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Resumo semanal: Fed indica mais uma alta de juros esse ano

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

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Confira as principais notícias da semana (18/9-22/9), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

C6 Bank Felipe Salles Foto: Germano Lüders 04/08/2021

Internacional

Estados Unidos: juros altos por mais tempo

O banco central americano (Federal Reserve – Fed) manteve os juros em 5,25% a 5,5% ao ano – maior patamar em mais de 20 anos. A decisão veio conforme esperado. Em comunicado, a instituição reconheceu um crescimento sólido da atividade, uma desaceleração do mercado de trabalho (apesar de reconhecer que ele permanece aquecido) e uma inflação ainda elevada. O Fed esclareceu que o aperto nas condições de crédito provavelmente irá pesar sobre a atividade econômica, o emprego e a inflação. A mensagem mais relevante veio na divulgação do Resumo das Projeções Econômicas (SEP, na sigla em inglês). Segundo o SEP, membros do comitê continuam prevendo mais uma alta de juros este ano e diminuíram os cortes esperados de juros em 2024 (antes previam uma redução de 100 pontos-base, agora de 50), sinalizando juros elevados por mais tempo. Na coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Jerome Powell, reforçou que a maioria do comitê prevê mais uma alta nos juros se a economia tiver o desempenho esperado, mas também mencionou a importância de proceder com cautela depois de uma série de aumentos de juros nos últimos 18 meses. Mantemos nossa visão que a inflação deve demorar a ceder em razão do mercado de trabalho aquecido. Portanto, acreditamos que o Fed deve implementar uma alta de juros, na ausência de surpresas, até o fim do ano, e mantê-los elevados por um longo período. Não prevemos cortes de juros antes de meados de 2024.

O setor imobiliário segue fraco. A venda de casas usadas teve retração de 0,7% em agosto em relação ao mês anterior, segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês). A venda de casas usadas está abaixo da média de 2019 (pré-pandemia) e segue com tendência de queda desde março deste ano. Apesar das vendas mais fracas, o estoque de casas disponíveis para venda segue baixo, mantendo preços elevados. Dados do Departamento do Comércio mostram que o indicador de construção de novas casas recuou no mesmo período, mas o de permissões para construir, um indicador antecedente, surpreendeu positivamente. Em outra pesquisa do setor, o índice de confiança das construtoras (NAHB Housing Market Index) diminuiu no mês de setembro. De modo geral, os dados sugerem um enfraquecimento do setor. O aperto da política monetária do Fed, que tem impacto direto nas taxas de hipoteca, tem pesado sobre o setor.

A atividade continua em expansão moderada, segundo as prévias dos índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês) do mês de setembro. O PMI composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, diminuiu 0,1 ponto para 50,1. A queda no indicador ocorreu principalmente por conta da desaceleração do setor de serviços, que diminuiu 0,3 ponto para 50,2. O índice de manufaturas, por outro lado, teve aumento de 1 ponto para 48,9. Na composição do índice, a produção segue em retração em manufaturas, mas em leve expansão em serviços. As quebras do indicador mostram que a pressão de custos – combustíveis, salários e matérias primas – tem pesado sobre a atividade no setor privado. A demanda doméstica tem desacelerado, mas segue forte. A geração de empregos aumentou moderadamente em manufatura e em serviços.

Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 201 mil na semana encerrada em 16 de setembro, 20 mil abaixo da semana anterior. Os pedidos de seguro-desemprego continuam consistentes com uma taxa de desemprego abaixo de 4%.

Europa: aumentam riscos de recessão

A guerra entre Rússia e Ucrânia se estende pelo segundo ano. Houve bombardeios russos à rede elétrica em 5 regiões ucranianas esta semana, além de ataques à infraestrutura portuária no Mar Negro e no rio Danúbio, atrapalhando o escoamento de grãos. A Comissão Europeia deve começar conversas sobre a entrada da Ucrânia no bloco no próximo mês, um processo de adesão que deve durar alguns anos. Países do G7 acreditam que a guerra seguirá ainda por muito tempo. O conflito segue sem perspectiva de fim próximo.

