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Relatório mensal: cenário mais incerto

Equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulga projeções

Atualizado em

A equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulgou nesta quinta-feira (16) mais uma edição do seu relatório macroeconômico. Confira, abaixo, a íntegra do documento:

Resumo

Internacional

A economia global está passando por um momento de maior incerteza, causado por uma maior volatilidade dos mercados depois da quebra de dois bancos regionais nos Estados Unidos na semana passada.

A pronta ação de órgãos reguladores nos EUA parece ter evitado o contágio da crise, mas ainda é cedo para garantir que a questão está resolvida. No entanto, enquanto o desfecho não estiver claro, os bancos centrais devem optar por ganhar tempo até que mais informações sobre os impactos do evento se tornem mais claros, para então decidir os próximos passos de política monetária. Em outras palavras, esperamos movimentos mais suaves de decisões de juros por ora.

A economia americana dá sinais incipientes de melhora, mas o aumento da incerteza no setor bancário pode inibir essa tendência. A inflação segue alta, mas com composição heterogênea e desacelerando: preços de bens recuaram, mas serviços seguem pressionados. O mercado de trabalho continua aquecido, com a taxa de desemprego próxima do menor nível desde 1970, em 3,6%. O Banco Central americano (Federal Reserve – Fed) elevou a taxa de juros em 25 pontos-base em fevereiro e indicou mais aumentos. Entretanto, em razão do cenário mais turvo, nossa expectativa é de uma estabilidade ou leve aumento de 25 pontos-base na reunião do fim deste mês.

Na área do euro, a crise energética arrefeceu, com acesso a fontes alternativas de energia, estoques de gás natural elevados e temperatura mais amena no inverno. O Banco Central Europeu (BCE) subiu os juros em 50 pontos-base na reunião de março e reforçou que próximas decisões serão dependentes de dados. No Reino Unido, a inflação desacelerou, mas segue elevada, em dois dígitos.

O Japão é um caso à parte em termos de política monetária. O país mantém taxa de juros negativa desde meados de 2016. A inflação, no nível mais alto desde 1981, encontra-se acima da meta. O Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros e o intervalo de flutuação dos rendimentos dos títulos públicos na reunião de março. Kazuo Ueda será o novo presidente do BoJ a partir de abril.

A China apresentou uma melhora significativa no quadro de Covid-19. Indicadores de alta frequência mostram aumento da mobilidade. A melhora já aparece nos indicadores de atividade, que voltaram a sinalizar expansão, principalmente no setor de serviços. A meta de crescimento anunciada pelo governo foi de “em torno de 5%”.

Brasil

A economia apresentou um bom desempenho no ano passado: alta de 2,9%.  No entanto, as condições que possibilitaram o sólido crescimento do PIB para 2021 e metade de 2022 já não estão mais presentes. Os dados recentes de atividade mostram sinais claros de desaceleração. Para este ano e o próximo, mantivemos nossas projeções de expansão de 1% e 0,5% para o PIB, respectivamente. Os dados recentes indicam um resultado um pouco acima disso para 2023, mas os riscos advindos do cenário global sugerem cautela.

O resultado primário do setor público consolidado encerrou o ano de 2022 com um superávit de 1,3%, influenciado por aumentos temporários da receita. A perspectiva de desaceleração do crescimento, as desonerações implementadas no ano passado e os aumentos dos gastos do governo sugerem deterioração à frente. Projetamos déficit primário de 1,4% do PIB para 2023. Para 2024, essa dinâmica negativa deve permanecer e projetamos déficit de 1,2% do PIB.

Em nossa visão, a taxa de câmbio nos patamares atuais, historicamente elevados, reflete riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público. Acreditamos que a piora da trajetória da dívida líquida do governo, o dólar valorizado frente às demais moedas e o aumento das incertezas no cenário global são fatores que devem sustentar a depreciação do real. Mantivemos nossa projeção para taxa de câmbio em R$ 5,60 no fim de 2023. Para frente, a taxa de câmbio deve continuar depreciando em função do aumento da dívida pública. Projetamos dólar em R$ 6 ao final de 2024.

