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Relatório mensal: Fed sinaliza possível fim do ciclo

Equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulga projeções

Atualizado em

C6 Bank Felipe Salles Foto: Germano Lüders 04/08/2021

A equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulgou nesta quinta-feira (11) mais uma edição do seu relatório macroeconômico. Confira, abaixo, a íntegra do documento:

Resumo

Internacional

A economia global segue em um momento de incerteza. Existem sinais de que a turbulência no setor bancário americano foi contida, mas ainda é precipitado garantir que a questão está resolvida. Outro fator de risco é a possibilidade de o governo federal dos Estados Unidos não cumprir suas obrigações financeiras por ter alcançado o limite de endividamento permitido. O espaço de tempo para que negociações no Congresso aumentem o limite da dívida e evitem uma ruptura financeira é curto. Estas incertezas têm impacto na economia global e têm levado os bancos centrais a serem cautelosos em decisões de juros. 

A economia americana segue em ritmo lento de atividade, depois de aumentos de juros seguidos por parte do banco central americano (Federal Reserve – Fed). A inflação segue alta, mas com composição heterogênea e desacelerando: preços de bens recuaram, mas serviços seguem pressionados. O mercado de trabalho continua aquecido, com a taxa de desemprego voltando ao menor nível desde 1970, em 3,4%. O Fed elevou a taxa de juros em 25 pontos-base em maio, mas sinalizou uma possível pausa, a depender dos dados. A comunicação do Fed corrobora nossa visão de que a taxa de juros americana deve permanecer no nível atual, ou um pouco acima, por longo tempo. Não prevemos cortes nos juros até meados de 2024.

Na área do euro, a crise energética arrefeceu, com acesso a fontes alternativas de energia, estoques de gás natural elevados e temperatura mais amena. O Banco Central Europeu (BCE) subiu os juros em 25 pontos-base na reunião de maio e reforçou que próximas decisões seguem dependentes de dados. A presidente do BCE, Christine Lagarde, reforçou que o ciclo de alta de juros continua. No Reino Unido, a inflação segue elevada, em dois dígitos, e o Banco da Inglaterra subiu juros e também sinalizou que o ciclo de alta continua.

O Japão é um caso à parte em termos de política monetária. O país mantém a taxa de juros negativa, desde meados de 2016, e continua com o programa de compra de ativos. O Banco, no entanto, sinalizou que começará uma revisão de suas políticas. A inflação, no nível mais alto desde 1981, encontra-se acima da meta.

Na China, a atividade pode estar perdendo força em abril depois de um primeiro trimestre forte com a melhora do quadro de Covid-19. O crédito teve menor expansão e o indicador de atividade industrial sinalizou leve contração. A inflação segue baixa, em razão de uma demanda contida decorrente de um mercado de trabalho ainda fraco e menores preços de commodities.

Brasil

A economia apresentou um bom desempenho no ano passado: alta de 2,9%.  No entanto, as condições que possibilitaram o sólido crescimento na primeira metade de 2022 já não estão mais presentes. Os dados de atividade mostram sinais de enfraquecimento, ainda que menos intenso do que o esperado. Mantivemos nossa projeção de crescimento do PIB de 1,5% para 2023 e de 1% para 2024.

O resultado primário do setor público consolidado encerrou o ano de 2022 com um superávit de 1,3%, influenciado por aumentos temporários da receita. Neste ano, devemos voltar a ter déficit primário. Projetamos déficit para o setor público consolidado de 1% para 2023, já incorporando parte das medidas fiscais anunciadas pelo governo.  Para 2024, projetamos déficit de 0,7% do PIB.

Em nossa visão, a taxa de câmbio nos patamares atuais, historicamente elevados, reflete riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público. Acreditamos que a piora da trajetória da dívida líquida do governo e a perspectiva de queda antecipada da Selic devem sustentar a depreciação do real. Projetamos taxa de câmbio de R$ 5,30 ao final de 2023. Para frente, a taxa de câmbio deve continuar depreciando, influenciada principalmente pela elevação da dívida. Projetamos dólar em R$ 6 ao final de 2024.

A dinâmica inflacionária recente mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada principalmente pela forte redução dos bens monitorados. Acreditamos que a inflação irá continuar alta e os preços livres devem desacelerar de forma gradual à frente. Para 2023, mantivemos nossa projeção de IPCA em 6%. Para 2024, esperamos que a inflação desacelere lentamente. Incorporamos no cenário metas de inflação mais elevadas, de 4,5%, de 2024 em diante e com isso projetamos IPCA para 2024 em 5,5%.

