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Relatório mensal: incerteza fiscal compromete queda da Selic

Equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulga projeções

Atualizado em

A equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulgou nesta quinta-feira (8) mais uma edição do seu relatório macroeconômico. Confira, abaixo, a íntegra do documento:

Resumo

Internacional

A economia global segue em um cenário turbulento e de crescimento baixo. O principal motivo é o aperto monetário que vem sendo implementado em vários países, visando reduzir a inflação. Adicionalmente, um surto recente de Covid-19 na China pesou sobre a atividade. A política monetária deve continuar restritiva em várias economias por período prolongado. No entanto, uma flexibilização em relação à política de Covid zero na China está em andamento, o que pode afetar a atividade no curto prazo, com a expectativa do aumento de infecções, mas abre espaço para uma recuperação do crescimento em 2023.

Nos EUA, a atividade continua desacelerando, refletindo o impacto da política monetária mais restritiva sobre a demanda. A inflação segue alta, mas com composição heterogênea: preços de bens recuaram, enquanto serviços seguem pressionados por salários elevados. O mercado de trabalho continua aquecido, com vagas em aberto elevadas e contratações acima da média pré-pandemia; a taxa de desemprego continua próxima da mínima recente, o que mantém salários pressionados. O Banco Central americano (Federal Reserve – Fed) divulgou ata da reunião de novembro indicando redução no ritmo de aumento de juros, mas que a taxa de juros final deve ser maior do que a esperada na reunião de setembro. Em nossa visão, a ata e comentários recentes de membros do Fed reforçam apostas de que os juros subirão 50 pontos-base na reunião deste mês.

A guerra entre Rússia e Ucrânia continua, com bombardeios russos destruindo principalmente infraestruturas da rede elétrica ucraniana, o que tem causado falhas e interrupções prolongadas no fornecimento para várias regiões do país. Na área do euro, a crise de energia moderou, com estoques de gás natural elevados e temperatura mais amena em novembro. A atividade continuou contraindo, porém com menor intensidade em novembro, de acordo com o índice de gerente de compras (PMI, na sigla em inglês). O Banco Central Europeu (BCE) divulgou a ata da reunião de outubro, quando aumentou juros em 75 pontos-base em meio a forte pressão inflacionária. Segundo a ata, o aumento foi apoiado por ampla maioria. Membros lembraram que os juros permanecem acomodativos e mostraram preocupação com o núcleo da inflação.

No Reino Unido, a inflação alcançou novo recorde dos últimos 40 anos e segue em dois-dígitos, também pressionada por altos custos de energia. O primeiro-ministro, Rishi Sunak, anunciou novo plano fiscal sem causar turbulências no mercado. O Banco Central inglês subiu juros em 75 pontos-base pela primeira vez em novembro, mas com sinalização do presidente do banco que a taxa final deve ser menor do que a esperada pelo mercado.

A China anunciou flexibilização na política de Covid zero apesar de um pico recente no número de casos. O surto atual superou o do início do ano que levou ao lockdown de Xangai. O ajuste em relação à política de Covid zero acontece depois de 3 anos do início da pandemia e em meio a protestos contra as rígidas medidas. Em evento anual do Politburo, o órgão formado pela liderança máxima do partido comunista adotou uma postura mais pró-crescimento econômico em 2023.

Brasil

As condições que possibilitaram o sólido crescimento do PIB de 5% para 2021 e metade de 2022 já não estão presentes. Os dados mais recentes de atividade mostram sinais claros de desaceleração. Apesar disso, elevamos nossa projeção de crescimento para o ano de 2,3% para 2,8%, em função de uma revisão dos dados do IBGE. Para 2023, projetamos estabilidade do PIB. Os efeitos da política monetária contracionista e da desaceleração global devem se estender ao longo do próximo ano.

O resultado primário do setor público consolidado deve terminar o ano superavitário em 1,4%, influenciado por aumentos temporários da receita. A perspectiva de desaceleração do crescimento, as desonerações e os aumentos dos gastos do governo sugerem deterioração à frente. Revisamos a projeção de déficit de 2% para 1,5% do PIB para 2023 por conta da revisão para cima na projeção do PIB e da arrecadação.