A dinâmica inflacionária recente mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada principalmente pela forte redução dos bens monitorados. O IPCA fechou 2022 com alta de 5,8%. Acreditamos que à frente a inflação irá continuar alta e os preços livres devem desacelerar de forma gradual. Para 2023, ajustamos nossa projeção de IPCA de 5,8% para 6%. Para 2024, esperamos que a inflação desacelere lentamente, projetamos alta de 5%.

O Copom manteve a taxa Selic estável em 13,75% na reunião de fevereiro. Na nossa visão, a comunicação do Banco Central e o cenário prospectivo para a inflação sugerem uma queda da taxa Selic apenas a partir de 2024 e em ritmo lento. Nos últimos meses, houve uma piora nas expectativas de inflação para o horizonte relevante e para além dele. Projetamos Selic em 13,75% ao final de 2023. Para 2024, projetamos Selic de 12% ao final do ano.                                                                                    

Panorama Global

EUA

O colapso de dois bancos regionais no início do mês levou órgãos reguladores a tomarem medidas tempestivas para conter um contágio. Entre as medidas, foi garantida proteção para o valor total dos depósitos de clientes nos dois bancos, independentemente do valor em conta (o usual é que sejam garantidos depósitos até 250 mil dólares) e foi criado um programa de financiamento por 1 ano para prover liquidez adicional para o sistema bancário. Nossa expectativa é que as medidas adotadas sejam suficientes. De qualquer forma, o aumento da incerteza deve evitar um movimento mais intenso do Banco Central americano (Federal Reserve, Fed) na próxima decisão de política monetária.

Acreditamos que o Fed deva optar por uma alta de 25 pontos-base ou pela estabilidade na reunião de março. Em nossa visão, não faria sentido acelerar o ritmo de alta para 50 pontos-base, como sinalizado pelo presidente do Fed, Jerome Powell, antes dos eventos nos dois bancos regionais, em testemunho ao Congresso americano. Continuamos com a visão de que o Fed deve manter os juros em patamar elevado por bastante tempo, mas reconhecemos que o cenário é de elevada incerteza. Caso a crise financeira se acentue, existe a possibilidade de o Fed responder com cortes de juros à frente.

A indústria americana melhorou na margem em fevereiro, mas segue fraca. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), divulgado pelo Instituto ISM, sinalizou atividade em contração moderada na indústria. Houve aumento na demanda, mas leve queda na produção; o emprego diminuiu indicando menos contratações. No entanto, dados incipientes do mês de março mostram um arrefecimento. O setor de serviços manteve forte expansão em fevereiro, com destaque para o aumento da demanda e emprego. 

O mercado de trabalho continuou forte. As contratações no mês de fevereiro continuaram bem acima da média de 2018-2019. A taxa de desemprego aumentou de 3,4% para 3,6%, permanecendo próximo do menor nível da série histórica. A demanda por trabalho segue bem acima da oferta: são quase 2 vagas em aberto por desempregado no país. Este desequilíbrio tem pressionado os salários. Acreditamos que o mercado de trabalho deve permanecer aquecido por período prolongado, o que deve manter a inflação pressionada.

A inflação permaneceu elevada em fevereiro. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 6% no acumulado em 12 meses. O núcleo, que exclui alimentos e energia, subiu 5,5%. A inflação de bens tem desacelerado com a normalização da cadeia de produção global e com o alívio nos preços de commodities. A inflação de serviços, no entanto, segue elevada, pressionada por preços de aluguéis e pelo mercado de trabalho aquecido, que impulsiona salários. Preços de aluguéis devem começar a ceder nos próximos meses com a redução já observada no preço de imóveis. Nossa expectativa é que a inflação continue desacelerando em razão da política monetária mais restritiva do Fed, mas que não volte à meta em um horizonte próximo.

