Leitura de 13 min

Resumo semanal: Cenário global mais temerário

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

Atualizado em

C6 Bank Felipe Salles. Foto: Germano Lüders

Confira as principais notícias da semana (26/9-30/9), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: inflação não dá trégua

A inflação americana subiu em agosto e segue elevada. O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) acelerou 0,3% em relação ao mês anterior, segundo dados do Departamento do Comércio americano. O índice acumula alta de 6,2% nos últimos doze meses, com destaque para o preço de energia (24,7%) e alimentos (12,4%). O núcleo do indicador, que exclui esses itens, subiu 0,6% no mês e 4,9% em doze meses, bem acima da meta de 2% do Banco Central. A renda das famílias aumentou 0,3% em agosto, em razão de aumentos de salários, enquanto os gastos com consumo subiram 0,4%. Houve aumento de gastos com serviços e queda com bens, segundo dados do Departamento do Comércio.

Os pedidos de bens duráveis e os de bens de capital tiveram leve queda em agosto, segundo o Departamento do Comércio. No entanto, os núcleos de ambos os índices cresceram. A demanda por bens de capital continua sinalizando que investimentos seguem firmes. Ambos os indicadores permanecem acima do nível pré-pandemia.

Os indicadores regionais de atividade industrial do Federal Reserve (Fed) de Dallas e Richmond vieram mistos no mês de setembro. O índice de Dallas teve queda significativa enquanto o de Richmond melhorou, mas permanece fraco. Ambos tiveram melhora na produção, mas demanda permanece fraca e preços elevados.

O setor imobiliário segue em retração. As vendas pendentes contraíram 2%, segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês), sinalizando que a venda de casas usadas deve continuar diminuindo nos próximos meses. As vendas de moradias novas subiram 28,8% em agosto em relação ao mês anterior, segundo o Departamento do Comércio, mas o aumento ocorre depois de seis meses de contração e o índice acumula queda de 18% no ano. Os preços de casas diminuíram 0,6% em julho, depois de quedas consecutivas em vendas, segundo a Agência Federal de Financiamento da Habitação (FHFA, na sigla em inglês).

O mercado de trabalho segue aquecido. Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego seguem em níveis baixos, em 193 mil na semana encerrada em 24 de setembro, 16 mil abaixo da semana anterior.

A confiança do consumidor melhorou em meio a expectativas de inflação levemente menores. O índice do Conference Board subiu 4,4 pontos em setembro para 108, maior nível desde janeiro deste ano. As perspectivas para a inflação de 1 ano diminuíram de 7% para 6,8%, mas seguem elevadas. A percepção quanto ao mercado de trabalho continua positiva, próxima a máximos históricos.

Europa: maior incerteza

A inflação chegou a dois dígitos e alcançou novo recorde. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 10% nos últimos doze meses até setembro, segundo a Eurostat. Houve aumento no preço de energia (40,8%) e alimentos (11,8%). O núcleo da inflação, que exclui esses itens, subiu (4,9%) e também alcançou novo recorde. A inflação cresceu em ritmo máximo na Alemanha, chegando a dois dígitos (10,9%), e Itália (9,5%), mas desacelerou na Espanha (9,3%) e França (6,2%) em razão de medidas para reduzir o preço de energia.

Ministros de energia da União Europeia entraram em acordo para reduzir consumo de energia e taxar empresas do setor. A Alemanha anunciou novo pacote de suporte a famílias e empresas para limitar o preço de energia aos consumidores. O total do pacote, de 200 bilhões de euros (5% do PIB do país), ficará fora do orçamento público. A medida se soma a três anteriores de 95 bilhões de euros.

O conflito entre Rússia e Ucrânia entrou no oitavo mês. O presidente russo, Vladimir Putin, anunciou a anexação de quatro territórios ucranianos do leste do país depois de vitória, segundo a Rússia, nos referendos realizados esta semana. Segundo Putin, a anexação é irreversível. Ucrânia e aliados não reconhecem o resultado. Um novo pacote de sanções foi anunciado pela União Europeia como represália. Contra-ofensivas ucranianas continuam principalmente no leste do país. O risco de uma escalada na violência aumentou, considerando a possibilidade de uso de armas nucleares por russos para defender os territórios anexados. O conflito se estende por mais tempo do que era previsto.

Os preços das commodities continuam com alta volatilidade. Entre os dias 23 e 29 de setembro, o preço do petróleo voltou a subir ligeiramente, mas permanece fraco refletindo preocupações quanto à desaceleração global e uma valorização do dólar frente a uma cesta de moedas de países desenvolvidos. Na próxima semana, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (OPEP+) deve anunciar uma redução da produção em novembro. O gás natural continua pressionado pela forte queda no fornecimento russo. No início desta semana, explosões ocorreram no gasoduto de Nord Stream, principal canal de envio de gás da Rússia para Europa, fechado já há algumas semanas. A Europa investiga o acidente que pode ter sido causado por sabotagem.

