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Resumo semanal: Núcleos de inflação seguem elevados

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

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C6 Bank Felipe Salles. Foto: Germano Lüders

Confira as principais notícias da semana (8/5-12/5), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: inflação pressionada pelo mercado de trabalho

A inflação continua elevada. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,4% em abril frente ao mês anterior, de acordo com o Departamento do Trabalho. O núcleo do índice (exclui alimentos e energia) também subiu 0,4%, com leve aumento no preço de bens e aumento moderado no preço de serviços, depois que o preço de aluguéis começou a perder força. A inflação de serviços, que representa mais de 73% do núcleo tem mostrado persistência, em razão do forte mercado de trabalho que mantém salários elevados acima da produtividade. Em 12 meses, o núcleo do CPI acumula alta de 5,5%, ainda elevado. Outro relatório do Departamento do Trabalho também mostra sinais de desaceleração da inflação de bens. O índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) subiu 0,2% em abril. Nos últimos 12 meses, o PPI acumula alta de 2,3% e o núcleo 3,2%.  Adicionalmente, o índice de confiança da Universidade de Michigan do mês de maio mostrou que a expectativa para a inflação de longo prazo (5 a 10 anos) subiu de 3,0% para 3,2%, o maior patamar dos últimos 10 anos. Esse aumento reflete a percepção dos agentes econômicos de que a inflação pode ser mais persistente. Nossa expectativa é que a inflação continue desacelerando em razão da política monetária mais restritiva do Fed, mas que não volte à meta em um horizonte próximo.

O índice de otimismo das pequenas empresas, medido pela Federação Nacional de Empresas Independentes (NFIB, na sigla em inglês), caiu 1,1 ponto para 89 em abril, permanecendo abaixo do nível pré-pandemia.

Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 264 mil na semana encerrada em 6 de maio, 22 mil acima da semana anterior. Nas duas últimas semanas, os pedidos de seguro-desemprego subiram, sinalizando um possível início de desaquecimento do mercado de trabalho.

Europa: BoE indica continuidade do ciclo de alta

A guerra entre Rússia e Ucrânia está no segundo ano. Mísseis russos continuam sendo lançados principalmente no leste e sul ucraniano, mas com explosões ocorrendo também na capital, Kiev. O presidente Putin participou de parada militar em comemoração ao Dia da Vitória na II Guerra Mundial e repetiu o discurso que o Ocidente começou uma guerra infundada contra a Rússia. Tropas russas estão recuando próximo a cidade de Bakhmut, região de Donetsk, segundo a Ucrânia. O país deve receber mais ajuda militar de aliados em breve. O conflito segue sem perspectiva de um fim próximo.

Preços das commodities energéticas seguem baixos. Entre os dias 4 e 11 de maio, o preço futuro do petróleo subiu 3,5% (Brent), depois de queda expressiva na semana anterior, voltando para próximo de 75 dólares por barril. Em nossa visão, a atividade fraca, em razão de juros elevados, e a manutenção de um dólar em patamar ainda forte, que tende a reduzir o preço em dólar de produtos cotados na moeda americana, devem evitar pressões adicionais no preço do petróleo. O preço do gás natural recuou 2% no mesmo período e está quase 60% abaixo da média de janeiro de 2022 (pré-guerra), com estoque de gás elevado, o que continua sinalizando perspectivas melhores de crescimento na região. O preço do trigo ficou praticamente estável, depois de aumento na semana anterior, refletindo preocupações quanto à extensão do acordo entre Rússia e Ucrânia de exportação de grãos pelo Mar Negro, que termina em 18 de maio. Negociações estão em andamento.

No Reino Unido, a economia teve crescimento baixo no 1T23, de 0,1%, em relação ao trimestre anterior, com ajuste sazonal, de acordo com a primeira estimativa do Escritório Nacional de Estatísticas (ONS, na sigla em inglês), continuando abaixo do nível pré-pandemia. Na composição do indicador, o consumo privado ficou estável e os investimentos cresceram mais que o esperado. Greves que ocorreram no trimestre tiveram impacto sobre a economia. No mês de março, a atividade encolheu 0,3% frente ao mês anterior, com contração no setor de serviços (-0,5%), a segunda consecutiva. O pior desempenho no fim do 1T23 sinaliza uma perda de impulso em meio ao custo de vida elevado.

