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Relatório mensal: IPCA abaixo do teto da meta em 2023

Equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulga projeções

Atualizado em

A equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulgou nesta quinta-feira (11) mais uma edição do seu relatório macroeconômico. Confira, abaixo, a íntegra do documento:

felipe sales, head da equipe econômica do C6 Bank, em pé e com as mãos na cintura.

Resumo

Internacional

Os bancos centrais das principais economias desenvolvidas estão em pausa com políticas restritivas, mas sinalizações distintas sobre os próximos passos. Nos Estados Unidos, o comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed) sinaliza três reduções neste ano, mas o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra preveem um caminho a percorrer para levar a inflação à meta.

O ciclo de corte de juros continua em países emergentes. Brasil e Chile, por exemplo, reduziram os juros em 200 e 300 pontos-base, respectivamente, até o momento.

A atividade global segue em ritmo fraco. Nos Estados Unidos, a economia apresenta sinais de desaquecimento. Na Europa, é provável uma recessão, principalmente em razão do alto custo da energia. Na China, o crescimento deve oscilar em torno da meta de “em torno de 5%”, sustentado por várias medidas de suporte do governo.

Brasil

Dados recentes confirmaram uma forte desaceleração da atividade no 2S23. Projetamos crescimento do PIB de 1,5% em 2024. Em 2025, a economia também deve crescer cercade 1,5%.

O resultado primário do setor público consolidado deve ser deficitário em 0,7% do PIB em 2024 e em 2025. Esses números incorporam parte das medidas fiscais anunciadas pelo governo.

Para a taxa de câmbio, revisamos nossa projeção de R$ 5,50 para R$ 5,30 ao final de 2024 devido à mudança no cenário externo (dólar mais fraco). Para 2025, projetamos dólar em R$ 5,50.

Com uma expectativa de câmbio menos depreciado, reduzimos nossa projeção de IPCA de 2024 de 5,5% para 5,3%. Para 2025, esperamos que a inflação fique em 5%.

O Copom reduziu a taxa Selic de 12,25% para 11,75% em dezembro e indicou quedas adicionais no mesmo ritmo de 50 pontos-base. Projetamos Selic de 9,25% ao final de 2024 e 8,5% em 2025.

Panorama Global

EUA

A economia segue apresentando sinais de desaceleração, em linha com a política monetária restritiva do banco central americano (Federal Reserve, Fed). Não vemos, por ora, nenhum sinal de recessão.

Indicadores coincidentes apontam uma expansão moderada no setor de serviços e uma contração em manufaturas. Os dois setores costumam andar juntos e a recente divergência pode ser explicada pelo aumento do consumo (em sua maior parte, composto de serviços).

O mercado de trabalho continua sólido, mas vem desaquecendo. A taxa de desemprego se manteve em 3,7% em dezembro e o ganho médio por hora trabalhada segue elevado. No entanto, a demanda por trabalhadores está abaixo da média do primeiro semestre de 2023, seguindo uma leve tendência de desaceleração, e o número de vagas abertas por desempregado aumentou em novembro.

A inflação continua pressionada por serviços. O CPI acelerou no mês de dezembro frente ao mês anterior e seu núcleo cresceu 0,3%, em linha com o esperado. A composição do índice mostra que o setor de bens não é uma preocupação. Por outro lado, a inflação de serviços continua persistente com salários elevados (acima da produtividade), em razão do aperto no mercado de trabalho, pressionando custos do setor. O núcleo da inflação (que exclui alimentos e energia) desacelerou para 3,9% – bem acima da meta de 2% do banco central americano.

Na decisão mais recente de política monetária, o Fed manteve os juros em 5,25% a 5,5% ao ano pela terceira vez consecutiva – maior patamar em mais de 20 anos – conforme esperado. Após a reunião, houve a divulgação do Resumo das Projeções Econômicas (SEP, na sigla em inglês), o qual revela que o comitê espera três cortes em 2024. No entanto, a ata da reunião buscou indicar mais cautela, esclarecendo que, dada a incerteza do cenário atual, os membros mantêm aberta a possibilidade (ainda que pequena) de mais aperto.

Em nossa visão, o Fed vem adotando uma postura mais “dovish” nos últimos meses. A atividade econômica continua resiliente, a inflação de serviços tem se mostrado persistente e o desaquecimento do mercado de trabalho está ocorrendo lentamente. Dada a comunicação mais recente de membros do Fed, mantemos nossa expectativa sobre o início do corte de juros em meados de 2024, mas reconhecemos a possibilidade de que ocorra antes.