Em nossa visão, a taxa de câmbio nos patamares atuais, historicamente elevados, reflete riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público. O dólar valorizado globalmente ajuda a manter o real pressionado. Mantivemos nossa projeção para taxa de câmbio em R$ 5,50 no fim de 2022 e de R$ 5,80 ao final de 2023.

A dinâmica inflacionária recente mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada principalmente pela forte redução dos bens monitorados. Mantivemos nossa projeção de IPCA em 5,6% para 2022. Acreditamos que à frente a inflação irá continuar alta e os preços livres devem desacelerar de forma gradual. Para 2023, revisamos nossa projeção de IPCA de 5,7% para 5,9% em função de um mercado de trabalho mais apertado do que o esperado. O Copom manteve a taxa Selic estável em 13,75% na última reunião. Acreditamos que a comunicação e as projeções do BCB são condizentes com a sinalização da manutenção da taxa Selic em 13,75% por algum tempo, seguida de um início de ciclo de corte de juros. Revisamos o início da queda da Selic do 2º trimestre de 2023 para o 3º trimestre em função do aumento da incerteza fiscal. Nossa projeção é que a Selic termine o ano de 2023 em 11,75%.

Panorama Global

EUA

A economia americana continuou perdendo o fôlego em novembro. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), divulgado pelo Instituto ISM, sinalizou atividade em contração na indústria, depois de meses de desaceleração, com queda disseminada entre os vários componentes do indicador, como demanda, produção, emprego e preços. O índice para o setor de serviços teve expansão, com aumento na atividade e no emprego.

O mercado de trabalho permanece forte. A procura por trabalhadores segue firme. O número de vagas em aberto continua elevado. As contratações no mês de novembro permaneceram bem acima da média em 2018-2019, apesar do aperto monetário do Banco Central americano (Federal Reserve – Fed). A taxa de desemprego continuou em 3,7%, permanecendo baixa. A forte demanda por trabalhadores tem pressionado mais os salários, que aceleraram no mês. Acreditamos que, a despeito da desaceleração da atividade, o mercado de trabalho deve permanecer aquecido por período prolongado.

A inflação desacelerou em outubro, com aumento moderado no núcleo, que exclui alimentos e energia. Dentro do núcleo, o preço de bens apresentou queda enquanto o de serviços segue robusto, pressionado principalmente por salários elevados. Em 12 meses, o núcleo da inflação permaneceu alto em 6,3%, bem acima da meta de 2% do Fed. Nossa expectativa é que os preços continuem desacelerando em razão da política monetária mais restritiva do Banco Central, mas que não voltem à meta em um horizonte próximo.

O Banco Central americano (Federal Reserve – Fed) divulgou a ata da última reunião realizada em novembro, quando houve decisão unânime por aumento de 75 pontos-base na taxa de juros, elevando o intervalo dos juros para 3,75% a 4% ao ano. Segundo a ata, vários membros do Comitê acreditam que a taxa de juros no fim do ciclo deve ser pouco maior do que esperavam anteriormente (as últimas projeções, apresentadas em setembro, previam taxa final de 4,6% em 2023). Por outro lado, uma maioria substancial de participantes do Comitê apontou que uma redução no ritmo de aumento de juros pode ser apropriada em breve. O presidente do Fed, Jerome Powell, em evento recente, sinalizou um aumento de menor magnitude nos juros na reunião deste mês. Acreditamos que o Banco Central americano aplicará um aumento de juros de 50 pontos na reunião de dezembro.

A comunicação do Fed nos parece consistente com os juros no fim do ciclo girando em torno de 5% ao ano ou um pouco acima. À frente, pensamos que os juros devem se manter elevados por período bastante prolongado para trazer a inflação para a meta de 2% ao ano.

Europa

A guerra entre Rússia e Ucrânia entrou no décimo mês. Bombardeios russos continuam principalmente no leste e sul da Ucrânia destruindo infraestruturas de energia. Várias regiões da Ucrânia, inclusive a capital, enfrentam blackouts prolongados. Contraofensivas ucranianas continuam em áreas do leste ocupadas por russos.

