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Resumo semanal: Copom reduz ritmo de corte e sinaliza possível fim do ciclo

Confira as principais notícias da semana (6/5-10/5), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Atualizado em

Felipe Salles, Head de Economia do C6 Bank, em pé em uma sala de reunião do banco C6 Bank
Felipe Salles, head de economia. Foto: Germano Lüders.

Internacional

Estados Unidos: membros do Fed minimizam as chances de alta de juros

As condições de crédito estão menos restritivas no início de 2024 comparadas a 2023, segundo relatório do banco central americano (Federal Reserve, Fed). A pesquisa realizada com bancos americanos mostrou que as condições seguem favoráveis para empresas, indústrias e famílias.

Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego subiram para 231 mil na semana encerrada em 4 de maio. Apesar do aumento, os pedidos seguem baixos para padrões históricos.

Membros do comitê de política monetária do Fed em eventos recentes reforçaram a mensagem do presidente do Banco na semana passada, de que os juros devem permanecer elevados por mais algum tempo, mas acreditam que o nível atual de juros está restritivo o suficiente para levar a inflação à meta, sinalizando que não esperam alta de juros. Em nossa visão, a inflação persistente pode levar o Fed a não cortar juros este ano.

Europa: Reino Unido tem forte crescimento no 1T24

A guerra entre Rússia e Ucrânia está no terceiro ano e continua sem perspectiva de fim próximo.

Os preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) diminuíram 0,4% em março frente ao mês anterior, quinta queda consecutiva, de acordo com dados do Eurostat. Em 12 meses, o PPI apresenta deflação de 7,8%, o que deve continuar ajudando a diminuir a pressão sobre os preços ao consumidor.

As vendas no varejo tiveram leve melhora em março, o índice subiu 0,8% frente ao mês anterior depois de contrair em fevereiro, segundo o Eurostat. O dado veio um pouco melhor do que o esperado, mas segue abaixo da tendência pré-pandemia.

A ata da reunião de abril do Banco Central Europeu (BCE) mostrou que os membros do comitê de política monetária continuam vendo progresso na desaceleração da inflação em direção à meta e consideram plausível uma redução dos juros em junho – alguns poucos membros já gostariam de ver uma redução em abril. Em nossa visão, o BCE deve cortar juros em junho em razão de uma desaceleração da inflação e da fraqueza na atividade. 

No Reino Unido, a economia cresceu no 1T24 em relação ao trimestre anterior, de acordo com a primeira estimativa do Escritório Nacional de Estatísticas (ONS, na sigla em inglês). A expansão foi de 0,6% no período, depois de retração nos dois trimestres anteriores, e foi a maior expansão desde 2022. Na composição do índice, houve forte crescimento dos investimentos, que seguem robustos, porém houve crescimento moderado do consumo. Em março, a produção da indústria continuou em expansão frente ao mês anterior e a de serviços acelerou, enquanto o setor de construção segue em contração.

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros em 5,25% ao ano, conforme esperado – maior nível em 16 anos. A pausa foi a sexta consecutiva depois de 14 aumentos. Apesar de os juros continuarem estacionados, dois membros do comitê votaram por um corte, diferentemente da reunião anterior, em que apenas um membro preferia um corte. A ata manteve que a política monetária restritiva deve continuar por tempo suficientemente longo para que a inflação retorne à meta de 2%. No entanto, o documento acrescentou que indicadores chave têm mostrado uma menor persistência da inflação. O presidente do BoE, Andrew Bailey, afirmou que a inflação deve continuar desacelerando e se aproximar da meta em breve. Acrescentou também que os dados a serem divulgados até a reunião de junho devem ajudar na próxima decisão de política monetária. Bailey não descarta um corte de juros em junho. Em nossa visão, os juros devem permanecer em pausa, em razão da persistência da inflação de serviços, no entanto, um corte de juros deve ocorrer no segundo semestre.

China: exportações sólidas, importações fortes

A balança comercial teve superávit de 72,3 bilhões de dólares em abril, menor que o esperado, mas acima do mês anterior. Houve crescimento forte das importações, 8,4%, comparado ao mesmo mês do ano anterior, e um aumento moderado de 1,5% das exportações, que seguem sólidas. Por região, as exportações tiveram forte crescimento para os Estados Unidos e Europa e continuaram firmes para países emergentes na Ásia, América Latina e África. Os principais produtos exportados estão diversificados, desde produtos de baixo custo (calçados, vestuário, brinquedos) a mais sofisticados (celulares e computadores). A participação da China nas exportações globais deu um salto em 2020 e segue elevada, em torno de 14%. O país tem movido parte da cadeia de produção para países do sudeste asiático e México.