O dólar vem perdendo força depois da comunicação do Fed, com expectativas de juros menores à frente. A trajetória da moeda americana, que era de valorização desde meados de julho frente às principais moedas, começou a inverter a partir de novembro com sinais do Fed de que o ciclo de alta de juros teria terminado, e prosseguiu em queda em dezembro após a sinalização de mais cortes em 2024. Esperamos, dada a mudança de postura do Fed, que a tendência de dólar mais fraco permaneça.

Europa

A guerra entre Rússia e Ucrânia está próxima de completar dois anos. A Rússia segue bombardeando regiões da Ucrânia. Os Estados Unidos e a União Europeia vem apresentando dificuldades em implementar um novo pacote de auxílio financeiro para a Ucrânia.

A atividade econômica continua fraca devido à política monetária apertada do Banco Central Europeu e ao alto preço de energia. A produção industrial mantém tendência de queda. O volume produzido está no menor nível em 3 anos. O mercado de trabalho, no entanto, continua forte na área do euro. A taxa de desemprego está na mínima histórica da série iniciada em 1998, em 6,4% no mês de novembro, e pode manter pressão sobre salários. Em meio ao enfraquecimento prolongado da atividade, é provável ter ocorrido uma recessão técnica na região.

A inflação segue alta, mas desacelerando. O índice de preços ao consumidor subiu 2,9% nos últimos doze meses até dezembro. O núcleo da inflação, que exclui alimentos, energia, álcool e tabaco, desacelerou de 3,6% para 3,4%, com redução na inflação de bens, mas com serviços se mantendo pressionados. A inflação permanece bem acima da meta de 2%.

O Banco Central Europeu (BCE) manteve as taxas de juros inalteradas, conforme esperado. Esta foi a segunda pausa consecutiva, depois de dez aumentos de juros desde meados de 2022. A taxa de depósito permaneceu em 4% ao ano – pico da série histórica. Em comunicado, o Banco justificou a manutenção com base nos dados recentes, que confirmam a avaliação da instituição de que os juros mantidos nos níveis atuais por longo tempo contribuirão para levar a inflação à meta no médio prazo. O comunicado reforçou que decisões futuras continuam dependentes de dados. A presidente do Banco, Christine Lagarde, durante a coletiva de imprensa, disse que não foram discutidos cortes de juros. Membros do comitê acreditam que ainda tem um caminho a percorrer para levar a inflação à meta. Em nossa visão, os juros devem permanecer elevados por mais algum tempo.

No Reino Unido, a inflação segue alta, mas desacelerou mais que o esperado. Nos 12 meses até novembro, a inflação acumulou alta de 3,9% e o núcleo, que exclui alimentos, energia, álcool e tabaco, desacelerou de 5,7% para 5,1%, com persistência no crescimento de preços de serviços. O mercado de trabalho continuou robusto em dezembro, mas com sinais de moderação. O desemprego permaneceu estável em 4,3% e houve desaceleração do ganho por hora trabalhada. As vagas em aberto também continuam cedendo, apesar de ainda estarem em nível elevado.

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros em 5,25% ao ano, conforme esperado – é o maior nível em 15 anos. A pausa foi a terceira consecutiva, depois de 14 aumentos. O BoE prevê estagnação da economia nos próximos trimestres. Na ata da reunião, o Banco manteve mensagens anteriores de que mais aperto na política monetária pode ser necessário se existirem evidências de continuidade na pressão inflacionária, e de que a política deve continuar restritiva por tempo suficientemente longo para que a inflação retorne à meta no médio prazo, em linha com o mandato do Banco. Em nossa visão, os juros devem permanecer elevados por mais tempo.

Japão

O Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros de referência estacionada em -0,1% e a meta dos rendimentos de títulos públicos de longo prazo em 0%. A decisão era esperada. O presidente do Banco, Kazuo Ueda, disse ser difícil elaborar um plano para deixar a política de juros negativos, mas não eliminou as chances de uma normalização nos próximos meses. A ata da reunião mostrou que membros do comitê de política monetária não estão com pressa para subir juros. O BoJ segue buscando mais evidências de um crescimento sustentável dos salários e dos preços para apertar a política monetária e estará atento às negociações de salários que acontecem a partir de março no país.

Em novembro, o núcleo da inflação, que exclui alimentos frescos e energia, cresceu 3,8% no acumulado em 12 meses. O país tem histórico de deflação.

