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Resumo Semanal: Copom inicia ciclo de corte de juros

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

Atualizado em

C6 Bank Felipe Salles Foto: Germano Lüders04/08/2021

Confira as principais notícias da semana (31/7-4/8), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: contratações diminuem, mas pressão sobre o Fed permanece

O mercado de trabalho desacelera lentamente. O Departamento de Trabalho publicou dados referentes ao mês de julho. De acordo com o Establishment Survey, houve criação de 187 mil empregos no período, abaixo da expectativa de mercado. A criação de empregos tem diminuído nos últimos meses, mas segue acima da média de 2019, período pré-pandemia, quando era de 163 mil por mês. O número menor de contratações deriva em parte da menor disponibilidade de trabalhadores. O ganho médio por hora trabalhada aumentou 0,4% em relação ao mês anterior e nos últimos doze meses acumula alta de 4,4%, indicando que a pressão de salários sobre a inflação continua. O Household Survey mostrou que a taxa de desemprego caiu para 3,5%, próximo ao mínimo da série nos últimos 40 anos, com a taxa de participação permanecendo em 62,6%. Outro relatório do Departamento de Trabalho, o Jolts, mostrou redução do número de vagas de emprego em aberto no mês de junho, com o total de 9,6 milhões de vagas não preenchidas no mês. A proporção de vagas disponíveis por desempregado se manteve em 1,6 e segue bastante elevada. Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 227 mil na semana encerrada em 29 de julho, 6 mil acima da semana anterior.

Em nossa visão, o mercado de trabalho segue forte, mantendo a pressão dos salários sobre a inflação. Nossa expectativa é que o banco central americano (Federal Reserve – Fed) eleve a taxa de juros mais uma vez até o fim do ano, levando o intervalo dos juros para de 5,5% a 5,75% ao ano. Mantemos nossa visão de que os juros permanecerão elevados por um longo tempo. Não prevemos cortes de juros antes de meados de 2024.

O setor de serviços perdeu fôlego em julho. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) do Instituto ISM teve queda de 1,2 ponto para 52,7 no mês, sinalizando expansão mais moderada. Os indicadores de atividade, demanda e emprego desaceleraram, mas seguem acima de 50 (patamar considerado neutro). No entanto, preços subiram no mês e continuam elevados. No geral, o indicador tem mostrado tendência de desaceleração desde o início de 2022, em meio ao aperto monetário promovido pelo banco central americano.

A atividade na indústria segue fraca. O índice de gerentes de compras do setor de manufaturas (PMI, na sigla em inglês) do Instituto ISM subiu 0,4 ponto em julho frente ao mês anterior, para 46,4, sinalizando contração pelo nono mês consecutivo. Na composição do índice, demanda, produção e emprego permanecem baixos. Em outra pesquisa, o índice de pedidos à indústria do mês de junho, divulgado pelo Departamento do Comércio americano, registrou aumento de 0,2% no núcleo (exclui transporte), com leve expansão da demanda para a indústria.

O banco central americano divulgou pesquisa realizada com bancos locais sobre oferta e demanda por crédito – “Senior Loan Officer Opinion Survey”. Segundo o relatório, o aperto do crédito se intensificou no 2T23 em relação ao 1T23 e a demanda por crédito continuou fraca. Ambas as medidas sugerem que a economia deve crescer em ritmo lento, em meio a política monetária mais restritiva do Fed.

Europa: Reino Unido sinaliza juros elevados por longo período

A guerra entre Rússia e Ucrânia se estende pelo segundo ano. Portos e armazéns no Mar Negro continuam sendo alvo de ataques russos e ucranianos causando interrupções nos embarques de navios. O conflito segue sem perspectiva de fim próximo.

O PIB da área do euro no 2T23 cresceu 0,3% frente ao trimestre anterior, segundo a prévia divulgada pelo Eurostat. Detalhes da composição serão divulgados posterirormente. Por país, houve estagnação na Alemanha (0%), expansão na França (0,5%) e na Espanha (0,4%) e contração na Itália (-0,3%).