A confiança na economia (índice de sentimento econômico, calculado pela Comissão Europeia) diminuiu 3,6 pontos em setembro para 93,7. O índice reflete uma piora na confiança do consumidor, que alcançou o menor nível da série histórica em meio a uma inflação elevada e preocupações com fornecimento de energia. A confiança da indústria e do setor de serviços também diminuiu.

Por ora, o mercado de trabalho segue aquecido. A taxa de desemprego permaneceu em 6,6% em agosto, mínima histórica também alcançada em abril. O índice divulgado pelo Eurostat mostra heterogeneidade entre as economias do bloco. O desemprego permanece baixo na Alemanha (3%) mas alto na Espanha (12,4%) e Grécia (12,2%).

O mercado reagiu com desconfiança ao plano do governo de corte de impostos e aumento de gastos (com impacto estimado de 36 bilhões de libras – cerca de 1,5% do PIB – em 2023), comunicado no fim da semana passada pelo Reino Unido. Buscando estabilizar os preços de ativos, o Banco Central da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) anunciou o início de compras ilimitadas por tempo determinado de títulos do governo britânico e adiou o início da redução do seu balanço patrimonial, que estava previsto para a próxima semana. Antes da intervenção do BoE, a libra chegou a depreciar 5% em relação ao dólar. Com a intervenção, houve leve melhora nas condições financeiras. O BoE comunicou que uma resposta significativa de política monetária deve ocorrer na próxima reunião regular do banco em 3 de novembro.

China: atividade segue fraca apesar de apoio do governo

O quadro de Covid-19 teve leve melhora esta semana, com número de casos diários terminando em torno de 800, valor inferior à média da semana anterior. O número de áreas de risco tem diminuído, mas permanece elevado, o que significa que restrições à mobilidade continuam em várias áreas. A política de Covid zero adotada pelo país mantém um controle rigoroso sobre circulação de pessoas quando casos aumentam, o que traz dificuldades para a economia. Restrições seguem rígidas este mês que antecede reunião quinquenal do partido comunista em meados de outubro.

A atividade perdeu força em setembro, de acordo com os índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês), calculados pelo Escritório Nacional de Estatísticas chinês (NBS, na sigla em inglês). O PMI composto, que considera o setor de manufaturas, construção e serviços, diminuiu 0,8 ponto para 50,9, sinalizando uma expansão mais fraca pelo terceiro mês consecutivo. A desaceleração na atividade ocorreu principalmente em razão de uma queda em serviços (48,9), enquanto manufaturas teve leve recuperação (50,1) e construção subiu forte, ambos apoiados por medidas do governo. O setor de serviços continua sendo afetado por medidas restritivas relacionadas a Covid zero. A demanda doméstica permaneceu fraca, mas a produção subiu. A demanda externa caiu, sinalizando menores exportações para frente. Preços de insumos continuaram subindo.

O lucro da indústria contraiu 2,1% nos oito primeiros meses do ano até agosto frente ao mesmo período do ano anterior, de acordo com o Escritório Nacional de Estatística. O resultado reflete uma demanda baixa, em meio a medidas rigorosas de confinamento para conter casos de Covid-19 e um setor imobiliário fraco. Setores de mineração e produção de matérias-primas continuam apresentando resultados positivos, enquanto manufaturas continuaram sentindo pressão de custos. A indústria automobilística teve lucro maior, impulsionada por medidas de estímulo do governo de redução de impostos e melhora na cadeia produtiva. 

Brasil

Focus: expectativa de inflação ficou estável para 2024

A projeção para o IPCA apresentou queda para 2022 (de 6% para 5,88%) e para 2023 (de 5,01% para 5%), mas ficou estável para 2024 (em 3,5%). O número esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) registrou leve alta para 2022 (passou de 2,65% para 2,67%) e ficou estável para 2023 (em 0,5%). A taxa Selic ficou estável em 13,75% para o final deste ano, em 11,25% para 2023 e em 8% para 2024. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Política monetária: Copom reitera sinalização de fim do ciclo de ajuste monetário

O Banco Central divulgou nesta terça-feira (27) a ata das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) dos dias 20 e 21 de setembro. O texto esclareceu que a projeção da inflação de doze meses no 1º trimestre de 2024, para a qual o Comitê passou a dar ênfase, “no cenário em que se utiliza a trajetória de juros extraída da Pesquisa Focus, segue compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”. Esse trecho foi alterado em relação à última ata, enfatizando que o Comitê acredita na convergência da inflação usando o cenário de juros do Focus, que considera cortes de juros já no primeiro semestre do ano que vem. Além disso, manteve no texto que “a projeção de inflação para o ano-calendário de 2024 também se encontra ao redor da meta”. Ou seja, para o horizonte que o BCB está mirando, as projeções dos seus modelos se encontram ao redor da meta e com isso ele justifica o fim do ciclo de aperto monetário.

