• Início
  • Economia
  • Relatório mensal: Bancos Centrais indicam mais aperto monetário

Leitura de 21 min

Relatório mensal: Bancos Centrais indicam mais aperto monetário

Equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulga projeções

Atualizado em

A equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulgou nesta sexta-feira (09) mais uma edição do seu relatório macroeconômico. Confira, abaixo, a íntegra do documento:

Resumo

Internacional

A economia global segue em um cenário turbulento e de crescimento baixo. O principal motivo é o aperto monetário que vem sendo implementado em vários países, visando reduzir a inflação. Adicionalmente, a escassez de gás na Europa e a desaceleração da economia chinesa, afetadas pelo longo conflito na Ucrânia e por medidas restritivas na China como resposta à Covid-19, pesam sobre a atividade global.

Nos EUA, a atividade continua desacelerando, refletindo o impacto da política monetária mais restritiva sobre a demanda. A inflação cedeu um pouco na margem, com menor preço de energia e queda recente dos preços das commodities. No entanto, o núcleo da inflação segue robusto. O mercado de trabalho continua aquecido, com contratações elevadas e vagas em aberto quase duas vezes maior que o número de desempregados no país, pressionando salários. O presidente do Banco Central americano (Federal Reserve – Fed), Jerome Powell, em evento do Fed em Jackson Hole, sinalizou que o banco deve continuar a subir juros e manter uma política monetária restritiva por mais tempo. Este mês, conforme o que já havia sido comunicado pelo Fed em maio, o banco aumentou o limite de redução do seu balanço patrimonial para US$ 95 bilhões por mês, mais uma medida na direção de aperto monetário. 

Na área do euro, a crise de energia se intensificou depois que a Rússia decidiu interromper o fluxo de gás para Alemanha. Preços altos de energia e seus impactos sobre a inflação preocupam o bloco, que deve definir um conjunto de medidas para tentar frear o preço do gás. A atividade continuou contraindo de acordo com o índice de gerente de compras (PMI, na sigla em inglês), que pelo segundo mês consecutivo ficou abaixo de 50. Há sinais de que a atividade pode continuar em queda nos próximos meses em razão da crise de energia. Pressões inflacionárias seguem elevadas. O Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas de juros na reunião deste mês, em 75 pontos-base, o primeiro aumento dessa magnitude no bloco. O BCE indicou que mais aumentos serão apropriados.

A China teve um aumento no número de casos de Covid-19, o que tem levado ao aumento do número de áreas de isolamento no país e até ao lockdown de outra grande cidade chinesa. A política de Covid zero continua sendo implementada e pesando sobre a economia.  O Conselho de Estado chinês definiu um conjunto de medidas para apoiar a economia, com maior suporte principalmente para investimentos em projetos de infraestrutura. Os índices de atividade do país sinalizaram um crescimento mais fraco em agosto.

Brasil

As condições que possibilitaram o sólido crescimento do PIB de 4,6% para 2021 e início de 2022 não devem estar presentes no restante deste ano. Os dados recentes de atividade sinalizam resiliência no início do 3T22. Revisamos nossa projeção de crescimento para 2022 de 2% para 2,3%. Para 2023, acreditamos que o PIB deve continuar desacelerando devido principalmente à política monetária contracionista que deve se estender ao longo do ano que vem.

O resultado primário do setor público consolidado voltou a surpreender positivamente, influenciado por aumentos temporários da receita, mas a perspectiva de desaceleração do crescimento, as desonerações e os aumentos dos gastos do governo sugerem deterioração à frente. Revisamos nossa projeção de resultado primário de superávit de 0,6% para 1,1% do PIB para 2022, mas aumentamos o déficit de 0,8% para 2% do PIB para 2023. A trajetória das contas públicas está em deterioração e provavelmente voltaremos a ter déficit fiscal a partir do ano que vem.

Em nossa visão, a taxa de câmbio nos patamares atuais, historicamente elevados, reflete riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público. A valorização do dólar globalmente também tem pressionado o real. Mantivemos nossa projeção para taxa de câmbio em R$ 5,50 no fim de 2022 e de R$ 5,80 ao final de 2023.