Na área do euro, a confiança do consumidor diminuiu novamente em setembro, segundo dados da Comissão Europeia. O indicador apresentava uma tendência de recuperação desde o fim de 2022, mas perdeu força nos dois últimos meses. O índice segue bem abaixo da média pré-pandemia.

A atividade segue fraca em setembro, de acordo com as prévias dos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), mas um pouco melhor que no mês anterior. O índice composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, subiu para 47,1 pontos, ficando abaixo de 50 pelo quarto mês seguido. A contração continua no setor de manufaturas, sendo a segunda consecutiva em serviços desde o início do ano. Na composição dos indicadores, a demanda continuou piorando, o emprego melhorou na margem e a pressão inflacionária segue diminuindo. Entre as maiores economias do bloco, os PMIs da Alemanha (46,2) e da França (43,5) seguem em contração, com piora expressiva no indicador da França, em razão de serviços mais fracos. As manufaturas também seguem fracas na Alemanha, mas houve melhora em serviços. Em nossa visão, a região deve passar por uma recessão no segundo semestre.

No Reino Unido, a atividade também continuou encolhendo em setembro. A prévia do PMI da região diminuiu 1,8 ponto para 46,8, com piora de serviços e contração contínua em manufaturas. O índice de manufaturas subiu levemente para 44,2, mas o de serviços caiu para 47,2. Por dentro dos indicadores, a demanda veio mais fraca, o emprego teve forte redução e a pressão inflacionária continuou diminuindo.

A inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) veio abaixo do esperado no Reino Unido e tanto o índice cheio quanto o núcleo desaceleraram em 12 meses. A surpresa veio com o menor aumento dos preços de serviços.  O índice cheio subiu 0,3% em agosto frente ao mês anterior e o núcleo, que exclui alimentos, energia, álcool e tabaco, subiu 0,2%.  Em 12 meses, o núcleo da inflação desacelerou de 6,9% para 6,2%, porém ainda está mais de 3 vezes acima da meta de 2% do Banco da Inglaterra.

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros em 5,25% ao ano – maior nível em 15 anos. A pausa ocorreu depois de 14 aumentos consecutivos, mas não foi unânime: quatro dos nove membros do Comitê de Política Monetária preferiram aumento de 25 pontos-base. O BoE prevê uma redução significativa da inflação nos próximos meses, com queda no preço de energia, e uma volta da inflação à meta na primeira metade de 2025. Na ata da reunião, o Banco manteve mensagens anteriores de que mais aperto na política monetária pode ser necessário se existirem evidências de continuidade na pressão inflacionária e que a política restritiva deve continuar por tempo suficientemente longo para que a inflação retorne a meta no médio prazo, em linha com o mandato do Banco.

Japão: alívio monetário continua

O Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) manteve inalterada a política monetária. A taxa de juros de referência permaneceu negativa em -0,1% e a meta da curva de controle de retornos de títulos de longo prazo segue em 0%. O presidente do Banco, Kazuo Ueda, indicou que ainda está distante de mudar a política monetária, porque o crescimento da inflação não parece sustentável. Em agosto, o núcleo da inflação, que exclui alimentos frescos e energia, cresceu 4,3% no acumulado em 12 meses.

China: PBoC sinaliza mais apoio à frente

O Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) manteve as taxas de juros de curto prazo (LPR 1 ano) e de longo prazo (LPR 5 anos) inalteradas, conforme esperado. A LPR 1 ano permaneceu em 3,45% e a LPR 5 anos em 4,2%. Após a decisão, o Banco acrescentou que tem amplo espaço de políticas monetárias para reagir aos desafios da economia e que poderá implementar ajustes contracíclicos. A comunicação do Banco aumentou expectativas de mais medidas de relaxamento monetário, inclusive de novo corte de juros à frente.