A crise de energia na Europa moderou, com estoques de gás natural elevados. Apesar do menor fornecimento russo de gás natural, importações de gás natural liquefeito têm mantido os estoques na Europa acima da média dos últimos 5 anos. A temperatura amena por mais tempo do que o usual também favoreceu a formação de estoques. A partir desta semana, a União Europeia interrompeu importação de petróleo russo enviado ao continente por navio, o que corresponde a 2/3 da demanda total da região, em razão de sanções impostas à Rússia motivadas pela guerra. Além disso, países do bloco, membros do G7 e Austrália, fixaram um limite de preço da commodity russa em US$ 60 por barril, impedindo que empresas que atuam junto às exportações russas de petróleo, como transportadoras, seguradoras e bancos, com sede nestes países aceitem negociar carga acima deste valor. As medidas não tiveram impacto significativo no preço do petróleo. A Europa, desde que foi anunciado o pacote em junho, vinha se preparando para a interrupção do fornecimento russo.

No mercado internacional, o preço do petróleo continua cedendo, refletindo preocupações quanto a uma desaceleração global. Os grãos continuam apresentando preços elevados, mas estáveis, com a continuidade do acordo entre Rússia e Ucrânia para exportação das commodities por portos do Mar Negro.

Em novembro, a atividade continuou contraindo, porém menos que o esperado e com menor intensidade que no mês anterior, de acordo com os índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). Tanto em manufaturas quanto em serviços, os índices seguem abaixo de 50 pontos. O PMI de manufaturas sinalizou menor contração em grandes economias do bloco, como Alemanha, Itália e Espanha. O PMI de serviços ficou praticamente estável, mas segue fraco. Houve queda na demanda, crescimento moderado no emprego e certo alívio na pressão de preços. O PMI composto – que inclui o setor de manufaturas e serviços – aumentou 0,5 ponto para 47,8. Os riscos de uma contração mais profunda da atividade à frente diminuíram.

A inflação desacelerou, mas permanece em dois dígitos. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 10% nos últimos doze meses até novembro, com alta no preço de energia e alimentos. Entretanto, o núcleo da inflação, que exclui esses itens, segue forte e subiu 5%, mesmo aumento do mês anterior. Preços altos de energia devem continuar pesando sobre a inflação por mais algum tempo. O desemprego diminuiu para 6,5%, novo mínimo histórico da série.

O Banco Central Europeu (BCE) divulgou a ata da reunião de outubro, quando foi decidido um aumento de 75 pontos-base nas taxas de juros, o segundo consecutivo dessa magnitude, elevando a taxa de depósito para 1,5%, maior nível desde 2009. Conforme a ata, o aumento foi aprovado por ampla maioria, poucos preferiam um ajuste menor de 50 pontos-base. Durante a reunião, foi lembrado que o nível de juros continua acomodativo e que após o aumento ficaria mais próximo do neutro. Membros reforçaram preocupação com núcleo da inflação, que ainda não se estabilizou, e definiram que a trajetória dos juros será decidida a cada reunião a depender das perspectivas para a inflação e economia.

No Reino Unido, o primeiro-ministro, Rishi Sunak, anunciou seu plano fiscal em meados de novembro, sem causar turbulências no mercado. O plano prevê corte de gastos e maior arrecadação até 2027-2028, com a maior parte do ajuste ocorrendo depois de 2024. O Escritório de Responsabilidade Orçamentária (OBR, na sigla em inglês), órgão independente do governo, prevê um encolhimento da economia em 2023 de 1,4% e redução da razão dívida pública-PIB apenas em 5 anos (antes eram 3 anos).

O mercado de trabalho segue aquecido, com desemprego baixo e vagas em aberto elevadas, pressionando salários. A inflação subiu e alcançou novo recorde dos últimos 40 anos, permanecendo em dois-dígitos (11,1% acumulada em 12 meses até outubro), impactada adicionalmente pelo alto preço de energia. O Banco Central da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) elevou a taxa básica de juros em 75 pontos-base em novembro, para 3%, conforme esperado, levando os juros ao maior nível desde 2014. Foi o oitavo aumento consecutivo e o primeiro de 75 pontos-base. O presidente do Banco indicou que a taxa final deve ser menor do que a esperada pelo mercado (que está em torno de 5% a/a). Segundo projeções do Comitê de Política Monetária do BoE, a economia do Reino Unido deve ter uma recessão prolongada e a inflação deve ficar acima de 10% no curto prazo, começando a ceder em meados de 2023.