A dinâmica inflacionária recente mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciado pela forte redução dos bens monitorados. As medidas de desonerações explicam praticamente toda essa desaceleração, mas a queda dos preços de commodities recente foi mais acentuada do que projetávamos. Revisamos a projeção de IPCA de 6,5% para 6% para 2022. Acreditamos que à frente, passado o forte alívio temporário da redução de impostos, a inflação irá continuar alta e desacelerar de forma gradual. Nossa projeção de IPCA de 2023 se manteve estável em 5,7%.

O Copom afirmou que “avaliará a necessidade de um ajuste residual, de menor magnitude, na próxima reunião”, em setembro. A ata esclareceu que as projeções dos modelos do BCB já se encontram ao redor da meta no horizonte relevante de política monetária. Acreditamos que a comunicação e as projeções do BCB são condizentes com a manutenção da taxa Selic em 13,75% na reunião de setembro. A Selic deve permanecer neste patamar até pelo menos o 3º trimestre do ano que vem e terminar o ano de 2023 em 12,25%.

Panorama Global

EUA

A economia americana continuou perdendo o fôlego em agosto. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) divulgado pela S&P Global sinalizou contração pelo segundo mês consecutivo. A queda no índice composto, que inclui setor de manufaturas e serviços, refletiu uma queda forte em serviços, enquanto manufaturas perdeu força. No geral, as empresas reportaram menor demanda no período e indicaram planos de reduzir contratação de empregados. Pressões inflacionárias continuam elevadas para padrões históricos, mas têm diminuído recentemente.

O mercado de trabalho permaneceu forte. O número de contratações no mês de agosto continuou elevado, bem acima da média em 2018-2019. A taxa de desemprego subiu para 3,7%, depois de alcançar o mínimo da série no mês anterior, causado pela maior taxa de participação no mercado de trabalho. O número de vagas em aberto segue bastante elevado, com quase o dobro do número de vagas em aberto por desempregado no país. A forte demanda por trabalhadores continua pressionando salários.

A inflação desacelerou recentemente, principalmente por uma queda no preço de energia, enquanto alimentos continuaram subindo. O núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, também desacelerou e isso, em parte, reflete alguma melhora na cadeia de produção, redução nos preços das commodities e uma queda nos preços de alguns itens voláteis, como passagens aéreas e aluguel de veículos. Em 12 meses, o núcleo da inflação permaneceu elevado, bem acima da meta de 2% do Fed. Nossa expectativa é que os preços continuem cedendo em razão da política monetária mais restritiva do Fed, mas que não voltem à meta em um horizonte próximo.

O presidente do Banco Central americano (Federal Reserve – Fed), Jerome Powell, discursou na abertura do Simpósio Econômico de Jackson Hole, evento anual patrocinado pelo Fed. Powell sinalizou que o banco deve continuar a subir juros e manter uma política monetária restritiva por mais tempo para restaurar a estabilidade de preços. Disse que um novo aumento de 75 pontos-base pode ser apropriado, mas a decisão dependerá de dados e da evolução do cenário. A próxima decisão ocorre em 21 de setembro. Atualmente a taxa básica de juros está entre 2,25% e 2,50%. Este mês, o Fed dobrou o limite de redução do seu balanço patrimonial para US$ 95 bilhões por mês, conforme decisão de maio, mais uma medida na direção de aperto monetário.

O dólar ganhou força frente às demais moedas, com expectativas do mercado de nova alta de 75 pontos-base nos juros depois de discursos recentes do presidente do Fed.

Europa

A crise de energia se intensificou na Europa depois que a Rússia interrompeu por completo o fluxo de gás para Alemanha por tempo indeterminado. O gasoduto de Nord Stream 1, principal meio de envio de gás para o continente, não voltou a operar depois de manutenção realizada no fim de agosto. Apesar dos estoques de gás estarem elevados no bloco, acima da meta para o período, a agência reguladora de energia da Alemanha disse que não durariam mais de 2,5 meses, mesmo que praticamente cheios, sem o fornecimento russo. O preço do gás tem puxado a inflação na Europa que bateu novo recorde em agosto. Esta semana ministros de energia dos países do bloco discutem medidas relacionadas ao setor. O governo alemão já anunciou um novo pacote de EUR 65 bilhões para apoiar principalmente famílias de baixa renda, além de ter adiado o desligamento de 2 das 3 usinas nucleares em operação no país.