Commodities: preço do petróleo estabiliza em nível elevado

Os preços das commodities energéticas estão em alta. Entre os dias 14 e 21 de setembro, o preço futuro do petróleo (Brent) ficou estável, em torno de 94 dólares o barril. O preço futuro do gás natural na Europa subiu 10% no período. Houve acordo dos trabalhadores do setor na Austrália, terminando uma greve que durou por vários dias, mas a manutenção prolongada em plantas de gás na Noruega, principal fornecedor europeu, continua e deve se estender para outubro. O preço futuro do gás natural segue bem menor (menos da metade) que a média de janeiro de 2022 (pré-guerra).

Os preços das commodities agrícolas seguem tendência de queda. O preço futuro do trigo negociado na bolsa de Chicago segue abaixo da média de 2021, período anterior à invasão russa à Ucrânia, um dos maiores produtores e exportadores da commodity. O preço do milho devolveu a queda da semana anterior e subiu 2% e o da soja diminuiu 4%.

Brasil

Focus: inflação menor para 2023 e 2024

As projeções para o IPCA caíram para 2023 (de 4,93% para 4,86%), para 2024 (de 3,89% para 3,86%), porém permaneceram estáveis para 2025 (3,5%) e 2026 (3,5%). O número esperado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) registrou alta para 2023 (de 2,64% para 2,89%) e 2024 (de 1,47% para 1,5%). A taxa Selic está em 11,75% para 2023, em 9% para 2024 e em 8,5% para 2025 e 2026. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Inflação: índice de preços ao produtor amplo em deflação

A inflação medida pelo IGP-10 subiu 0,18% em setembro, abaixo da mediana das projeções do mercado de 0,28%. Em 12 meses, o índice está em -6,4%. A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com queda de 1,6% frente à alta de 0,2% no mês anterior. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – caiu 0,7%. Em 12 meses, o IPA agrícola está em -17,3% e o núcleo do IPA industrial em -3,8%.

Política Monetária: Copom segue ritmo moderado de queda de juros

O Banco Central do Brasil (BCB) reduziu a taxa Selic de 13,25% para 12,75% nesta quarta-feira (20). O Comitê continuou afirmando que a “conjuntura atual, caracterizada por um estágio do processo desinflacionário que tende a ser mais lento e por expectativas de inflação com reancoragem parcial, demanda serenidade e moderação na condução da política monetária”.

A projeção de inflação do BCB no cenário de referência passou de 4,9% para 5% para 2023, de 3,4% para 3,5% para 2024 e de 3% para 3,1% para 2025. O cenário supõe trajetória de juros que diminui de 13,25% para 11,75% até o final de 2023, para 9% ao final de 2024 e para 8,5% ao final de 2025. Ou seja, as projeções de inflação do Banco Central registraram leve alta e situam-se acima da meta para 2024, horizonte para o qual o Comitê dá maior ênfase atualmente. 

O comunicado trouxe alguns ajustes no texto. Ele afirmou que para o cenário doméstico “observou-se maior resiliência da atividade econômica do que anteriormente esperado, mas o Copom segue antecipando um cenário de desaceleração da economia nos próximos trimestres”. Sobre o fiscal, ele esclareceu que “tendo em conta a importância da execução das metas fiscais já estabelecidas para a ancoragem das expectativas de inflação e, consequentemente, para a condução da política monetária, o Comitê reforça a importância da firme persecução dessas metas.”. As mudanças mencionadas são pequenas, mas vão no sentido de uma necessidade de manter a política monetária restritiva.

O comunicado continuou afirmando que “em se confirmando o cenário esperado, os membros do Comitê, unanimemente, anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”. Ou seja, ao manter essa frase, o texto sinaliza mais duas quedas de 50 pontos-base nas reuniões de novembro e de dezembro.

Esperamos cortes de 50 pontos-base para as reuniões restantes do ano. Projetamos Selic em 11,75% ao final de 2023 e 9,25% ao final de 2024. Aguardamos a ata da reunião, que será divulgada na próxima terça-feira (26), para termos mais detalhes sobre os rumos da política monetária.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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