O Copom manteve a taxa Selic estável em 13,75% na reunião de maio. Na nossa visão, a comunicação do Banco Central busca sinalizar que, por ora, a manutenção da taxa de juros no patamar atual de 13,75% é compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante de política monetária. No entanto, a expectativa de alteração da meta de inflação para 4,5% a partir de 2024 abre espaço para um corte de juros antecipado, a partir de setembro deste ano. Mantivemos a projeção de Selic em 12,5% ao final de 2023. Para 2024, esperamos 11% ao final do ano.

Panorama Global

EUA

A crise bancária iniciada em março, com o colapso de dois bancos regionais, teve mais um capítulo no início deste mês com a quebra de um terceiro banco regional, assumido pelo FDIC (órgão análogo ao Fundo Garantidor de Crédito no Brasil) e leiloado prontamente. Os reguladores continuam tomando medidas tempestivas, o que ajuda a evitar um contágio no sistema bancário. Indicadores relacionados ao setor continuam sugerindo uma melhora da liquidez dos bancos: a saída dos depósitos bancários está praticamente normalizada e os pedidos de empréstimo dos bancos comerciais ao banco central americano (Federal Reserve – Fed) reduziram para a metade do pico de março. Apesar desses sinais positivos, ainda é precipitado para dizer que o problema está resolvido. Mesmo que não haja um agravamento do quadro, o crédito pode se tornar mais escasso, com bancos reservando uma maior parte de seu capital para reduzir riscos de liquidez.

A secretária do Tesouro americano, Janet Yellen, alertou que a instituição pode não ter como cumprir suas obrigações financeiras a partir de 1 de junho caso o limite do endividamento público não seja aumentado ou suspenso pelo Congresso. A data surpreendeu investidores, que esperavam um prazo maior para as negociações entre democratas e republicanos. As posições nas conversas são bem distantes, com republicanos exigindo cortes nos gastos públicos. Historicamente, o governo americano nunca deixou de pagar suas dívidas. Caso isso aconteça, um impacto significativo na economia americana é esperado, com analistas prevendo forte queda do PIB, a depender de quanto tempo dure o impasse. Parece pouco provável que congressistas não cheguem a um acordo até a data limite ou próximo a ela considerando os riscos envolvidos.

O PIB teve aumento moderado de 1,1% no 1T23 em relação ao trimestre anterior, anualizado e com ajuste sazonal, de acordo com a primeira estimativa do Departamento do Comércio americano.  O resultado veio abaixo do esperado pelo mercado. Na composição do indicador, nota-se que o consumo das famílias teve forte contribuição para o crescimento do PIB, em um cenário de mercado de trabalho aquecido. O que puxou o indicador para baixo foi o ajuste de estoques das empresas, enquanto consumo acelerou.

O Fed subiu os juros em 25 pontos-base e sinalizou uma possível pausa. Em decisão unânime, o intervalo de juros aumentou para 5% a 5,25%, o maior nível alcançado em 2007. O aumento foi justificado por uma inflação ainda elevada e um mercado de trabalho robusto, apesar de uma expansão moderada da atividade. Membros do comitê de política monetária reconheceram que as condições de crédito provavelmente irão apertar, como consequência dos eventos recentes no sistema bancário, mas reafirmaram que os efeitos permanecem incertos. O sinal de possível pausa veio com a afirmação no comunicado que o comitê determinará se um aperto adicional será apropriado. A taxa de juros atual está em linha com a taxa terminal prevista pelos membros do comitê em março. O presidente do Fed, Jerome Powell, reafirmou um possível fim do ciclo de alta, mas alertou que ainda não prevê corte nos juros já que a inflação deve demorar a ceder.

A comunicação do Fed corrobora nossa visão de que a taxa de juros americana deve permanecer elevada, no nível atual, ou um pouco acima, por longo tempo. A demanda segue forte e deve demorar algum tempo para ceder. O mercado de trabalho deve continuar desacelerando lentamente. A inflação segue pressionada por elevações de salários acima dos ganhos de produtividade. Não esperamos que os juros americanos caiam antes de meados de 2024. No entanto, reconhecemos que o início do corte de juros pelo Fed pode ser antecipado caso haja um aperto de crédito mais intenso decorrente do colapso de mais alguns bancos regionais nos EUA ou uma crise econômica desencadeada pela falta de acordo sobre elevação do limite da dívida pública. Ambos são eventos de baixa probabilidade.