Em relação a outras commodities: o petróleo cedeu com preocupações quanto a uma desaceleração global; os grãos, que estavam com preços menores e mais estáveis com o aumento de exportações ucranianas depois de acordo com a Rússia, passaram a apresentar maior volatilidade após o discurso do presidente russo, Vladimir Putin. Putin disse que o acordo com a Ucrânia pode ser revisto em razão da maior parte das exportações estar indo para Europa e, portanto, não estar beneficiando países mais necessitados como tinha sido estabelecido. A Ucrânia nega a acusação.

O conflito entre Rússia e Ucrânia entrou no sétimo mês. A Rússia continua com bombardeios e tem avançado no leste do país, seguindo para tomar a região de Donbas. A Ucrânia mostra resistência, teve algum sucesso em contraofensivas no sul país e áreas ao norte do país – próximas a Kharkiv, e continua recebendo ajuda militar, financeira e humanitária do Ocidente. Negociações para um acordo de paz entre Rússia e Ucrânia estão praticamente paradas. O conflito se estende por mais tempo do que era previsto.

Em agosto, a atividade contraiu, de acordo com os índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). Tanto em manufaturas quanto em serviços, os índices estão abaixo de 50 pontos. O PMI de manufaturas sinalizou contração pelo segundo mês consecutivo nas principais economias do bloco – Alemanha, França, Itália e Espanha – e o de serviços apresentou crescimento mais fraco. Houve queda na demanda, melhora marginal no emprego e menor pressão de preços. O PMI composto – que inclui o setor de manufaturas e serviços – diminuiu 1 ponto para 48,9. Os riscos de contração da atividade à frente são elevados.

A inflação alcançou novo recorde, 9,1% acumulada em doze meses até agosto, em razão da forte alta no núcleo e no preço de alimentos. O núcleo da inflação subiu com aumento nos preços de bens, refletindo restrições de oferta e repasse de preços de insumos, em particular, energia. No mercado de trabalho, continuam sinais de aperto com a taxa de desemprego na mínima histórica de 6,6% em julho.

O Banco Central Europeu (BCE) aumentou juros em 75 pontos-base, conforme esperado, em decisão unânime e pretende continuar o ciclo de altas em razão de uma inflação elevada, com o objetivo de trazê-la para a meta de 2% no médio prazo. As magnitudes dos próximos aumentos serão definidas a cada reunião a depender dos dados, conforme já anunciado anteriormente. A presidente do banco, Christine Lagarde, disse que a inflação está sendo fortemente impactada por preços de energia, em particular o gás, e alimentos. Membros do BCE ainda não sabem até que ponto precisarão elevar os juros, mas preferem antecipar aumentos para que a inflação não se distancie muito da meta. Lagarde acrescentou que aumentos de 75 pontos-base não são uma norma. O BCE também divulgou novas expectativas de crescimento econômico na zona do euro, diminuindo o PIB em 2023 para 0,9% e 2024 para 1,9%, mas não prevendo uma recessão no cenário base. Expectativas de inflação foram revisadas para cima, chegando a 2,3% em 2024.

No Reino Unido, Liz Truss venceu eleição realizada entre os afiliados do partido conservador e se tornou a nova primeira-ministra substituindo Boris Johnson. Com a inflação elevada, em boa parte causada pelo forte aumento do gás, a primeira-ministra anunciou um plano para conter o preço da energia para famílias e empresas. A expectativa é que o plano reduza a inflação entre 4 e 5 pontos percentuais. O custo do pacote deve ser divulgado no fim do mês. A forma de financiamento não foi divulgada.

China

O quadro de Covid-19 voltou a trazer preocupações na China depois de novo lockdown anunciado em grande cidade chinesa – Chengdu, de 21 milhões de habitantes – importante centro na cadeia de produção de eletrônicos e automóveis. Este é o maior confinamento desde o de Xangai em abril e maio deste ano. Além de Chengdu, outras cidades têm apertado restrições à mobilidade, como Shenzhen, hub tecnológico, depois de um aumento de casos recente. O número diário de ocorrências no país está elevado, em torno de 1.500, depois de ter alcançado 100 no fim de junho. A política de Covid zero adotada na China mantém um controle rigoroso sobre circulação de pessoas quando casos aumentam, o que traz dificuldades para economia.

A China deve ser menos afetada pelo conflito na Ucrânia do que as economias ocidentais. O país tem mantido uma postura neutra, sua exposição comercial aos países em conflito é baixa e não foram impostas sanções aos produtos russos. Dito isso, a China pode ser afetada indiretamente pelo menor crescimento global, que pode diminuir suas exportações, e pela maior volatilidade de preços de commodities no mercado internacional.