Commodities: clima adverso pressiona preço de grãos

O conflito entre Israel e o Hamas está próximo de completar sete meses. A crise geopolítica pode demorar algum tempo. Até o momento não houve uma escalada do conflito na região, que é a maior exportadora mundial de petróleo.

O preço futuro do petróleo (Brent) continua em 84 dólares por barril, com pouca variação em relação à semana anterior. O preço reflete uma redução das preocupações com Oriente Médio. Membros da Organização de Países Exportadores de Petróleo e aliados decidirão, no início de junho, sobre uma possível extensão de cortes da produção para além do 2T24.

O preço futuro do gás natural na Europa permaneceu estável na semana, depois de maior volatilidade nas semanas anteriores. Os estoques seguem elevados na região e o fim da temporada de aquecimento se aproxima, o que reduz o consumo da commodity. O preço segue baixo, menos de 40% do que era antes do início da guerra entre Rússia e Ucrânia.

Os preços futuros das commodities agrícolas na Bolsa de Chicago seguem em alta. Entre os dias 2 e 9 de maio, o preço do trigo voltou a subir (5,5%) em razão do clima adverso em grandes produtores (Rússia, EUA, Europa Ocidental, Austrália) e dificuldade de produção na Ucrânia, país que segue em guerra contra a Rússia. O preço do milho recuou na semana (-2%). O preço da soja apresentou alta volatilidade: subiu mais de 3,5% em um único dia devido a preocupações quanto a safra do sul do Brasil depois de enchentes na região, mas, no fim da semana, recuou ao patamar da semana anterior. O Brasil é o maior produtor e exportador de soja e o estado do Rio Grande do Sul representa 8% da produção nacional.

Brasil

Focus: alta nas projeções de Selic para 2026

As projeções para o IPCA ficaram praticamente estáveis para 2024 (de 3,73% para 3,72%), subiram para 2025 (de 3,6% para 3,64%) e não tiveram mudanças para 2026 (3,5%). O número esperado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) teve leve alta para 2024 (de 2,02% para 2,05%) e ficou estável para 2025 (2%). A taxa Selic passou de 9,5% para 9,63% para 2024 e permaneceu em 9% para 2025. Para 2026, a taxa passou de 8,63% para 8,75%, sendo a segunda semana consecutiva com elevação nas projeções. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Gráfico de linhas sobre projeções focus do IPCA porcentagem ano a ano. Analise das medianas desde janeiro de 2022 a maio de 2024 em comparação com a meta de inflação para 2024 e 2025, evidenciando projeções que se distanciam da meta.

Atividade: varejo ampliado fraco

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) de março registrou leve queda de 0,3% frente ao mês anterior no volume de vendas no comércio varejista ampliado, pior do que o esperado por nós e pelo mercado. Em relação ao nosso número, a maior surpresa negativa veio novamente do setor de atacarejo. Na comparação com março de 2023, as vendas desse segmento tiveram uma forte queda de 23%. No varejo restrito, as vendas ficaram estáveis no comparativo mensal e subiram 5,7% no anual. Para 2024, o varejo deve contribuir positivamente para o PIB.

Gráfico de linhas sobre projeções Varejo Ampliado com ajuste sazonal jan/22 = 100. Analise das medianas desde janeiro de 2022 a março de 2024.

Inflação: IPCA em linha no mês, porém inflação de serviços ainda pressionada

A inflação medida pelo IGP-M apontou alta de 0,72% em abril, acima da mediana das projeções do mercado (0,68%). A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com expansão de 1,1%. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – subiu 0,2%. No acumulado em 12 meses, o índice contraiu 2,3% – uma deflação menor do que a registrada no mês anterior (4%). O IPA agrícola, em 12 meses, está no patamar de -7,8% e o núcleo do IPA industrial em -1,4%.

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), indicador de inflação oficial do país, subiu 0,38% em março, segundo dados divulgados hoje pelo IBGE. Esse resultado veio em linha com a nossa projeção e acima da projeção do mercado (0,33%). Nos últimos 12 meses, o IPCA acumula uma alta de 3,7%. A inflação de março foi influenciada pelo aumento de preços da gasolina (1,5%) e dos tubérculos (8,1%). Por outro lado, as passagens aéreas caíram 12,1%, ajudando a amenizar parte da alta mensal. Na nossa visão, o mercado de trabalho aquecido e o crescimento dos salários devem continuar pressionando os preços de serviços. A inflação de serviços subjacentes, número que é acompanhado com mais atenção pelo Banco Central, segue em patamar elevado (4,7% no acumulado em 12 meses). Projetamos IPCA de 4,7% em 2024 e de 5% para 2025.