A indústria americana segue fraca. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) do setor de manufaturas do Instituto ISM sinalizou atividade em contração na indústria nos últimos 6 meses. Na composição do índice em abril, produção e demanda permanecem fracos, e o emprego subiu com aumento das contratações.

O ISM para o setor de serviços ainda sinaliza expansão, porém moderada, com aceleração na demanda e desaceleração no emprego. 

O mercado de trabalho continuou forte. As contratações no mês de abril subiram e continuam bem acima da média de 2018-2019. A taxa de desemprego diminuiu e está no patamar mínimo da série dos últimos 50 anos, em 3,4%. A demanda por trabalho segue bem acima da oferta, mas vem diminuindo: observando a proporção de vagas abertas por desempregado o número é de 1,6, nível que ainda pressiona a inflação. Acreditamos que o mercado de trabalho deve desaquecer lentamente.

A inflação continuou alta em abril. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,4% no mês. O núcleo, que exclui alimentos e energia, também subiu 0,4%. Em 12 meses, a inflação segue alta, com núcleo subindo 5,5%, ainda elevado. A composição do índice mostra que os preços de bens continuam com baixa contribuição no indicador, enquanto os preços de serviços seguem pressionados. A boa notícia é que a inflação de aluguéis continua a perder força, mas a inflação de serviços em geral deve desacelerar lentamente, em razão de um mercado de trabalho aquecido. Nossa expectativa é que a inflação continue desacelerando em razão da política monetária mais restritiva do Fed, mas que não volte à meta em um horizonte próximo.

O dólar vem se mantendo mais estável contra as demais moedas, depois de uma desvalorização ao longo do mês de março com turbulências no setor bancário local e a percepção por parte de investidores de um possível corte de juros por parte do Fed.  Mantemos nossa visão, que o dólar deve se estabilizar próximo aos valores atuais. Acreditamos que os juros elevados levem a uma desaceleração da economia americana, mas não a uma recessão.

Europa

A guerra entre Rússia e Ucrânia está no segundo ano. Mísseis russos continuam sendo lançados sobre várias cidades. A região leste da Ucrânia continua sendo a mais afetada. O presidente Putin participou de parada militar em comemoração ao Dia da Vitória na II Guerra Mundial e repetiu o discurso que o Ocidente começou uma guerra infundada contra a Rússia. Na semana passada, um ataque a drones ocorreu no Kremlin sem causar feridos. A Ucrânia negou participação. O país segue recebendo ajuda militar de aliados. O conflito continua sem perspectiva de um fim próximo.

A crise de energia na Europa diminuiu, com estoques de gás natural elevados. Apesar do menor fornecimento russo desde meados do ano passado, importações de gás natural liquefeito têm mantido os estoques na região acima da média dos últimos 5 anos. A temperatura amena por mais tempo do que o usual também favoreceu a formação de estoques. O preço da commodity permanece abaixo da média de janeiro do ano passado, período anterior à guerra. No mercado internacional, o preço do petróleo diminuiu e está abaixo de 80 dólares o barril, refletindo uma desaceleração global e ocorre apesar de uma redução da oferta da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP+) que começou este mês. Mantemos nossa visão que uma desaceleração no crescimento global em curso, provocada pelas taxas de juros elevadas em várias economias e a manutenção de um dólar em patamar ainda forte, tende a reduzir o preço em dólar de produtos cotados na moeda americana. Preços de grãos, como trigo, têm sofrido refletindo preocupações quanto a extensão do acordo entre Rússia e Ucrânia de exportação pelo Mar Negro; o acordo termina 18 de maio.

O PIB da área do euro no 1T23 cresceu 0,1% frente ao trimestre anterior, segundo a prévia divulgada pelo Eurostat. O crescimento moderado veio pouco abaixo do esperado. Por país, houve estagnação na Alemanha (0%) e expansão na Itália (0,5%), na França (0,2%) e na Espanha (0,5%).

A atividade melhorou em abril, puxada por serviços, de acordo com os índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). O índice composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, subiu 0,4 ponto para 54,1, reforçando a expansão iniciada em janeiro. O PMI de manufaturas diminuiu, em 1,5 ponto, permanecendo em território contracionista. Na composição do índice, houve moderação na pressão de preços, que segue elevada, e melhora no emprego e na demanda, apesar do aumento do custo de crédito.