China

A atividade apresentou sinais mistos. Em novembro, a produção industrial cresceu 6,6% no mês comparado ao mesmo período de 2022. As vendas no varejo ganharam força e aumentaram 10,1%. Os investimentos mostraram crescimento moderado. Os investimentos em manufaturas e infraestrutura seguem sólidos.

O setor imobiliário permaneceu fraco, com queda na venda de casas novas e nas unidades residenciais em construção.  Apenas as finalizações de construções já iniciadas continuaram aumentando, encorajadas por medidas do governo para que construtoras terminem e entreguem projetos. O preço de casas nas 70 maiores cidades chinesas diminuiu pelo sexto mês seguido. Medidas anunciadas por governos locais para estimular a compra de imóveis, como redução de custos de hipotecas e menores valores de entrada na compra, trouxeram pouco alívio ao setor até o momento – mesmo nas grandes cidades chinesas.

A taxa de desemprego urbano permaneceu estável em 5% em novembro, menor patamar desde o início de 2022. O órgão responsável pelo dado (Departamento Nacional de Estatísticas) parou de divulgar o desemprego por faixa etária em meio ao crescente desemprego entre jovens (16-24 anos), que alcançou 21,3% em junho.

Indicadores antecedentes de atividade voltaram a perder força em dezembro. O índice de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês) que considera o setor de manufaturas, construção e serviços, diminuiu, sinalizando fraca expansão em dezembro. Houve piora no setor de manufaturas e estabilidade no setor de serviços – ambos permanecem abaixo de 50, sinalizando retração. O setor de construção, por outro lado, segue em expansão em meio a maiores investimentos em infraestrutura.

Na decisão de dezembro, o Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros de médio prazo inalterada, em 2,5% ao ano, conforme esperado. As taxas de curto prazo (LPR 1 ano) e de longo prazo (LPR 5 anos) também permaneceram inalteradas.

Nossa expectativa continua sendo de crescimento do país este ano em linha com a meta do governo de “em torno de 5%”. Não esperamos um forte estímulo do governo, que continua com o objetivo de promover crescimento sustentável e reduzir desequilíbrios criados por estímulos passados.

Na maioria dos países do leste asiático, excluindo China, importantes elos na cadeia de suprimentos global, o setor de manufaturas segue fraco. A Índia permanece sendo a exceção e continua com o setor aquecido.

Cenário Doméstico

Atividade

Após um 1S23 com forte expansão, o PIB do 3T23 confirmou a perda de fôlego da atividade nesta segunda metade do ano – houve apenas leve alta de 0,1% em relação ao trimestre anterior. Com o fim do impulso da safra recorde de soja, a economia sentiu o impacto dos juros elevados. Esperamos que o PIB do 4T23 tenha apresentado uma pequena queda. Projetamos crescimento do PIB de 3% em 2023, com leve viés de baixa.

A taxa Selic, em território ainda contracionista, e a desaceleração do crescimento global afetam a atividade doméstica. Os altos preços de commodities, que beneficiaram o Brasil no primeiro semestre do ano passado, já mostraram reversão.

No entanto, o impacto da queda dos juros deve ser sentido a partir deste ano. Acreditamos que a economia brasileira irá voltar a crescer: projetamos alta de 1,5% para o PIB em 2024. Para 2025, estimamos expansão também de 1,5%.

A taxa de desemprego já se encontra em patamar inferior ao seu nível neutro. A perspectiva de expansão moderada do PIB este ano nos leva a projetar taxa de desemprego praticamente estável até o final de 2024.

Fiscal

Após dois anos consecutivos registrando superávit primário, o ano de 2023 deve ter apresentado um déficit para o setor público consolidado. A PEC da Transição, aprovada no Congresso ao final de 2022, permitiu um aumento de gastos, ainda que a aprovação do novo arcabouço fiscal e as medidas de aumento de arrecadação atenuem a deterioração das contas públicas. Para 2024 e 2025, projetamos déficits de 0,7% do PIB.

A dívida líquida encerrou o ano de 2022 em 56,1% do PIB e apresentou alta ao longo de 2023, puxada pelos juros ainda elevados e pelo aumento de gastos. Acreditamos que a dívida deve ter encerrado o ano passado em 61,2% do PIB. Para 2024 e 2025, a tendência de alta deve prosseguir – projetamos dívida líquida em 63,1% e 64,7% do PIB respectivamente.