China

O governo anunciou flexibilização da política de Covid zero em direção a uma reabertura da economia. As medidas ocorrem a despeito de um surto de casos diários em novembro, que superou o pico anterior, que ocorreu no início do ano, e que manteve Xangai em lockdown por 2 meses. Ao todo, 30 medidas foram anunciadas desde meados de novembro, entre elas: melhor precisão na definição dos limites de áreas de risco alto (áreas de confinamento devem ser limitadas a prédios e não complexos, bairros ou cidades), redução do tempo de quarentena, diminuição de testagens frequentes, permissão de isolamento em casa para casos leves ou assintomáticos, mais vacinação de idosos e preparação de hospitais. A flexibilização ocorre depois de protestos contra as duras restrições associadas à política de Covid zero em vigor desde o início da pandemia há 3 anos.

Em evento anual do Politburo que define direções para o país no próximo ano, o órgão formado pela liderança máxima do partido comunista adotou uma postura mais pró-crescimento econômico para 2023, reforçou uma política fiscal expansionista e monetária acomodativa, e citou ajustes para a política de controle de Covid.

A China tem sido menos afetada pelo conflito na Ucrânia do que as economias ocidentais. O país tem mantido uma postura neutra, sua exposição comercial aos países em conflito é baixa e não foram impostas sanções aos produtos russos. Dito isso, a China tem sido afetada indiretamente pelo menor crescimento global, que tem diminuído suas exportações. Mas, mais recentemente, problemas operacionais em alguns portos chineses, em razão de surtos locais de Covid-19, também pesaram sobre a balança comercial.

Os indicadores de atividade industrial e de serviços, reportados pelos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), calculado pelo Escritório Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês), diminuíram em novembro e seguem fracos. O PMI composto, que considera o setor de manufaturas e de serviços, diminuiu para 47,1 pontos, permanecendo em área contracionista pelo segundo mês. A desaceleração na atividade ocorreu tanto na indústria quanto em serviços, que sofreram com medidas restritivas relacionadas ao surto do vírus. Houve enfraquecimento da demanda externa e queda na demanda interna e produção. A expectativa é que o ajuste na política de Covid zero, diminuindo as duras restrições, ajude a impulsionar a economia no próximo ano.

O governo anunciou um pacote de medidas para apoiar o setor imobiliário. As medidas encorajam bancos e outras instituições financeiras a conceder empréstimos ou estender financiamento às empresas saudáveis do setor. O objetivo é ajudar construtoras a finalizarem projetos inacabados e diminuir preocupações de possíveis compradores quanto ao recebimento de imóveis.

Na maioria dos países do leste asiático, excluindo China – importantes elos na cadeia de suprimento global – os PMIs de manufaturas continuaram perdendo força, sinalizando contração ou expansão moderada em novembro. Em Taiwan, o índice continua sinalizando contração pelo sexto mês consecutivo, em razão de queda na produção, provocada principalmente por uma deterioração na demanda global e doméstica. Empregos diminuíram novamente.

Cenário Doméstico

Atividade

A progressiva reabertura da economia, possibilitada pelo avanço da vacinação, permitiu a retomada do setor de serviços, particularmente os prestados às famílias. Os efeitos da pandemia sobre a economia estão praticamente superados. O IBGE divulgou neste mês sua revisão anual das estatísticas das contas nacionais, que mostraram PIB mais elevado em 2021 e 2022. O crescimento do PIB de 2021 foi revisto pelo IBGE de 4,6% para 5%. Os novos dados também impactaram nossa projeção para o PIB de 2022, que subiu de 2,3% para 2,8%.

Após crescer 1% no 2T22, o PIB do 3T22 registrou alta mais moderada de 0,4% frente ao trimestre anterior, com expansão em serviços e indústria, mas queda em agropecuária. Para o 4º trimestre acreditamos que essa desaceleração já observada irá se intensificar: projetamos PIB de zero ou até negativo. Os dados mais recentes de atividade mostram sinais claros dessa tendência.