O mercado de trabalho continua aquecido. A taxa de desemprego alcançou novo mínimo histórico da série iniciada em 1998, em 6,5% no mês de março.

A inflação voltou a subir na margem. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) foi para 7%, nos últimos doze meses até abril, contra 6,9% no período anterior, com aumento no preço de energia. O núcleo da inflação, que exclui alimentos, energia, álcool e tabaco diminuiu levemente para 5,6% no período, ainda elevado.

O Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas de juros em 25 pontos-base, reduzindo o ritmo de aumento, conforme esperado, depois de 3 altas de 50 pontos-base. Este foi o sétimo aumento consecutivo. A taxa de depósito foi para 3,25% ao ano – alcançando o pico de 2008 – e deve continuar subindo. Em comunicado, o Banco manteve a justificativa do aumento em razão de uma inflação ainda muito alta e que deve demorar a ceder. As próximas decisões continuam dependentes dos dados. A presidente do Banco, Christine Lagarde, disse que o ciclo de alta de juros não terminou e que todos os membros estão determinados a trazer a inflação para a meta de 2% no médio prazo. Concordamos com a visão do BCE que ainda há um caminho a percorrer em termos de política monetária. Acreditamos que os juros devem continuar subindo e permanecer elevados por um período prolongado.

No Reino Unido, a inflação desacelerou, mas segue em dois dígitos, (10,1% acumulada em 12 meses até março), impactada principalmente pelo alto preço de alimentos. O núcleo da inflação, que exclui alimentos, energia, álcool e tabaco permaneceu em 6,2%, com pressão de preço de bens e serviços. O mercado de trabalho segue aquecido, com desemprego baixo, ganhos por hora trabalhada altos e vagas em aberto elevadas.

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) elevou a taxa de juros em 25 pontos-base, conforme esperado, para 4,5% ao ano – maior nível em quase 15 anos. O aumento foi o décimo-segundo consecutivo. O BoE justificou o aumento em razão da inflação elevada, bem acima da meta de 2%, e mercado de trabalho aquecido. Na ata da reunião, o Banco reforçou que mais aperto na política monetária pode ser necessário se existirem evidências de pressão inflacionária persistente. Sobre a volatilidade recente relacionada ao setor bancário, o MPC avalia que o setor permanece resiliente na região.

Japão

O Banco do Japão (BoJ) manteve política monetária inalterada, conforme esperado, na primeira reunião presidida por Kazuo Ueda, em abril. As taxas de juros de curto (-0,1%) e longo prazo (0%) foram mantidas, bem como o programa de compra de ativos. O Banco, no entanto, mencionou que começará uma revisão de suas políticas e retirou do comunicado a sinalização que as taxas de juros devem continuar nos níveis atuais ou inferiores. Segundo as projeções do Banco, o núcleo da inflação (exclui alimentos frescos e energia) deve ficar abaixo da meta, em 1,8%, no ano fiscal de 2025.

O BoJ, diferente de outros bancos centrais de grandes economias, não começou um aperto monetário apesar da inflação estar acima da meta de 2% e acelerando. O núcleo da inflação acumula alta de 3,8% em 12 meses até março.

China

A recuperação pós-Covid pode estar perdendo força, depois de um primeiro trimestre forte. O PIB no 1T23 teve aumento sólido de 4,5% comparado ao mesmo período do ano anterior. O crescimento, maior que o esperado, foi puxado pelo setor de serviços e indicou uma retomada da economia com a reabertura e melhora significativa do quadro de Covid-19 no início do ano. Entretanto, o Departamento Nacional de Estatísticas da China (NBS, na sigla em inglês) disse que a recuperação ainda não se firmou: a demanda externa é incerta e o consumo doméstico insuficiente para impulsionar o crescimento por ora.

Líderes do partido Comunista no Politburo, no primeiro evento do ano sobre economia, realizado em abril, falaram das prioridades à frente. Citaram o endividamento dos governos locais e de bancos regionais, a necessidade de impulsionar a demanda doméstica, atrair investimentos estrangeiros, estabilizar comércio internacional, evitar riscos relacionados ao setor imobiliário e priorizar emprego entre jovens, que segue baixo. Acreditamos que o governo manterá o apoio à economia depois do que foi divulgado como resultado da reunião do Politburo, com o objetivo de ajudar no fortalecimento da recuperação econômica. Depois de um primeiro trimestre forte, o crescimento da economia do país em 2023 deve ficar acima da meta do governo de “em torno de 5%”.