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) elevou a taxa de juros em 25 pontos-base, conforme esperado, para 4,5% ao ano – maior nível em quase 15 anos. O aumento foi o décimo-segundo consecutivo. O BoE justificou o aumento em razão da inflação elevada, bem acima da meta de 2%, e mercado de trabalho aquecido. Na ata da reunião, o Banco manteve que mais aperto na política monetária pode ser necessário se existirem evidências de pressão inflacionária persistente. A expectativa do Comitê de Política Monetária (MPC, na sigla em inglês) é que a inflação diminua significativamente no 2T23, em parte pela saída de aumentos significativos do índice que ocorreram há 1 ano, além de um menor preço de energia. O Banco alterou sua expectativa de crescimento da economia em 2023, não mais prevendo recessão, mas crescimento moderado de 0,25%. Sobre a volatilidade recente relacionada ao setor bancário, o MPC manteve avaliação que o setor permanece resiliente na região.

China: demanda doméstica fraca

A balança comercial teve superávit de 90,2 bilhões de dólares em abril, com queda nas importações. As exportações tiveram aumento moderado, o que já era esperado, com resiliência da demanda externa. As exportações desaceleraram para países desenvolvidos, depois de forte alta no mês anterior, e diminuíram para Ásia emergente e América Latina. As importações tiveram forte queda no mês, com menor volume importado de petróleo.

O fluxo de crédito agregado veio fraco e abaixo do esperado em abril. O volume foi de 1,2 trilhão de yuans, segundo o Banco Central da China (PBOC, na sigla em inglês). O crédito diminuiu em relação ao mês anterior com a queda dos empréstimos bancários de médio e longo prazo às empresas e às famílias, sinalizando menos investimentos e expansão das indústrias e menor demanda por imóveis.

A inflação desacelerou e segue baixa. O índice de preços ao consumidor (CPI) subiu 0,1% em março frente ao mesmo mês do ano anterior, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas chinês (NBS, na sigla em inglês), mostrando que, apesar da recuperação da atividade, a demanda segue contida. O índice de preços ao produtor (PPI) teve queda de 3,6% no mesmo período, a sétima consecutiva, refletindo menor preço de commodities no mercado internacional.

Brasil

Focus: projeções de inflação estáveis

As projeções para o IPCA não apresentaram mudanças relevantes para 2023 (de 6,05% para 6,02%), para 2024 (de 4,18% para 4,16%), para 2025 (4%) e nem para 2026 (4%). Os números esperados para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ficaram estáveis para 2023 (1%) e para 2024 (1,41%). A taxa Selic segue em 12,5% para 2023, em 10% para 2024, em 9% para 2025 e registrou leve alta para 2026 (de 8,75% para 8,88%). As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Atividade: produção industrial cresce, porém perspectivas são negativas

A produção industrial de março registrou alta de 1,1% frente ao mês anterior. O resultado veio levemente acima do esperado pelas projeções do mercado e abaixo do esperado por nós. A indústria de transformação registrou a primeira alta (1,4%) após três meses consecutivos de queda. Já a indústria extrativa retraiu 0,1%, em linha com nossa projeção. À frente, nossa expectativa é que a indústria fique de lado, podendo apresentar contração. A política monetária contracionista, a desaceleração global e a queda dos preços das commodities contribuem para esta tendência. Mantemos, por ora, a projeção para o PIB de 1,5% para 2023 e de 1% para 2024.