As condições que possibilitaram o sólido resultado para 2021 e metade de 2022 já não estão presentes. A taxa Selic em território contracionista já afeta a atividade. A forte desaceleração do crescimento global impacta a atividade doméstica. A normalização da política monetária dos bancos centrais globais e, em particular, do Banco Central americano impõe desafios à atividade global, num contexto em que a Europa sofre um choque na oferta de energia e a China ainda enfrenta problemas com um novo surto de Covid-19. Os altos preços de commodities, que beneficiaram o Brasil no primeiro semestre deste ano, mostram sinais de reversão e não devem se manter à frente.

Os efeitos da política monetária contracionista e da desaceleração global devem se estender ao longo do próximo ano. Projetamos estabilidade da atividade para 2023.

A taxa de desemprego seguiu caindo em outubro e já se encontra ao redor do seu nível neutro ou um pouco abaixo. Entretanto, o crescimento abaixo do potencial a partir do quarto trimestre deste ano nos leva a projetar uma alta taxa de desemprego ao longo do ano que vem.

Fiscal

O resultado primário do setor público consolidado encerrou o ano de 2021 positivo em 0,7% do PIB. Foi o primeiro superávit primário desde 2013. Para 2022, houve surpresa forte na arrecadação, o que deve levar o setor público consolidado a ter um novo superávit. As divulgações dos resultados fiscais melhores do que o esperado no ano refletem, na nossa visão, preços de commodities elevados, que fortaleceram a arrecadação, além de receitas extraordinárias pontuais. Por outro lado, projetos aprovados este ano (dentre eles a LC 194, a zeragem de alguns impostos federais e estaduais sobre combustíveis e a redução de IPI) já estão afetando negativamente a arrecadação neste 2º semestre e têm o potencial de afetar em cerca de R$ 200 bi (2% do PIB) em 2023.

Além disso, projetos em tramitação no Congresso sinalizam um aumento de gastos relevante para 2023. Nossa projeção para o resultado primário do setor público consolidado ficou estável em 1,4% do PIB em 2022, mas devemos voltar a ter déficit fiscal a partir do ano que vem. Nossa projeção de déficit para o setor público consolidado passou de 2% para 1,5% para 2023. Essa mudança se deu por conta de uma revisão para cima na projeção do PIB e da arrecadação.

Nossa projeção de dívida líquida passou de 58,5% para 57,8% do PIB para 2022 por conta de surpresas nas despesas com juros, além da revisão do PIB pelo IBGE. A dívida deve voltar a subir em 2023, puxada pela perspectiva de juros elevados, pelo baixo crescimento do PIB e pelas medidas recentes de desonerações e aumento de gastos. Nossa expectativa para a dívida líquida de 2023 passou de 63,2% para 61,5% do PIB ao final do ano. A incerteza fiscal segue alta. Aguardamos os resultados da tramitação da PEC da Transição, além da regra fiscal a ser adotada à frente. Essas definições serão importantes para avaliar as perspectivas de longo prazo para a sustentabilidade das contas públicas.

Setor externo

Acreditamos que o atual nível do câmbio em patamares historicamente elevados esteja alinhado com os fundamentos da economia, principalmente considerando os riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público.

Continuamos acreditando que a piora da trajetória da dívida líquida do governo e o dólar valorizado frente às demais moedas, decorrente da retirada de estímulos monetários nos EUA, são fatores que devem sustentar a depreciação do real. Mantivemos a projeção de taxa de câmbio em R$ 5,50 para o final de 2022. Para 2023, o câmbio deve continuar a registrar depreciação, pelos mesmos motivos citados acima. Nossa projeção para a taxa de câmbio ao final de 2023 está em R$ 5,80.

Com relação às contas externas, as importações em patamar elevado, apesar da taxa de câmbio depreciada, levarão a um saldo negativo das transações correntes para 2022. Após a revisão dos dados históricos pelo Banco Central, nossa projeção para o resultado da conta corrente passou de déficit de US$ 40 bi para US$ 52 bi em 2022. Para 2023, o câmbio mais depreciado ajuda a reduzir um pouco o déficit, mas a revisão do PIB nominal pelo IBGE afetou a perspectiva para o ano que vem. Nossa projeção passou de déficit de US$ 35 bi para US$ 54 bi.