A atividade continuou sólida em abril, mas perdeu um pouco do impulso em manufaturas. De acordo com os índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês), calculados pelo NBS, o PMI composto, que considera o setor de manufaturas, construção e serviços, foi para 54,4 pontos, sinalizando crescimento mais moderado do que no mês anterior, quando houve uma retomada com a volta à normalidade pós-Covid. A diminuição do índice composto foi causada por uma redução da atividade de manufaturas, que voltou a ficar abaixo de 50 pontos depois de três meses em expansão. Os setores de serviços e construção continuaram crescendo, porém mais moderadamente.

O crédito teve menor expansão em abril e ficou abaixo do esperado. Empréstimos de médio e longo prazo às empresas, associados a investimentos e expansão de negócios, e os empréstimos às famílias, associados a compra de imóveis, vieram baixos, sinalizando que a recuperação pode estar perdendo força.

A inflação segue baixa. O índice de preços ao consumidor de abrilestá no menor nível em 2 anos, com preços de alimentos e combustíveis fracos. O núcleo permaneceu estável. O índice de preços ao produtor segue em deflação pelo sétimo mês seguido, com a queda do preço das commodities no mercado internacional. O NBS destacou preocupações com a fraca demanda industrial doméstica por aço e cimento.

O Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) tem mantido inalteradas as taxas de juros da economia.

Na maioria dos países do leste asiático, excluindo China, importantes elos na cadeia de suprimento global, os PMIs de manufaturas seguem baixos, sinalizando leve contração ou expansão moderada em abril. A Índia é exceção e segue com indicador bastante forte.

Cenário Doméstico

Atividade

Após superados os efeitos da pandemia sobre a economia, o desempenho da atividade nos últimos dois anos foi sólido: o PIB cresceu 5% em 2021 e 2,9% em 2022. Apesar da expansão no ano passado, houve forte desaceleração no segundo semestre de 2022. Após registrar uma alta moderada de 0,3% no 3T22, o PIB do 4T22 contraiu 0,2% frente ao trimestre anterior.

As condições que possibilitaram o sólido resultado para 2021 e para o primeiro semestre de 2022 não estão mais presentes. A taxa Selic em território contracionista já afeta a atividade – os dados mostram sinais de enfraquecimento, ainda que menos intenso do que o esperado. A desaceleração do crescimento global impacta a atividade doméstica. Os altos preços de commodities, que beneficiaram o Brasil no primeiro semestre do ano passado, já mostram reversão.

Os efeitos da política monetária contracionista e da desaceleração global devem se estender ao longo de 2023 e de 2024. No entanto, alguns fatores estão impulsionando o crescimento para o PIB deste e do próximo ano. Além dos estímulos fiscais e da estimativa de uma safra recorde de soja para 2023, que já havíamos comentado, dados correntes um pouco mais fortes do que o esperado e a perspectiva de queda antecipada da Selic a partir de setembro devem ajudar. Para o 1T23, projetamos forte alta de 1,9% em relação ao trimestre anterior, puxada por agropecuária. Para o ano de 2023, mantivemos nossa projeção de crescimento do PIB em 1,5%. Os riscos advindos do cenário global arrefeceram. Para 2024, esperamos crescimento do PIB de 1%.

A taxa de desemprego já se encontra um pouco abaixo do seu nível neutro. O crescimento abaixo do potencial nos leva a projetar uma leve alta da taxa de desemprego até final de 2024.

Fiscal

O resultado primário do setor público consolidado encerrou o ano de 2022 com um superávit de 1,3%, um resultado positivo pelo segundo ano consecutivo. Ao longo do ano passado tivemos surpresa positiva na arrecadação, puxada por preços de commodities elevados, além de receitas extraordinárias pontuais.

Neste ano, devemos voltar a ter déficit primário. A PEC da Transição, aprovada no Congresso, sinaliza um aumento de gastos relevante para 2023, mas a divulgação do novo arcabouço fiscal e as medidas de aumento de arrecadação, caso confirmadas pelo Congresso, devem atenuar a deterioração das contas públicas. Projetamos déficit para o setor público consolidado para 2023 de 1% do PIB, incorporando parte das medidas anunciadas. Mantivemos nossa projeção para 2024 de déficit de 0,7% do PIB.