Inflação: núcleos de inflação seguem pressionados

O IPCA de abril registrou alta de 0,61% – acima do que nós (0,58%) e o mercado (0,55%) esperávamos. O IPCA acumula alta em 12 meses de 4,2% e mostra desaceleração nessa métrica. Nossa projeção é que o IPCA deve chegar próximo de 4% em junho. Entretanto, o índice volta a acelerar no segundo semestre, quando o efeito da redução de impostos adotada pelo governo em 2022 tiver saído completamente da base de cálculo. A inflação de serviços segue elevada, registrou alta de 7,5% em 12 meses e deve continuar desacelerando a passos lentos devido à inércia inflacionária. A inflação de bens industriais mostra clara tendência de queda nos últimos meses e deve seguir recuando à frente. A média dos núcleos do Banco Central permanece alta, em 7,3% em 12 meses. Projetamos IPCA de 6% para 2023 e de 5,5% para 2024.

A inflação medida pelo IGP-DI caiu 1,01% em abril, acima da mediana das projeções do mercado de -1,05%. Em 12 meses, o índice está em -2,6%. A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com queda de 3,01% frente à contração de 1,04% no mês anterior. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – expandiu em 0,28%. Em 12 meses, o IPA agrícola está em -7,5% e o núcleo do IPA industrial em 0,14%.

Banco Central: governo divulga nome de indicados para diretorias

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, anunciou nesta semana que Gabriel Galípolo, o atual secretário-executivo do ministério, é o indicado para o cargo de diretor de Política Monetária do Banco Central. Para a diretoria de fiscalização, o indicado é Ailton Aquino, que é servidor da autarquia há mais de 25 anos. Os indicados ainda serão sabatinados pela Comissão de Assuntos Econômicos do Senado e, segundo o senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), o presidente da comissão, isto deve ocorrer antes da próxima reunião do Copom (20 e 21 de junho).

Política monetária: Copom reitera condicionalidade dos juros à trajetória de inflação

O Banco Central divulgou nesta terça-feira (9) a ata das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) dos dias 2 e 3 de maio, apresentando mais detalhes sobre os rumos da política monetária. Em linhas gerais, não houve novidades significativas em relação ao comunicado da semana passada.

O Comitê afirmou que “as expectativas de inflação seguem desancoradas das metas definidas pelo Conselho Monetário Nacional, tendo havido uma pequena deterioração na margem” e enfatizou que “acompanha este movimento com preocupação e segue avaliando que expectativas desancoradas elevam o custo de trazer a inflação de volta à meta”.

Sobre o cenário fiscal, o Comitê avalia que “a apresentação do arcabouço fiscal reduziu a incerteza associada a cenários extremos de crescimento da dívida pública”. Entretanto, novamente afirmou que “não há relação mecânica entre a convergência de inflação e a aprovação do arcabouço fiscal” e que “a trajetória de inflação segue condicional à reação das expectativas de inflação e das condições financeiras”. Vale notar que o Comitê enfatizou em mais dois outros trechos que não existe relação mecânica entre aprovação do arcabouço e os juros ou a inflação.

O texto segue mostrando preocupação sobre uma elevação da taxa neutra de juros em função da “possível adoção de políticas parafiscais expansionistas”. Adicionalmente, alguns membros “ressaltaram que a conjuntura marcada por uma possível elevação das taxas de juros neutras nas principais economias, resiliência na atividade brasileira e um processo desinflacionário lento poderia ser compatível com uma medida de taxa neutra mais alta.” No entanto, adicionou que “a maioria dos membros do comitê julgou que essa interpretação ainda parece prematura e necessita de corroboração maior dos dados”

Por último, o Comitê reforçou o que já dizia no comunicado que “a conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária” e enfatizou “que, apesar de ser um cenário menos provável, não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado”. Esse trecho sinaliza que a chance de voltar a subir os juros diminuiu.

Em suma, a comunicação do Banco Central e o cenário prospectivo para a inflação sugerem manutenção da taxa Selic nos patamares atuais, por ora. Esperamos elevação das metas de inflação à frente, provavelmente em junho, quando o CMN precisará decidir a meta de 2026, o que poderia abrir espaço para queda da Selic na segunda metade do ano. Projetamos Selic em 12,5% ao final de 2023 e 11% ao final de 2024.       

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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