Europa

A guerra entre Rússia e Ucrânia entrou no segundo ano. Mísseis russos continuam sendo lançados intensamente sobre várias cidades, mirando principalmente infraestrutura de energia e outros alvos civis. A região leste da Ucrânia continua sendo a mais afetada. A União Europeia (UE) anunciou o décimo pacote de sanções à Rússia. Dentre as medidas está o banimento de exportações da UE de tecnologias e bens industriais que possam ser úteis à força militar russa na ordem de 11 bilhões de euros. O presidente Xi Jinping deve ir a Rússia para um encontro com Putin. O líder chinês também deve conversar com o presidente ucraniano pela primeira vez desde que começou a guerra. O acordo de exportação de grãos por portos ucranianos pode ser estendido e está sendo negociado entre as partes. O conflito segue sem perspectiva de um fim próximo.

A crise de energia na Europa continua arrefecendo, com estoques de gás natural elevados. Apesar do menor fornecimento russo desde meados do ano passado, importações de gás natural liquefeito têm mantido os estoques na região acima da média dos últimos 5 anos. A temperatura amena por mais tempo do que o usual também favorece a formação de estoques. O preço da commodity permanece abaixo da média de janeiro do ano passado, período anterior à guerra. No mercado internacional, o preço do petróleo diminuiu e está abaixo de 80 dólares o barril, em meio a preocupações com uma desaceleração global.

A atividade melhorou em fevereiro, de acordo com os índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). O índice composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, foi puxado por uma melhora forte no indicador de serviços, que subiu 1,9 ponto para 52,7, reforçando a expansão iniciada em janeiro. O PMI de manufaturas diminuiu levemente, em 0,3 ponto, permanecendo em território contracionista em 48,5. Apesar de ainda abaixo de 50, o índice de manufaturas mostrou sinais positivos. Houve aumento na produção e melhora significativa dos gargalos na cadeia produtiva, o que contribui para menor pressão inflacionária. O menor preço de energia também diminuiu pressão sobre preços. Empregos seguem crescendo tanto no setor de manufaturas quanto de serviços e pressionam salários. A perspectiva é de continuação da recuperação da atividade.

O mercado de trabalho continua aquecido. A taxa de desemprego continuou em 6,7% em janeiro, permanecendo próximo ao mínimo histórico da série.

A inflação desacelerou pelo terceiro mês consecutivo. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) foi para 8,5% nos últimos doze meses até janeiro contra 9,2% no período anterior, com menor aumento no preço de energia. Estima-se que este número seja revisado para 8,6%, depois da divulgação recente do índice da Alemanha, principal economia do bloco. Apesar da desaceleração, o núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, segue forte e permaneceu em 5,2%, recorde da série.

O Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas de juros em 50 pontos-base, conforme anunciado na reunião anterior, elevando a taxa de depósito para 3% ao ano – maior nível desde 2008. Este foi o sexto aumento consecutivo. Em comunicado, o Banco justificou o aumento em razão de uma inflação muito alta e que deve demorar a ceder. Acrescentou que o elevado nível de incerteza reforça a importância de os próximos passos serem dependentes dos dados. A presidente do Banco, Christine Lagarde, disse que tem confiança de que a inflação retorne à meta no médio prazo. Acreditamos que o BCE deva reduzir o ritmo de aumento dos juros a partir da próxima reunião, em razão de maior incerteza na economia global. Em nossa visão, o BCE tem um longo caminho a percorrer e deve manter juros elevados por um período prolongado.

No Reino Unido, a inflação continuou desacelerando, mas permaneceu em dois dígitos (10,1% acumulada em 12 meses até janeiro), impactada principalmente pelo aumento no preço de alimentos. O núcleo da inflação, que exclui energia e alimentos, também desacelerou para 5,8%, com crescimento menor no preço de bens e serviços. O mercado de trabalho segue aquecido, com desemprego baixo e vagas em aberto elevadas.