A dívida líquida encerrou o ano de 2022 em 57,1% do PIB e deve continuar subindo em 2023 e 2024, puxada pela perspectiva de juros ainda elevados, pelo crescimento moderado do PIB e pelo aumento de gastos. Nossa expectativa para a dívida líquida de 2023 permaneceu em 60,8% do PIB ao final do ano. Para 2024, a projeção da dívida líquida é de 62,1% do PIB.

A situação fiscal brasileira é desafiadora e requer um forte ajuste para equilibrar as contas públicas. Apesar de o novo arcabouço ser um passo importante na direção da sustentabilidade das contas públicas, acreditamos que, na ausência de um significativo aumento na arrecadação, ele deverá ser insuficiente para impedir o crescimento da dívida do país.

Setor externo

Acreditamos que o atual nível do câmbio em patamares historicamente elevados esteja alinhado com os fundamentos da economia, principalmente considerando os riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público.

A taxa de câmbio fechou o ano de 2022 em R$ 5,28. Continuamos acreditando que a piora da trajetória da dívida líquida do governo e o dólar ainda em patamar historicamente valorizado frente às demais moedas são fatores que devem sustentar a depreciação do real. No entanto, nos últimos meses, o dólar perdeu valor contra as principais moedas globais e o real acompanhou este movimento. De outubro de 2022 até hoje, o real valorizou frente ao dólar cerca de 6%, um pouco menos do que uma cesta de moedas de países emergentes, que registrou apreciação de 7,5%. A perspectiva de um dólar um pouco mais fraco globalmente do que o projetado anteriormente nos faz esperar uma taxa de câmbio para o final deste ano em R$ 5,30. À frente, a taxa de câmbio deve continuar depreciando influenciada principalmente pela perspectiva de elevação da dívida. Projetamos dólar em R$ 6 ao final de 2024.

Com relação às contas externas, as importações em patamar elevado, apesar da taxa de câmbio depreciada, contribuíram para um saldo negativo de US$ 56 bi das transações correntes em 2022. Para 2023, ajustamos a projeção de déficit de US$ 60 bi para US$ 54 bi. Para 2024, estimamos um déficit de US$ 50 bi.

Inflação

O IPCA de 2022 registrou alta de 5,8%. A forte elevação de preços em 2021 de 10,1% impactou a inflação do ano passado via inércia. Por outro lado, as reduções de impostos aprovadas reduziram a inflação em quase 3 pontos percentuais. Acreditamos que à frente a inflação irá continuar alta e desacelerar de forma gradual.

A dinâmica inflacionária mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada principalmente pela forte redução dos bens monitorados. A inflação de bens industriais mostra sinais claros de desaceleração, ao mesmo tempo em que as deflações nesse mesmo segmento, nos preços de atacado, nos dão conforto sobre a continuação dessa trajetória. A inflação de serviços já ultrapassou seu pico, mas segue elevada e resiliente. Acreditamos que ela deve continuar alta nos próximos meses em função da inércia inflacionária. A queda no preço das commodities no mercado futuro teve impactos baixistas na projeção de inflação. No entanto, esses fatores foram inteiramente compensados pela revisão na premissa de reajuste de alguns itens de preços monitorados. Com isso, mantivemos nossa projeção de IPCA de 2023 em 6%.

Para 2024, acreditamos que a inflação irá continuar caindo a passos lentos. Diante da sinalização do governo da necessidade de reduzir juros e de que a meta de inflação de 3% não estaria bem ajustada, incorporamos no cenário metas mais elevadas, de 4,5%, de 2024 em diante. Essa mudança seria implementada em junho, quando o Conselho Monetário Nacional (CMN) se reúne para definir a meta de 2026, podendo também revisar as metas dos anos anteriores. Projetamos o IPCA de 2024 em 5,5%. Importante reiterar que apesar da diminuição da incerteza em relação ao arcabouço fiscal, os riscos associados às contas públicas seguemimpondo desafios à trajetória da inflação à frente.

Política monetária

O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou um ciclo de alta de juros em março de 2021. Na última reunião, em maio, o Comitê manteve a taxa Selic em 13,75% e afirmou que “segue vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação”.

A projeção de inflação do BCB no cenário de referência ficou estável em 5,8% para 2023 e em 3,6% para 2024. Este cenário supõe trajetória de juros que diminui de 13,75% para 12,5% até o final de 2023, para 10% ao final de 2024 e para 9% ao final de 2025. Ou seja, as projeções de inflação do Banco Central ficaram estáveis e seguem acima da inflação para o ano de 2024, horizonte para o qual o Comitê passou a dar ênfase nesta reunião.