A inflação ao consumidor desacelerou, mas segue alta e com núcleo resiliente. O índice (CPI, na sigla em inglês) diminuiu de 5,5% para 5,3% nos últimos doze meses até julho, segundo a prévia do Eurostat, com queda no preço de energia e desaceleração no preço de alimentos. Entre as maiores economias do bloco, a inflação desacelerou na Alemanha (6,5%), França (5%), Itália (6,4%) e Espanha (2,1%).  Por outro lado, o núcleo da inflação, que exclui alimentos, energia, álcool e tabaco, permaneceu em 5,5%, bem acima da meta.

O mercado de trabalho continua robusto. A taxa de desemprego alcançou mínimo histórico, em 6,4% em junho, e deve manter pressão sobre salários. O índice divulgado pelo Eurostat mostra heterogeneidade entre as economias do bloco. O desemprego permanece baixo na Alemanha (3%), mas alto na Espanha (11,7%).

Os preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) diminuíram 0,4% em junho frente ao mês anterior, segundo o Eurostat. A queda foi a quinta consecutiva. Em 12 meses, o PPI apresentou deflação de 3,4%, o que deve ajudar a diminuir a pressão sobre os preços ao consumidor.

As vendas no varejo diminuíram levemente em junho frente ao mês anterior, segundo o Eurostat, mostrando uma certa estabilidade em patamar abaixo da tendência pré-pandemia. A venda de alimentos, no entanto, segue tendência de queda.

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) subiu a taxa de juros em 25 pontos-base, conforme esperado, levando a taxa para 5,25% ao ano – maior nível em 15 anos. O aumento foi o décimo-quarto consecutivo. O BoE justificou a alta em razão da inflação persistente, que continua bem acima da meta de 2%, e do mercado de trabalho aquecido, com sinais incipientes de alívio. Na ata da reunião, o Banco manteve que mais aperto na política monetária pode ser necessário se existirem evidências de continuidade na pressão inflacionária e acrescentou que manterá uma política restritiva por tempo suficientemente longo para que a inflação retorne a meta de 2% no médio prazo, em linha com o mandato do Banco.

China: mais medidas de suporte à economia

A atividade continuou desacelerando em julho, segundo os índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês), calculados pelo Escritório Nacional de Estatísticas chinês (NBS, na sigla em inglês). Depois de um primeiro trimestre forte com a reabertura pós-pandemia, o PMI composto, que considera o setor de manufaturas, construção e serviços, perdeu fôlego e diminuiu para 51,1 pontos, sinalizando crescimento mais moderado no início do 3T. A diminuição do índice composto foi causada por uma redução no índice de construção e serviços, que sinalizam expansão, porém mais moderada. O índice de manufaturas melhorou na margem, mas continua indicando contração pelo quarto mês consecutivo.

Depois de sinal do Politburo de mais apoio à economia, alguns anúncios foram feitos esta semana. O governo chinês divulgou medidas para estimular o consumo, sem oferecer suporte fiscal, mas diminuindo restrições sobre a demanda. Além disso, grandes cidades chinesas, como Pequim, Shenzen, disseram que vão apoiar compra de imóveis. A cidade de Zhengzhou, considerada cidade de médio porte, foi a primeira a anunciar estímulo ao setor imobiliário, removendo algumas restrições de compra, ampliando acesso a crédito imobiliário, encorajando reajuste nas taxas de financiamento de imóveis e reduzindo valores dados como entrada para compra. A expectativa é que outras cidades de médio e grande porte sigam na mesma direção.

O Banco do Povo da China (PBOC, na sigla em inglês) realizou evento com empresários do setor privado, incluindo de construtoras, e prometeu aumentar apoio ao financiamento. O PBOC também falou em reduzir o compulsório e taxas de juros para apoiar a economia.

Commodities: preços de grãos recuam

Os preços das commodities energéticas seguem baixos. Entre os dias 27 de julho e 3 de agosto, o preço futuro do petróleo (Brent) ficou praticamente estável, depois de aumento de 5% na semana anterior. O preço está girando em torno de 85 dólares por barril, em meio a uma desaceleração da atividade global acompanhada por menor oferta de grandes produtores de petróleo. A Arábia Saudita e Rússia decidiram estender para setembro o corte de produção de 1 milhão de barris por dia. Já o preço futuro do gás natural na Europa subiu 7%, com corte maior que o esperado na produção da Noruega em meio a manutenção sazonal. Apesar do aumento, o preço da commodity continua bem abaixo (menos da metade) da média de janeiro de 2022 (pré-guerra).