Japão

O Banco do Japão (BoJ) manteve a política monetária inalterada na última reunião presidida por Haruhiko Kuroda. A taxa de juros permanece negativa (-0,1%) e o intervalo de flutuação de juros de títulos de 10 anos do governo continua centrado em 0% com amplitude de 0,5%.

O parlamento japonês aprovou formalmente Kazuo Ueda como sucessor de Kuroda a partir de 9 de abril. O novo presidente já tinha sido apontado pelo primeiro-ministro japonês. Dados econômicos mais fracos do que o esperado, como PIB e gastos com consumo, sugerem que o BoJ não terá pressa em retirar os estímulos no curto prazo. No entanto, a inflação tem acelerado e alcançou o maior nível dos últimos 40 anos em janeiro, 4,3% em doze meses, bem acima da meta de 2% do Banco.

China

O Congresso Nacional do Povo, evento político chinês mais importante do ano, elegeu em votação unânime o presidente Xi Jinping para um terceiro mandato de cinco anos, tornando Xi o líder chinês por mais tempo à frente do país desde sua fundação em 1949. O primeiro-ministro será Li Qiang, conforme esperado. Li falou em priorizar um crescimento econômico estável e em apoiar empreendedores e empresas privadas. O ministro das finanças e o presidente do Banco do Povo da China serão os mesmos, um sinal positivo de continuidade da política monetária, com a permanência de líderes tecnocratas e experientes à frente de instituições financeiras.

No mesmo evento, foram definidos os objetivos para economia em 2023. A meta para o crescimento do PIB ficou “em torno de 5%”, abaixo das expectativas de “acima de 5%”, sinalizando que o governo pretende deixar a economia crescer sem dar novos estímulos. Um crescimento acima de 5% é esperado por boa parte dos analistas, já que houve uma melhora significativa da atividade com a reabertura e normalização do quadro de Covid-19 antes do previsto. Durante o Congresso, também foi citada a estratégia de superar a América, com foco em ciências e tecnologia.

O quadro de Covid-19 não é mais um problema e a reabertura ganhou força em fevereiro. Indicadores de mobilidade diária mostram uma volta à normalidade com o crescimento no uso de metrôs e congestionamentos no trânsito das grandes cidades.

A China tem sido menos afetada pelo conflito na Ucrânia do que as economias ocidentais. O país tem mantido uma postura neutra, sua exposição comercial aos países em conflito é baixa e não foram impostas sanções aos produtos russos. Dito isso, a China tem sido afetada indiretamente pelo baixo crescimento global, o que tem diminuído suas exportações.

A atividade ganhou força em fevereiro. De acordo com os índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês), calculados pelo Escritório Nacional de Estatísticas chinês (NBS, na sigla em inglês), o PMI composto, que considera o setor de manufaturas, construção e serviços, continuou subindo e alcançou 56,4, maior nível em mais de uma década. O PMI de manufaturas aumentou 2,5 pontos para 52,6, com aumento da produção e da demanda doméstica e externa. O PMI de serviços subiu 1,6 ponto para 55,6, sinalizando recuperação em diversos setores e não apenas nos que se beneficiam diretamente com a reabertura (como turismo e restaurantes), como aconteceu em janeiro.

A demanda e a produção também ganharam força no início do ano. Vendas no varejo cresceram 3,5% em janeiro e fevereiro, contra o mesmo período do ano anterior, com aumento de serviços de refeições, medicamentos e bens de consumo. Investimentos subiram, vieram acima do esperado, puxado por infraestrutura e manufatura, com queda moderada no setor imobiliário. As vendas de imóveis cresceram depois de meses em queda. A produção industrial teve aumento sólido de 2,4% no período.

Na maioria dos países do leste asiático, excluindo China – importantes elos na cadeia de suprimento global – os PMIs de manufaturas subiram moderadamente, mas continuaram fracos, sinalizando leve contração ou expansão moderada em fevereiro. Em Taiwan, o índice subiu, com melhora na demanda, produção e na cadeia produtiva. Empregos seguem fracos.

