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Resumo semanal: inflação resiliente

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

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Confira as principais notícias da semana (24/4-28/4), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: inflação segue elevada e Fed deve manter aumento de juros

A inflação segue persistente. O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) desacelerou para 0,1% em março em relação ao mês anterior, segundo dados do Departamento do Comércio americano. No entanto, o núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, aumentou 0,3%, mesmo aumento de fevereiro, e em doze meses acumula alta de 4,6%, igual ao mês anterior, bem acima da meta de 2% do banco central americano (Federal Reserve – Fed). A composição do índice mostra que a alta dos preços dos bens segue com menos intensidade, mas os preços dos serviços continuam pressionando o índice. A desaceleração em serviços deve ser lenta, pois o setor continua sofrendo com o forte impacto do mercado de trabalho aquecido.

A renda e o consumo das famílias seguem elevados. Houve aumento da renda de 0,3% em março frente ao mês anterior, em razão de aumentos de salários. Os gastos com consumo ficaram estáveis, com redução nos gastos com bens (-0,6%) e aumento com serviços (0,4%), segundo dados do Departamento do Comércio.

O setor imobiliário superou o pior momento, mas a recuperação deve ser lenta. As vendas pendentes de casas diminuíram 5,2% em março frente ao mês anterior, depois de um início de ano forte, segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês). Os preços de casas subiram em fevereiro, segundo a Agência Federal de Financiamento da Habitação (FHFA, na sigla em inglês). O aumento na margem, depois de alguns meses de estabilidade, sugere que o preço de aluguéis (componente importante dos índices de inflação) pode demorar mais a ceder.

A atividade industrial contraiu na região de Dallas, Richmond e Kansas no mês de abril, segundo os indicadores do Federal Reserve. Em todas essas regiões, a demanda e a produção vieram fracas, enquanto os preços permaneceram elevados. 

Os pedidos de bens duráveis e de bens de capital seguem bem acima do nível pré-pandemia. Os pedidos de bens duráveis subiram no mês de março em relação ao mês anterior, segundo relatório do Departamento do Comércio dos Estados Unidos. Os pedidos de bens de capital (excluindo aeronaves e equipamentos de defesa) tiveram leve queda. Ambos indicam que investimentos seguem sólidos.

O mercado de trabalho permanece robusto. Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego diminuíram depois de duas semanas de alta, para 230 mil na semana encerrada em 22 de abril, menor nível em 2 meses. Os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos.

O PIB teve aumento moderado de 1,1% no 1T23 em relação ao trimestre anterior, anualizado e com ajuste sazonal, de acordo com a primeira estimativa do Departamento do Comércio americano.  O resultado veio abaixo do esperado pelo mercado. Na composição do indicador, nota-se que o consumo das famílias teve forte contribuição para o crescimento do PIB, em um cenário de mercado de trabalho aquecido. O que puxou o indicador para baixo foi o ajuste de estoques das empresas.

O Fed deve continuar com o ciclo de ajuste de juros, com mais um aumento de 25 pontos-base na próxima reunião de maio, o que levará a taxa para o intervalo de 5% a 5,25% ao ano. Este aumento seria necessário para conduzir a desaceleração da inflação num contexto de demanda ainda forte. Não prevemos cortes nos juros até meados de 2024. Reconhecemos, no entanto, que o início do corte de juros pelo Fed pode ser antecipado caso haja um aperto de crédito decorrente do colapso de alguns bancos regionais no país.

Europa: PIB tem crescimento moderado

O PIB da área do euro no 1T23 cresceu 0,1% frente ao trimestre anterior, segundo a prévia divulgada pelo Eurostat. Detalhes da composição serão divulgados posterirormente. O crescimento moderado veio pouco abaixo do esperado. Por país, houve estagnação na Alemanha (0%) e expansão na Itália (0,5%), na França (0,2%) e na Espanha (0,5%).

A confiança na economia teve leve aumento na margem. O índice de sentimento econômico, calculado pela Comissão Europeia, subiu 0,1 ponto em abril para 99,3. O aumento ocorreu com a melhora na confiança do setor de serviços que superou a queda na confiança da indústria. A confiança do consumidor vem se recuperando desde o fim do ano passado, mas segue abaixo do nível pré-pandemia.