As turbulências diminuíram no mercado de grãos. O preço futuro do trigo recuou ao longo da semana e terminou o período (dias 27 de julho e 3 de agosto) com queda de 12% na bolsa de Chicago, voltando ao patamar do início de julho antes do fim do acordo de exportação entre Rússia e Ucrânia. A Ucrânia é um dos maiores produtores e exportadores da commodity, mas a elevada oferta global de trigo tem diminuído pressões no mercado. Os preços do milho e da soja também recuaram, com chuvas aliviando a situação de seca no cinturão de plantio americano.

Brasil

Focus: projeções de Selic registram leve queda

As projeções para o IPCA contraíram para 2023 (de 4,9% para 4,84%) e ficaram estáveis para 2024 (de 3,9% para 3,89%), para 2025 (3,5%) e para 2026 (3,5%). Os números esperados para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não tiveram alterações para 2023 (2,24%) e nem para 2024 (1,3%). A taxa Selic permaneceu em 12% para 2023, porém caiu para 2024 (9,5% para 9,25%), para 2025 (de 9% para 8,75%) e para 2026 (de 8,63% para 8,5%). As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Atividade: produção industrial estagnada A produção industrial de junho cresceu 0,1% frente ao mês anterior. O resultado veio levemente acima do esperado pelas projeções do mercado. Apesar do número positivo, a produção industrial está praticamente parada desde o ano passado. A indústria de transformação e a indústria extrativa registraram variações de -0,2% e 2,9%, respectivamente. À frente, nossa expectativa é que a indústria fique de lado ou apresente contração. A política monetária contracionista, a desaceleração global e a queda dos preços das commodities contribuem para esta tendência. Projetamos crescimento do PIB de 2,5% neste ano. Para 2024, projetamos alta de 1%.

Política monetária: Copom inicia ciclo de corte de juros

O Banco Central do Brasil (BCB) surpreendeu a mediana das expectativas e reduziu a taxa Selic de 13,75% para 13,25% nesta quarta-feira (2). O Comitê afirmou que a “conjuntura atual, caracterizada por um estágio do processo desinflacionário que tende a ser mais lento e por expectativas de inflação com reancoragem parcial, demanda serenidade e moderação na condução da política monetária”.

Vale mencionar que esta foi uma decisão dividida: quatro membros votaram pela redução de 0,25 ponto percentual e cinco membros (incluindo os novos diretores, Ailton Aquino e Gabriel Galípolo, e o presidente Roberto Campos Neto) votaram pela redução de 0,5 ponto percentual.

A projeção de inflação do BCB no cenário de referência passou de 5% para 4,9% para 2023 e permaneceu em 3,4% para 2024. Uma novidade deste comunicado foi a inclusão da projeção de 3% para o ano de 2025, que passou a ser considerado no horizonte relevante, em grau menor. O cenário supõe trajetória de juros que diminui de 13,75% para 12% até o final de 2023, para 9,25% ao final de 2024 e para 8,75% ao final de 2025. Ou seja, as projeções de inflação do Banco Central seguem acima da meta para o ano de 2024, horizonte para o qual o Comitê dá maior ênfase nesta reunião.

O comunicado mencionou que “em se confirmando o cenário esperado, os membros do Comitê, unanimemente, anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”. Ou seja, apesar do dissenso nesta última reunião, a comunicação do comitê foi nítida em indicar, com a concordância de todos os seus membros, quedas de 50 pontos-base para as próximas reuniões.

Esperamos cortes de 50 pontos-base para as reuniões restantes do ano. Projetamos agora Selic em 11,75% ao final de 2023 e 9,25% ao final de 2024. Aguardamos a ata da reunião, que será divulgada na próxima terça-feira (8), para termos mais detalhes sobre os rumos futuros da política monetária.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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