A ata também trouxe uma discussão sobre a incerteza em torno do grau de ociosidade da economia. Em exercício alternativo, afirmou que “pressupondo que o hiato do produto estaria no nível zero no terceiro trimestre de 2022, as projeções de inflação seriam de 4,9% e 3% para 2023 e 2024, respectivamente”. Ou seja, mesmo que o grau de ociosidade da economia seja menor do que o estimado pelo BCB, ainda assim a projeção de inflação de 2024 se encontraria ao redor da meta.  

Por último, o Comitê antecipou que “voltará a enfatizar horizontes que incluam o primeiro trimestre de 2023”, caso a manutenção da desoneração tributária sobre combustíveis em 2023 se materialize. Mas reiterou que “não haverá impactos relevantes sobre a condução de política monetária”.

Em resumo, acreditamos que a comunicação e as projeções do BCB são condizentes com a sinalização da manutenção da taxa Selic em 13,75% por algum tempo, seguida do início de um ciclo de queda de juros por volta de meados do ano que vem, ou seja, antes do que temos atualmente no nosso cenário.

Fiscal: arrecadação segue sólida

O resultado primário do setor público consolidado de agosto foi de déficit de R$ 30,3 bi. Em 12 meses, o superávit primário atingiu 1,97% do PIB. A dívida líquida atingiu 58,2% do PIB, refletindo o déficit primário e o pagamento de juros. Apesar do déficit no mês, o dado de arrecadação fiscal segue forte. Projetamos resultado primário do setor público consolidado de 1,1% do PIB para 2022. 

Deflação: IPCA-15 de setembro segue impactado pela queda de impostos

O IPCA-15 de setembro registrou deflação de 0,37%, mais intensa do que o esperado pelo mercado (-0,2%) e por nós (-0,14%). O índice acumula alta de 7,96% na variação em 12 meses e mostra desaceleração em função das medidas de redução de impostos sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicação (LC 194/2022). A queda do preço da gasolina também contribuiu para a contração dos preços registrada no mês. A redução dos impostos está impactando tanto a inflação de preços monitorados quanto de livres. A média dos núcleos da inflação calculada pelo BCB, uma medida mais limpa da tendência dos preços, está registrando desaceleração, mas segue em patamar elevado, acumulando alta de 10,2% em 12 meses. A inflação de serviços acumula alta de 8,5% e a de bens industriais de 11,9%. Ambos os segmentos devem desacelerar a passos lentos.

O IGP-M registrou queda de 0,95% em setembro, em linha com a expectativa do mercado, e acumula alta de 8,25% em 12 meses – trajetória de desaceleração. A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com queda de 0,39% frente à alta de 0,19% no mês anterior. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – registrou queda de 0,22% ante alta de 0,18% em agosto e segue mostrando desaceleração. A queda dos preços das commodities está puxando esse componente para baixo. No acumulado em 12 meses, ambos indicadores permanecem em patamar elevado, em 11,8% para o núcleo dos bens industriais e em 6,6% para o IPA agrícola. À frente, esperamos que os IPAs sigam desacelerando no acumulado em 12 meses.

Nossa projeção de IPCA é de 6% para 2022, com viés de baixa, e de 5,7% para 2023.

Atividade: taxa de desemprego em queda

A taxa de desemprego da PNAD Contínua no trimestre terminado em agosto veio em linha com o esperado pelo mercado e atingiu 8,9%. Na série com nosso ajuste sazonal, a taxa de desemprego caiu de 9% para 8,8% no trimestre terminado em agosto. A taxa apresentou um recuo acentuado desde o pico em dezembro de 2020 (15%), refletindo principalmente a recuperação do PIB de serviços. A pesquisa mostra continuação da retomada da ocupação e leve alta na população economicamente ativa (PEA) no mês. O crescimento da economia até agora foi suficiente para levar a taxa de desemprego para níveis próximos do neutro. O indicador reforça o cenário de que a inflação deve cair a passos lentos. A taxa deve continuar caindo até o final do ano, mas voltar a subir no ano que vem em função da desaceleração da atividade econômica. O rendimento médio real habitual registrou nova alta no mês (0,9%), mas segue em patamar deprimido. A massa salarial real habitual mostra forte expansão nos últimos meses, impulsionada principalmente pela recuperação do emprego.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

Os números contidos nos gráficos de desempenho referem-se ao passado; o desempenho passado não é garantia de resultados futuros.

Cada analista de Macro Research é o principal responsável pelo conteúdo deste relatório e atesta que:

(i) todas as opiniões expressas refletem com precisão suas opiniões pessoais e eventual recomendação foi elaborada de forma independente, inclusive em relação ao Banco C6 S.A. e / ou suas afiliadas;

(ii) nenhuma parte de sua remuneração foi, está ou estará, direta ou indiretamente, relacionada a quaisquer recomendações específicas realizadas pelo analista.

Parte da remuneração do analista vem dos lucros do Banco C6 S.A. e / ou de suas afiliadas e, consequentemente, as receitas decorrem de transações mantidas pelo Banco C6 S.A. e / ou suas coligadas.

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A., uma instituição regulada por autoridades brasileiras.

O Banco C6 S.A. é responsável pela distribuição deste relatório no Brasil.