O Conselho de Estado definiu um conjunto de medidas para apoiar a economia, com maior suporte principalmente para investimentos em projetos de infraestrutura. O total do pacote é de RMB 1 trilhão (US$ 146 bilhões). Apesar do valor elevado, os efeitos são incertos, com a contração do setor imobiliário e políticas restritivas relacionadas à Covid-19 pesando sobre a atividade.  Além disso, a China também atravessa uma onda de calor e a maior seca histórica, o que tem comprometido a agricultura e a produção de energia da maior hidrelétrica do mundo localizada no rio Yangtze. Algumas fábricas na região interromperam temporariamente a produção.

Os indicadores de atividade industrial e de serviços, reportados pelos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), calculado pelo Escritório Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês), continuaram perdendo o fôlego em agosto. O PMI composto, que considera o setor de manufaturas e de serviços, diminuiu 0,8 ponto para 51,7, sinalizando uma expansão mais fraca que no mês anterior. A desaceleração na atividade ocorreu principalmente em razão de um crescimento menor em serviços. Houve leve melhora na demanda doméstica e externa, mas ambos indicadores permanecem fracos. Há risco de a atividade desacelerar mais caso o surto de Covid-19 alcance novos grandes centros do país.

Os investimentos em ativos fixos na China desaceleraram nos sete primeiros meses do ano comparado ao mesmo período do ano anterior. Apesar de investimentos em infraestrutura permanecerem sólidos, investimentos imobiliários continuam encolhendo em razão de dificuldades do setor. Vendas de imóveis têm contraído e preços seguem diminuindo há 11 meses.

O Banco Central da China (PBOC, na sigla em inglês) reduziu, de forma assimétrica, as taxas de juros de curto prazo (LPR 1 ano) e longo prazo (LPR 5 anos), com redução maior, de 15 pontos-base, na de longo prazo, usada como referência para empréstimos imobiliários. A redução sinaliza certo apoio ao setor imobiliário.

Na maioria dos países do leste asiático, excluindo China – importante elo na cadeia de suprimento global – os PMIs de manufaturas continuaram sinalizando expansão moderada em agosto. Em Taiwan, o índice sinalizou contração pelo terceiro mês consecutivo, em razão de queda na produção, provocada principalmente por menor demanda global e doméstica. Preços começaram a diminuir para atrair vendas.

Cenário Doméstico

Atividade

O PIB brasileiro cresceu 4,6% em 2021. A progressiva reabertura da economia, possibilitada pelo avanço da vacinação, permitiu a retomada do setor de serviços, particularmente os prestados às famílias. Os efeitos da pandemia sobre a economia estão praticamente superados.

Após crescer 1,1% no 1T22, o PIB do 2T22 registrou nova alta, de 1,2% frente ao trimestre anterior, com expansão em serviços, indústria e agropecuária. No entanto, os trimestres seguintes devem apresentar crescimento baixo. Os dados mais recentes de atividade referentes a julho e agosto ainda mostram sinais de resiliência e nos levaram a revisar a projeção de crescimento para o ano de 2% para 2,3%.

No entanto, as condições que possibilitaram o sólido resultado para 2021 e início de 2022 não devem estar presentes no restante deste ano. A taxa Selic em território contracionista já afeta a atividade. A forte desaceleração do crescimento global deve impactar a atividade doméstica. A normalização da política monetária dos bancos centrais globais e, em particular, do Banco Central americano, impõe novos desafios à atividade global, num contexto em que a Europa sofre um choque na oferta de energia e a China ainda não descartou possíveis problemas com um novo surto de Covid-19. Os altos preços de commodities, que beneficiaram o Brasil no primeiro semestre, já mostram alguma reversão e não devem se manter à frente.

Para 2023, acreditamos que o PIB deve continuar desacelerando devido principalmente à política monetária contracionista, que deve se estender ao longo do ano que vem. Projetamos estabilidade da atividade para 2023.

A taxa de desemprego seguiu caindo em julho. Ela segue em patamar relativamente alto (9% na série com nosso ajuste sazonal), mas está perto do seu nível neutro. A perspectiva de crescimento abaixo do potencial para o segundo semestre deste ano e para 2023 nos leva a projetar uma taxa de desemprego que volta a subir no ano que vem.