Inflação

A forte elevação de preços em 2021 de 10,1% impactou a inflação deste ano via inércia. Por outro lado, a LC 194, que limita o ICMS de energia elétrica, combustíveis, telecomunicações e isenta de impostos federais a gasolina e o etanol, reduziu a inflação de 2022 em quase 3 pontos percentuais. Mantivemos nossa projeção de IPCA em 5,6% para 2022. Acreditamos que à frente a inflação irá continuar alta e desacelerar de forma gradual.

A dinâmica inflacionária recente mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada principalmente pela forte redução dos bens monitorados. A inflação de bens industriais mostra sinais claros de desaceleração ao mesmo tempo em que as deflações nesse mesmo segmento nos preços de atacado nos dão conforto sobre a continuação dessa trajetória. A inflação de serviços já dá sinais de que ultrapassou seu pico, mas segue alta. Acreditamos que deve continuar elevada nos próximos meses em função da inércia inflacionária. Para 2023, revisamos nossa projeção de IPCA de 5,7% para 5,9% em função de um mercado de trabalho mais apertado do que o esperado.

Política monetária

O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou um ciclo de alta de juros em março do ano passado. Na última reunião, em dezembro, o Comitê manteve a taxa Selic em 13,75% e afirmou que se “manterá vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período suficientemente prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação”. A projeção de inflação do BCB no cenário de referência passou de 5,8% para 6% em 2022, subiu de 4,8% para 5% para 2023 e passou de 2,9% para 3% para 2024. Este cenário supõe trajetória de juros que permanece em 13,75% até o final de 2022, reduz-se para 11,75% ao final de 2023 e para 8,5% ao final de 2024. O Comitê “optou novamente por dar ênfase ao horizonte de seis trimestres à frente, que reflete o horizonte relevante, suaviza os efeitos diretos decorrentes das mudanças tributárias, mas incorpora os seus impactos secundários”. A projeção para este período no modelo do Banco Central passou de 3,2% para 3,3%.

O destaque do comunicado de dezembro foi a ênfase dada ao fiscal. O Copom indicou que “acompanhará com especial atenção os desenvolvimentos futuros da política fiscal e, em particular, seus efeitos nos preços de ativos e expectativas de inflação, com potenciais impactos sobre a dinâmica da inflação prospectiva.”

Acreditamos que a comunicação e as projeções do BCB são condizentes com a sinalização da manutenção da taxa Selic em 13,75% por algum tempo, seguida de um início de ciclo de corte de juros. Revisamos o início da queda da Selic do 2º trimestre de 2023 para o 3º trimestre em função do aumento da incerteza fiscal e desaceleração da inflação deve ser ainda mais lenta. Revisamos nossa projeção para a Selic no final de 2023 de 11,25% para 11,75%.

Projeções macroeconômicas do C6 Bank

 2019202020212022P2023P
Atividade     
Crescimento Real do PIB1,2%-3,3%5,0%2,8%0,0%
PIB Nominal (R$ bi)7.3897.6108.8999.86510.508
Fiscal     
Resultado Primário (% PIB)-0,8%-9,2%0,7%1,4%-1,5%
Dívida Líquida (% PIB)54,7%61,4%55,8%57,8%61,5%
Dívida Bruta (% PIB)74,4%86,9%78,3%75,1%80,5%
Setor Externo     
R$/US$ (final de período)4,035,205,585,505,80
Balança Comercial (US$ bi)2732364836
Conta Corrente (US$ bi)-68-28-46-52-54
Conta Corrente (% PIB)-3,6%-1,9%-2,9%-2,8%-2,8%
Inflação     
IPCA (Var. a/a)4,3%4,5%10,1%5,6%5,9%
Juros     
Selic (dez)4,50%2,00%9,25%13,75%11,75%
      
      
P=Projeção
Fontes: IBGE, BCB, Bloomberg, C6 Bank. 

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles                   Head

Claudia Moreno      Head Brasil

Claudia Rodrigues    Head Internacional

Felipe Mecchi               Internacional

Heliezer Jacob             Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

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