A guerra entre Rússia e Ucrânia está no segundo ano. Mísseis russos continuam sendo lançados principalmente no leste e sul ucraniano. O presidente chinês, Xi Jinping, conversou com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e disse que a única forma de terminar a crise é com negociações. Zelensky considerou a conversa produtiva e acrescentou que a paz virá quando a Rússia deixar os territórios ocupados no início da guerra, inclusive a região da Criméia, tomada em 2014. O conflito segue sem perspectiva de um fim próximo.

Preços das commodities energéticas ficaram mais baixos na semana. Entre os dias 20 e 27 de abril, o preço futuro do petróleo caiu 3% (Brent), ficando pouco abaixo de 80 dólares por barril no fim do período. Em nossa visão, a atividade fraca, em razão de juros elevados, e a manutenção de um dólar em patamar ainda forte, que tende a reduzir o preço em dólar de produtos cotados na moeda americana, devem evitar pressões adicionais no preço do petróleo. O preço do gás natural recuou 4% no mesmo período e se mantém 50% abaixo da média de janeiro de 2022 (pré-guerra), com estoque de gás elevado, o que continua sinalizando perspectivas melhores de crescimento na região. A União Europeia criou uma plataforma para negociação de contratos de gás natural, que começou a funcionar esta semana, com o objetivo de usar o poder de mercado do bloco para negociar melhores preços internacionais da commodity e evitar fortes aumentos como os do ano passado que ocorreram em razão da guerra.

Japão: BoJ indica ajustes de política monetária

O Banco do Japão (BoJ) manteve política monetária inalterada, conforme esperado, na primeira reunião presidida por Kazuo Ueda. As taxas de juros de curto (-0,1%) e longo prazo (0%) foram mantidas, bem como o programa de compra de ativos. O Banco, no entanto, mencionou que começará uma revisão de suas políticas e retirou do comunicado a sinalização que as taxas de juros devem continuar nos níveis atuais ou inferiores. No entanto, foi mantido que as políticas de estímulos e o controle da curva de juros devem continuar com o objetivo de alcançar a meta de inflação, sugerindo que não deve haver um abandono, mas um ajuste das políticas atuais. Segundo as projeções do Banco, o núcleo da inflação (exclui alimentos frescos e energia) deve ficar abaixo da meta, em 1,8%, no ano fiscal de 2025.

O BoJ, diferente de outros bancos centrais de grandes economias, não começou um aperto monetário apesar da inflação estar acima da meta de 2% e acelerando. O núcleo da inflação acumula alta de 3,8% em 12 meses até março.

China: líderes sinalizam manutenção de estímulos

No primeiro evento do ano sobre economia, líderes do partido Comunista no Politburo falaram do cenário atual e das prioridades à frente. Citaram a normalização completa da economia pós-pandemia e o crescimento melhor que o esperado no 1T23, mas com o entendimento que demanda interna permanece insuficiente para impulsionar o crescimento no curto prazo. Como prioridades mencionadas, podemos destacar: coordenação entre política fiscal e monetária para impulsionar a demanda via consumo e investimento privado; maior atração de investimentos estrangeiros e estabilização do comércio internacional; necessidade de evitar riscos relacionados ao setor imobiliário, ao endividamento dos governos locais e de bancos regionais; priorizar emprego entre jovens.

Acreditamos que o governo manterá o apoio dado à economia, depois do que foi divulgado como resultado da reunião do Politburo, com o objetivo de ajudar no fortalecimento da recuperação econômica.

Brasil

Focus: leve melhora nas estimativas de PIB para este ano

As projeções para o IPCA não apresentaram mudanças para 2023 (de 6,01% para 6,04%), para 2024 (4,18%), para 2025 (4%) e nem para 2026 (4%). Os números esperados para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) apresentaram alta para 2023 (de 0,90% para 0,96%), porém ficaram estáveis para 2024 (de 1,40% para 1,41%). A taxa Selic segue em 12,5% para 2023, em 10% para 2024, em 9% para 2025 e em 8,75% para 2026. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Atividade: dados positivos em fevereiro

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) de fevereiro mostrou forte expansão de 1,7% frente ao mês anterior no volume de vendas no comércio varejista ampliado, resultado acima do que nós projetávamos. Apesar do resultado ainda forte de fevereiro, as perspectivas para o setor não são favoráveis à frente, principalmente para os segmentos sensíveis a crédito, devido a desaceleração da economia, impactada pelos juros altos.