Cenário Doméstico

Atividade

A progressiva reabertura da economia permitiu a rápida retomada do setor de serviços, particularmente os prestados às famílias. Os efeitos da pandemia sobre a economia estão superados. O desempenho da atividade nos últimos dois anos foi sólido: o PIB cresceu 5% em 2021 e 2,9% no ano passado. Apesar da expansão no ano, houve forte desaceleração no segundo semestre de 2022. Após registrar uma alta moderada de 0,3% no 3T22, o PIB do 4T22 contraiu 0,2% frente ao trimestre anterior.

As condições que possibilitaram o sólido resultado para 2021 e para o primeiro semestre de 2022 não estão mais presentes. A taxa Selic em território contracionista já afeta a atividade – os dados recentes mostram sinais claros de enfraquecimento. A desaceleração do crescimento global impacta a atividade doméstica. A normalização da política monetária dos bancos centrais globais e, em particular, do Banco Central americano colocaram um freio na atividade global. Os altos preços de commodities, que beneficiaram o Brasil no primeiro semestre do ano passado, já mostram reversão.

Os efeitos da política monetária contracionista e da desaceleração global devem se estender ao longo de 2023 e de 2024. No entanto, dois fatores impulsionam o crescimento para o PIB deste ano: (i) os estímulos fiscais evidenciados pela aprovação da PEC da Transição, que aumenta os gastos de 2023 em R$ 168 bilhões e (ii) a estimativa de uma safra recorde de soja para 2023.

Projetamos crescimento do PIB de 1% em 2023. Os dados recentes indicam um resultado um pouco acima disso, mas os riscos advindos do cenário global sugerem cautela. Vale ressaltar que esses fatores não representam um estímulo permanente na tendência de crescimento. Os incentivos advindos de estímulos fiscais devem ter efeito apenas no curto prazo, enquanto o setor agropecuário, de modo geral, independe da atividade econômica doméstica. Para 2024, esperamos crescimento de 0,5% para o PIB.

A taxa de desemprego já se encontra ao redor do seu nível neutro ou um pouco abaixo. Entretanto, o crescimento abaixo do potencial a partir do quarto trimestre de 2022 nos leva a projetar uma alta taxa de desemprego ao longo de 2023.

Fiscal

O resultado primário do setor público consolidado encerrou o ano de 2022 com um superávit de 1,3%, um resultado positivo pelo segundo ano consecutivo. Ao longo do ano tivemos surpresa positiva na arrecadação, o que, na nossa visão, reflete preços de commodities elevados, além de receitas extraordinárias pontuais. Por outro lado, projetos aprovados no ano passado (dentre eles a LC 194, a zeragem de alguns impostos federais e estaduais sobre combustíveis e a redução de IPI) afetaram negativamente a arrecadação no 2º semestre de 2022 e têm o potencial de reduzir a arrecadação de 2023, ainda que parte deles esteja sendo revertido.

Além disso, a PEC da Transição aprovada no Congresso sinaliza um aumento de gastos relevante para 2023. Portanto, devemos voltar a ter déficit primário a partir deste ano. Mantivemos nossa projeção de déficit para o setor público consolidado em 1,4% para 2023. Para 2024, essa dinâmica negativa deve permanecer. Projetamos déficit de 1,2% do PIB.

A dívida líquida encerrou o ano de 2022 em 57,1% do PIB e deve continuar a subindo em 2023 e 2024, puxada pela perspectiva de manutenção de juros em patamares elevados, pelo baixo crescimento do PIB e pelas medidas de desonerações e aumento de gastos. Nossa expectativa para a dívida líquida de 2023 passou de 62,8% para 60,9% do PIB ao final do ano por conta de uma surpresa na divulgação dos dados de janeiro deste ano. Para 2024, projetamos alta da dívida líquida para 65,2%.

A situação fiscal brasileira é desafiadora e requer um forte ajuste para equilibrar as contas públicas. Aguardamos mais informações sobre qual será a regra fiscal a ser adotada à frente. Essa definição será importante para avaliar as perspectivas de longo prazo para a sustentabilidade das contas públicas.