Em cenário alternativo, no qual a taxa Selic é mantida constante ao longo de todo o horizonte relevante, a projeção de inflação ficou estável em 5,7% ao final de 2023 e teve leve queda, passou de 3% para 2,9% ao final de 2024. Na nossa visão, o Comitê busca sinalizar que a manutenção da taxa de juros no patamar atual de 13,75% ainda é compatível com a convergência da inflação para a meta em 2024, atual foco de política monetária.

O Comitê afirmou que “não há relação mecânica entre a convergência de inflação e a aprovação do arcabouço fiscal”. Ao considerar os riscos para a inflação, o comunicado deu ênfase aos impactos do arcabouço fiscal sobre “as expectativas para as trajetórias da dívida pública e da inflação, e sobre os ativos de risco”. De acordo com o texto, “a reoneração dos combustíveis e, principalmente, a apresentação de uma proposta de arcabouço fiscal reduziram parte da incerteza advinda da política fiscal. Por outro lado, a conjuntura, caracterizada por um estágio em que o processo desinflacionário tende a ser mais lento em ambiente de expectativas de inflação desancoradas, demanda maior atenção na condução da política monetária.” De fato, as projeções da Pesquisa Focus encontram-se acima das metas em 2023 (6,05% versus 3,25%), 2024 (4,18% versus 3%) e em 2025 (4% versus 3%).

Na nossa visão, o Comitê busca sinalizar que, por ora, a manutenção da taxa de juros no patamar atual de 13,75% seria compatível com a convergência da inflação para a meta no horizonte relevante de política monetária. No entanto, incorporamos no nosso cenário a definição, em junho, de uma meta de inflação de 4,5% para 2026, acima da atual de 3%. A meta de 2025 também deve ser ajustada para cima de maneira a suavizar a atuação da política monetária. Na nossa visão, essa mudança abre espaço para um corte de juros antecipado a partir de setembro deste ano.

Mantivemos a projeção de Selic em 12,5% ao final de 2023. Para 2024, esperamos 11% ao final do ano. 

Projeções macroeconômicas do C6 Bank

20192020202120222023P2024P
Atividade
Crescimento Real do PIB1,2%-3,3%5,0%2,9%1,5%1,0%
PIB Nominal (R$ bi)7.3897.6108.8999.91510.68511.458
Fiscal
Resultado Primário (% PIB)-0,8%-9,2%0,7%1,3%-1,0%-0,7%
Resultado Primário (% PIB)54,7%61,4%55,8%57,1%60,8%62,1%
Dívida Bruta (% PIB)74,4%86,9%78,3%72,9%77,1%80,9%
Setor Externo
R$/US$ (final de período)4,035,205,585,285,306,00
Balança Comercial (US$ bi)273236444444
Conta Corrente (US$ bi)-68-28-46-56-54-50
Conta Corrente (% PIB)-3,6%-1,9%-2,8%-2,9%-2,7%-2,4%
Inflação
IPCA (Var. a/a)4,3%4,5%10,1%5,8%6,0%5,5%
Juros
Selic (dez)4,50%2,00%9,25%13,75%12,50%11,00%
P=Projeção
Fontes: IBGE, BCB, Bloomberg, C6 Bank.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles                   Head

Claudia Moreno      Head Brasil

Claudia Rodrigues    Head Internacional

Felipe Mecchi               Internacional

Heliezer Jacob             Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

Cada analista de Macro Research é o principal responsável pelo conteúdo deste relatório e atesta que:

Os números contidos nos gráficos de desempenho referem-se ao passado; o desempenho passado não é garantia de resultados futuros.

(i) todas as opiniões expressas refletem com precisão suas opiniões pessoais e eventual recomendação foi elaborada de forma independente, inclusive em relação ao Banco C6 S.A. e / ou suas afiliadas;

(ii) nenhuma parte de sua remuneração foi, está ou estará, direta ou indiretamente, relacionada a quaisquer recomendações específicas realizadas pelo analista.

Parte da remuneração do analista vem dos lucros do Banco C6 S.A. e / ou de suas afiliadas e, consequentemente, as receitas decorrem de transações mantidas pelo Banco C6 S.A. e / ou suas coligadas.

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