mercados financeiros e expectativas de inflação desancoradas em relação às metas em horizontes mais longos, demanda maior atenção na condução da política monetária”.

O Comitê atualizou as projeções para inflação em um cenário alternativo, no qual a taxa Selic é mantida constante ao longo de todo o horizonte relevante. Para 2023, para o terceiro trimestre de 2024 e para o final do ano de 2024 as projeções neste cenário passaram de 5,5% para 5,7%, de 3,1% para 3,3% e de 2,8% para 3%, respectivamente.

O Comitê reforçou “que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado.” Ou seja, o Comitê manteve a porta aberta para voltar a subir juros, caso necessário. 

Em suma, o comunicado sugere que o Banco Central manterá a Selic em 13,75% ao ano por período prolongado e não deu abertura para corte de juros no futuro próximo. Aguardamos a ata da reunião, que será divulgada na próxima terça-feira (28), para termos mais detalhes sobre os rumos futuros da política monetária.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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