Fiscal

O resultado primário do setor público consolidado encerrou o ano de 2021 positivo em 0,7% do PIB. Foi o primeiro superávit primário desde 2013. Para 2022, apesar da perspectiva de desaceleração do crescimento e da inflação, combinada com uma aceleração dos gastos, houve surpresa forte na arrecadação, o que deve levar o setor público consolidado a ter um novo superávit. As divulgações dos resultados fiscais recentes melhores do que o esperado refletem, na nossa visão, uma inflação persistentemente mais alta, preços de commodities elevados, que fortalecem a arrecadação, além de receitas extraordinárias pontuais. Por outro lado, projetos aprovados este ano (dentre eles a LC 194, a zeragem de alguns impostos federais e estaduais sobre combustíveis e a redução de IPI) têm o potencial de afetar negativamente a arrecadação, principalmente no 2º semestre, em cerca de R$ 130 bi (1,3% do PIB) este ano e R$ 200 bi (2% do PIB) em 2023, caso as medidas temporárias sejam prorrogadas.

Para o ano que vem, na nossa visão, essas medidas provavelmente serão prorrogadas e já vemos sinais disso. Além disso, o cenário é de continuação do aumento de gastos em 2023. Revisamos para cima nossa projeção para o resultado primário do setor público consolidado de superávit de 0,6% para 1,1% em 2022, em função das surpresas na arrecadação, mas aumentamos o déficit para 2023 de 0,8% para 2%. A trajetória das contas públicas está em deterioração e devemos voltar a ter déficit fiscal a partir do ano que vem.

Nossa projeção de dívida líquida passou de 58,6% para 59,7% do PIB para 2022. A dívida deve continuar subindo em 2023 puxada pela perspectiva de juros elevados, pelo baixo crescimento do PIB e pelas medidas recentes de desonerações e aumento de gastos. Nossa expectativa para a dívida líquida de 2023 passou de 62,5% para 64,4% do PIB ao final do ano. A incerteza fiscal segue alta e vemos uma deterioração das perspectivas de longo prazo para a sustentabilidade das contas públicas.

Setor externo

Acreditamos que o atual nível do câmbio em patamares historicamente elevados esteja alinhado com os fundamentos da economia, principalmente considerando os riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público.

Continuamos acreditando que a piora da trajetória da dívida líquida do governo e o fortalecimento do dólar frente às demais moedas, decorrente da retirada de estímulos monetários nos EUA, são fatores que devem levar a uma depreciação do real. Mantivemos a projeção de taxa de câmbio em R$ R$ 5,50 para o final de 2022. Para 2023, o câmbio deve continuar a registrar depreciação, pelos mesmos motivos citados acima. Nossa projeção para a taxa de câmbio ao final de 2023 está em R$ 5,80.

Com relação às contas externas, as importações em patamar elevado, apesar da taxa de câmbio depreciada, levarão a um saldo negativo das transações correntes para 2022. Nossa projeção para o resultado da conta corrente é de déficit de US$ 27 bi em 2022. Para 2023, o câmbio mais depreciado deve reduzir o déficit. Nossa projeção é de déficit de US$ 11 bi.

Inflação

A forte elevação de preços em 2021 de 10,1% impacta a inflação deste ano via inércia. A LC 194, que limita o ICMS de energia elétrica, combustíveis, telecomunicações e isenta de impostos federais a gasolina e o etanol, está reduzindo em cerca de 250 pontos-base a inflação de 2022. Nos últimos meses, dois fatores também trouxeram algum alívio para a perspectiva inflacionária: (i) houve queda nos preços de commodities globais e (ii) normalização das cadeias globais de produção. Ambos já estavam sendo levados em conta nas nossas projeções, mas ocorreram de forma mais intensa do que esperávamos. Reduzimos nossa projeção de IPCA de 6,5% para 6% para 2022. Acreditamos que à frente, passado o forte alívio temporário da redução de impostos, a inflação irá continuar alta e desacelerar de forma gradual.

A dinâmica inflacionária recente mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada pela forte redução dos bens monitorados. A inflação de bens industriais mostra sinais claros de desaceleração, enquanto a de serviços segue alta. Acreditamos que a inflação de serviços deve continuar elevada nos próximos meses em função da inércia inflacionária. Para 2023, mantivemos nossa projeção de IPCA estável em 5,7%.