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de fevereiro mostrou volume de serviços subindo 1,1% na comparação mensal, após registrar queda de 3% em dezembro. O dado veio acima das expectativas do mercado e abaixo da nossa projeção. Entretanto, o segmento de serviços prestados às famílias, que tem um peso relevante no PIB, registrou contração de 0,7% no mês. O setor de serviços deve continuar em ritmo fraco ao longo de 2023.  Projetamos crescimento do PIB de 1,5% para 2023 e de 1% para 2024.

A taxa de desemprego da PNAD Contínua no trimestre terminado em março veio abaixo da nossa projeção e do esperado pelo mercado, atingindo 8,8%. Na série com nosso ajuste sazonal, o indicador está em 8,3% contra 8,5% no trimestre encerrado em fevereiro. A composição do dado mostrou redução da PEA (população economicamente ativa) e leve alta na ocupação. O encolhimento da PEA indica uma piora na dinâmica do mercado de trabalho, reduzindo o número de pessoas que buscam emprego. A renda real habitual do trabalhador continua subindo (0,3%), acumulando alta de 7,4% em relação ao trimestre encerrado em março de 2022. O crescimento da economia até agora foi suficiente para levar a taxa de desemprego para níveis próximos do neutro ou um pouco abaixo dele, o que reforça o cenário de queda lenta da inflação. Para 2023, a taxa deve encerrar o ano em 8,7%. Nossa expectativa é que a taxa de desemprego (ajustada sazonalmente) continue subindo de forma moderada até 2024.

Inflação: serviços seguem pressionados

O IPCA-15 de abril registrou elevação de 0,57%, um pouco abaixo da nossa projeção (0,61%) e o consenso de mercado (0,60%). O índice acumula alta de 4,2% na variação em 12 meses, número inferior a alta de 5,4% registrada no mês anterior. A média dos núcleos da inflação calculada pelo Banco Central, uma medida mais limpa da tendência dos preços, veio em linha com o esperado e mostra desaceleração, mas segue em patamar elevado. O índice está em 7,5% em 12 meses. A inflação de serviços, na mesma métrica, está em 7,6% e a de bens industriais em 6,5%. A inflação de serviços sofre com os efeitos da inércia inflacionária e, por isso, deve demorar mais a ceder. Nas nossas projeções, o IPCA acumulado em 12 meses deve atingir seu patamar mais baixo no meio do ano, mas deve encerrar 2023 em 6%. Para 2024, nossa previsão é que a inflação fique em 5,5%.

A inflação medida pelo IGP-M caiu 0,95% em abril, abaixo da mediana das projeções do mercado. Em 12 meses, o índice está em -2,2%, retornando ao patamar negativo pela primeira vez desde 2018. A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com queda de 2,5% frente à estabilidade no mês anterior. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – registrou leve alta de 0,02%. Em 12 meses, o IPA agrícola está em -7% e o núcleo do IPA industrial em 0,7%.

Setor externo: saldo negativo na conta corrente em março

A conta corrente registrou superávit de US$ 0,3 bilhões no mês de fevereiro. Considerando o dado com nosso ajuste sazonal, houve déficit de US$ 2,2 bilhões. O saldo foi positivo na balança comercial, porém negativo em serviços e rendas. Em 12 meses, o saldo de transações correntes acumula déficit de 2,6% do PIB. O Investimento Estrangeiro Direto (IED) veio em US$ 7,7 bilhões. Para 2023 e 2024, projetamos déficit de US$ 60 bi e US$ 50 bi para as transações correntes, respectivamente.

Fiscal: resultado negativo do setor público consolidado

O Setor Público Consolidado registrou um déficit de R$ 14 bi em março. Os governos regionais contribuíram para o resultado com um déficit de R$ 4,6 bi. No acumulado em 12 meses, o resultado consolidado está positivo em R$ 75 bi (0,7% do PIB). A dívida líquida encerrou o mês em 57,2% e a dívida bruta em 73%. Projetamos déficit do setor público consolidado de 1% do PIB para 2023, devido ao aumento de gastos e queda na arrecadação em função da desaceleração da atividade.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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