Gráfico de linhas sobre serviços e bens industriais no acumulado de 12 meses. Analise sobre a alta do IPCA.

Política monetária: Ciclo de redução de juros perto do fim

O Banco Central do Brasil (BCB) reduziu a taxa Selic de 10,75% para 10,5% nesta quarta-feira (8). Na decisão de quarta, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por uma redução menor do que a previamente sinalizada. A ata da reunião de março havia apontado para um corte de 50 pontos-base. Houve, portanto, uma mudança no rumo da política monetária.

A decisão não foi unânime. Dos nove membros votantes, cinco votaram a favor de uma redução de 25 pontos-base, inclusive o presidente Roberto Campos Neto. Os demais – todos indicados pelo governo atual- votaram a favor de uma redução mais intensa, de 50 pontos-base.

O comunicado trouxe um tom mais preocupado com o cenário externo, reforçando que o ambiente “mostra-se mais adverso, em função da incerteza elevada e persistente referente ao início de flexibilização de política monetária nos Estados Unidos”.

Em relação ao cenário doméstico, o Copom apontou para um mercado de trabalho com maior dinamismo, sinalizando mais preocupação com a dinâmica da inflação de serviços à frente. Adicionalmente, o comunicado reiterou a importância da política fiscal para a ancoragem das expectativas de inflação e, consequentemente, para a condução da política monetária. O Banco Central mostrou, com isso, desconforto com a mudança das metas de superávit primário dos próximos anos. Por fim, ao se referir às expectativas de inflação como “desancoradas”, ao invés de “com reancoragem apenas parcial”, como havia dito anteriormente, o Copom deixou claro que está incomodado com o aumento das projeções de inflação do Boletim Focus.

As projeções de inflação no cenário de referência do Copom (que considera juros de 9,63% ao fim de 2024 e de 9% ao final de 2025) passaram de 3,5% para 3,8% para 2024 e de 3,2% para 3,3% para 2025 (acima da meta estabelecida de 3%). Vale lembrar que, nesta reunião de maio e na próxima de junho, o horizonte relevante de política monetária considera somente o ano de 2025.

É importante notar que o Comitê optou por não sinalizar os próximos passos de política monetária. Acreditamos que, com isso, o Copom optará por manter a Selic onde está ou reduzir a taxa em 25 pontos-base na reunião de junho, a depender da evolução do cenário macroeconômico.

Projetamos, por ora, Selic em 10,25% ao final de 2024, com mais um corte de 25 pontos-base. Aguardamos a ata da reunião, que será divulgada na próxima terça-feira (14), para termos mais detalhes sobre os rumos da política monetária.

Rio Grande do Sul: em estado de calamidade pública

O país acompanhou, nas últimas duas semanas, os impactos causados pelas intensas chuvas no Rio Grande do Sul. Mais de 300 municípios gaúchos declararam estado de calamidade pública, em razão dos alagamentos.

Até a publicação deste relatório, foram contabilizadas 113 mortes, 146 pessoas desaparecidas e cerca de 1,9 milhão de pessoas afetadas de alguma forma – seja pela falta de água e luz ou pela necessidade de deixar suas casas. Os números dão dimensão da tragédia que vive a população do estado. Os impactos, em especial os econômicos, ainda deverão ser calculados.

O governo federal anunciou medidas de socorro ao Rio Grande do Sul. Serão liberados R$ 50,9 bilhões para ajudar famílias e empresas e para iniciar a reconstrução das cidades. O impacto fiscal primário nas contas públicas é de R$ 7,7 bilhões, pois boa parte das medidas trata de antecipação de recursos e concessão de crédito com desconto. Na semana que vem, serão anunciadas a proposta para um acordo sobre a dívida do estado e medidas direcionadas à população.

O Rio Grande do Sul representa 6% do PIB brasileiro. O estado é um importante produtor de alimentos, como arroz, trigo, soja, carne e leite. Cálculos preliminares indicam que um aumento dos preços desses produtos pode causar uma alta adicional de 0,2 a 0,4 ponto percentual no IPCA. Entretanto, parte desse aumento deve ser temporário e revertido assim que a situação se normalizar, mas não descartamos um efeito mais duradouro nos preços em todo o país.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

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