A situação fiscal brasileira é desafiadora e requer um forte ajuste para equilibrar as contas públicas. Apesar do novo arcabouço ser um passo importante na direção da sustentabilidade fiscal, acreditamos que, na ausência de um significativo aumento na arrecadação, será necessária uma queda dos juros reais para impedir o crescimento da dívida do país.

Setor externo

A taxa de câmbio fechou o ano de 2023 em R$ 4,86. Apesar da valorização do câmbio no ano passado, acreditamos que o real voltará a depreciar, influenciado pela elevada dívida líquida do governo e pela redução da Selic num contexto de juros ainda elevados nos EUA. No entanto, a perspectiva de um dólar mais fraco em termos globais nos fez revisar a nossa projeção de R$ 5,5 para R$ 5,3 ao final de 2024. Para 2025, projetamos taxa de câmbio em R$ 5,50 ao final do ano.

Com relação às contas externas, apesar da taxa de câmbio depreciada, seguimos com a expectativa de transações correntes em patamar negativo. Isto ocorre porque grande parte dos ganhos com uma moeda depreciada são compensados por uma produtividade mais baixa comparada a outros países. Projetamos déficit de US$ 17 bi em 2024 e de US$ 15 bi em 2025.

Inflação

O IPCA acumulou alta de 4,6% em 2023 e mostrou redução nos últimos meses. A média dos núcleos de inflação do Banco Central, que expurga os itens mais voláteis, registrou desaceleração e acumula alta de 4,3%.

A inflação deve permanecer acima da meta nos próximos meses. Na nossa visão, o fato do IPCA ter fechado o ano abaixo do que as projeções indicavam inicialmente se deve, principalmente, a fatores pontuais, como o câmbio mais apreciado e a queda acentuada no preço de commodities, situações que não devem se repetir este ano. De qualquer forma, revisamos nossa projeção de 5,5% para 5,3% em 2024 devido à queda na nossa expectativa de taxa de câmbio.

Para 2025, projetamos alta de 5% para o IPCA. Importante reiterar que a resiliência do setor de serviços em um ambiente de mercado de trabalho aquecido, impõe desafios à trajetória da inflação à meta.

Política monetária

O Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu em dezembro a taxa Selic de 12,25% para 11,75%, continuando o ciclo de corte de juros iniciado em agosto.

As projeções de inflação do BCB no cenário de referência (que considera juros de 9,25% ao fim de 2024 e de 8,5% ao fim de 2025) registraram leve queda, passando de 4,7% para 4,6% para 2023 e de 3,6% para 3,5% para 2024. A previsão para 2025 ficou estável, em 3,2%. As projeções de inflação situam-se acima da meta para 2024 e ligeiramente acima da meta para 2025.

O comunicado manteve o plano de voo ao seguir sinalizando que “em se confirmando o cenário esperado, os membros do Comitê, unanimemente, anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”. Ou seja, o texto sinaliza mais duas quedas de 50 pontos-base nas reuniões de janeiro e março. Esperamos cortes de 50 pontos-base para as próximas duas reuniões. Projetamos Selic em 9,25% ao final de 2024 e 8,5% ao final de 2025.

Projeções macroeconômicas do C6 Bank

 20192020202120222023P2024P2025P
Atividade   
Crescimento Real do PIB1,2%-3,3%4,8%3,0%3,0%1,5%1,5%
PIB Nominal (R$ bi)7.3897.6109.01210.08010.83411.58212.475
Fiscal   
Resultado Primário (% PIB)-0,8%-9,2%0,7%1,2%-2,3%-0,7%-0,7%
Dívida Líquida (% PIB)54,7%61,4%55,1%56,1%61,2%63,1%64,7%
Dívida Bruta (% PIB)74,4%86,9%77,3%71,7%75,5%79,2%80,8%
Setor Externo   
R$/US$ (final de período)4,035,205,585,284,865,305,50
Balança Comercial (US$ bi)27323644818184
Conta Corrente (US$ bi)-68-28-46-54-25-17-15
Conta Corrente (% PIB)-3,6%-1,9%-2,8%-2,7%-1,2%-0,7%-0,6%
Inflação   
IPCA (Var. a/a)4,3%4,5%10,1%5,8%4,6%5,3%5,0%
Juros   
Selic (dez)4,50%2,00%9,25%13,75%11,75%9,25%8,50%
        
P=Projeção
Fontes: IBGE, BCB, Bloomberg, C6 Bank.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles                   Head

Claudia Moreno      Head Brasil

Claudia Rodrigues    Head Internacional

Felipe Mecchi               Internacional

Heliezer Jacob             Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

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