Política monetária

O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou um ciclo de alta de juros em março do ano passado. Na última reunião, em agosto, o Comitê elevou a taxa Selic em 50 pontos-base, para 13,75%, e afirmou que “avaliará a necessidade de um ajuste residual, de menor magnitude, em sua próxima reunião”.

As projeções de inflação do BCB no cenário de referência caíram de 8,8% para 6,8% para 2022 e subiram de 4% para 4,6% para 2023. Para 2024, o modelo segue indicando inflação de 2,7%. Além disso, conforme afirmado no comunicado, o BCB passou a dar ênfase à inflação acumulada em doze meses no primeiro trimestre de 2024 ao invés do ano calendário de 2023. A projeção do Banco Central para este período situa-se em 3,5%. Este cenário supõe trajetória de juros que permanece em 13,75% até o final de 2022 e reduz-se para 11% ao final de 2023.

A ata esclareceu que a projeção da inflação de doze meses no primeiro trimestre de 2024, para a qual o Comitê passou a dar ênfase, “é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”. Além disso, o texto afirma que “a projeção de inflação para o ano-calendário de 2024 também se encontra ao redor da meta estipulada.” Ou seja, para o horizonte que o BCB está mirando, as projeções dos seus modelos já se encontram ao redor da meta.

A deterioração das expectativas de inflação para 2023 era um dos principais fatores que, na nossa visão, fariam a autoridade monetária continuar com mais um ajuste nos juros na reunião de setembro.  No entanto, a ata ressaltou que “a elevação das expectativas e das projeções de médio prazo se concentrou na inflação de preços administrados, em função do caráter temporário de algumas medidas tributárias.”

O Comitê sinalizou que “avaliará a necessidade de um ajuste residual, de menor magnitude, na próxima reunião, com o objetivo de trazer a inflação para o redor da meta no horizonte relevante”. O Comitê também afirmou que “seguirá vigilante e avaliará se somente a perspectiva de manutenção da taxa básica de juros por um período suficientemente longo assegurará tal convergência”, sinalizando que poderá elevar as taxas de juros à frente caso necessário.

Acreditamos que a comunicação e as projeções do BCB são condizentes com a manutenção da taxa Selic em 13,75% na reunião de setembro. A Selic deve permanecer neste patamar até pelo menos o 3º trimestre do ano que vem e terminar o ano de 2023 em 12,25%.

2019202020212022P2023P
Atividade
Crescimento Real do PIB1,2%-3,9%4,6%2,3%0,0%
PIB Nominal (R$ bi)7.3897.4688.6799.63710.358
Fiscal
Resultado Primário (% PIB)-0,8%-9,4%0,7%1,1%-2,0%
Dívida Líquida (% PIB)54,7%62,5%57,2%59,7%64,4%
Dívida Bruta (% PIB)74,4%88,6%80,3%78,4%84,6%
Setor Externo
R$/US$ (final de período)4,035,205,585,505,80
Balança Comercial (US$ bi)2732365870
Conta Corrente (US$ bi)-65-24-28-27-11
Conta Corrente (% PIB)-3,5%-1,7%-1,7%-1,5%-0,6%
Inflação
IPCA (Var. a/a )4,3%4,5%10,1%6,0%5,7%
Juros
Selic (dez)4,50%2,00%9,25%13,75%12,25%
P=Projeção
Fontes: IBGE, BCB, Bloomberg, C6 Bank.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

Os números contidos nos gráficos de desempenho referem-se ao passado; o desempenho passado não é garantia de resultados futuros.

Cada analista de Macro Research é o principal responsável pelo conteúdo deste relatório e atesta que:

(i) todas as opiniões expressas refletem com precisão suas opiniões pessoais e eventual recomendação foi elaborada de forma independente, inclusive em relação ao Banco C6 S.A. e / ou suas afiliadas;

(ii) nenhuma parte de sua remuneração foi, está ou estará, direta ou indiretamente, relacionada a quaisquer recomendações específicas realizadas pelo analista.

Parte da remuneração do analista vem dos lucros do Banco C6 S.A. e / ou de suas afiliadas e, consequentemente, as receitas decorrem de transações mantidas pelo Banco C6 S.A. e / ou suas coligadas.

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A., uma instituição regulada por autoridades brasileiras.

O Banco C6 S.A. é responsável pela distribuição deste relatório no Brasil.