Setor externo

Acreditamos que o atual nível do câmbio em patamares historicamente elevados esteja alinhado com os fundamentos da economia, principalmente considerando os riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público.

A taxa de câmbio fechou o ano de 2022 em R$ 5,28. Continuamos acreditando que a piora da trajetória da dívida líquida do governo e o dólar valorizado frente às demais moedas são fatores que devem sustentar a depreciação do real. Adicionalmente, o aumento da incerteza advindo de problemas em alguns bancos de países avançados pode levar a uma procura por ativos de menor risco, como títulos do tesouro americano, e pressionar moedas de países emergentes, como o real. Por outro lado, a perspectiva da manutenção da taxa Selic no patamar atual por um período mais prolongado é um fator que contribui para mitigar a tendência de depreciação cambial.

Mantivemos nossa projeção para a taxa de câmbio para o final de 2023 em R$ 5,60. Para frente, a taxa de câmbio deve continuar depreciando pelos mesmos motivos citados acima. Projetamos dólar em R$ 6 ao final de 2024.

Com relação às contas externas, as importações em patamar elevado, apesar da taxa de câmbio depreciada, contribuíram para um saldo negativo de US$ 56 bi das transações correntes em 2022. Para 2023, ajustamos a projeção de déficit de US$ 51 bi para US$ 67 bi. Para 2024, estimamos um déficit de US$ 48 bi devido a uma perspectiva de melhora na balança comercial.

Inflação

O IPCA de 2022 registrou alta de 5,8%. A forte elevação de preços em 2021 de 10,1% impactou a inflação do ano passado via inércia. Por outro lado, as reduções de impostos aprovadas reduziram a inflação em quase 3 pontos percentuais. Acreditamos que à frente a inflação irá continuar alta e desacelerar de forma gradual.

A dinâmica inflacionária mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada principalmente pela forte redução dos bens monitorados. A inflação de bens industriais mostra sinais claros de desaceleração, ao mesmo tempo em que as deflações nesse mesmo segmento nos preços de atacado nos dão conforto sobre a continuação dessa trajetória. A inflação de serviços já ultrapassou seu pico, mas segue alta. Acreditamos que ela deve continuar elevada nos próximos meses em função da inércia inflacionária. Para 2023, ajustamos nossa projeção de IPCA de 5,8% para 6% devido a um aumento no pagamento de impostos de energia elétrica e a algumas surpresas nos números correntes.

Os impactos inflacionários de um potencial agravamento da incerteza global são dúbios. Se, por um lado, uma valorização do dólar é inflacionária, por outro, uma desaceleração global tende a reduzir os preços das commodities, o que traria a inflação para baixo.

Para 2024, acreditamos que a inflação irá continuar caindo a passos lentos. Mantivemos nossa projeção para o IPCA de 5%. Importante reiterar que os riscos fiscais impõem desafios à trajetória da inflação à frente.

Política monetária

O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou um ciclo de alta de juros em março de 2021. Na última reunião, em fevereiro, o Comitê manteve a taxa Selic em 13,75% e afirmou que “segue vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período mais prolongado do que no cenário de referência será capaz de assegurar a convergência da inflação”.

A projeção de inflação do BCB no cenário de referência passou de 5% para 5,6% para 2023 e de 3% para 3,4% para 2024. Este cenário supõe trajetória de juros que diminui de 13,75% para 12,5% até o final de 2023, para 9,5% ao final de 2024 e para 8,5% ao final de 2025. O Comitê “optou novamente por dar ênfase ao horizonte de seis trimestres à frente, referente ao terceiro trimestre de 2024”. A projeção para o IPCA deste período no modelo do BCB é de 3,6%.

Sobre o cenário fiscal, o Comitê discutiu os impactos sobre a inflação e afirmou que “alguns membros notaram que a execução do pacote apresentado pelo Ministério da Fazenda deveria atenuar o risco fiscal e que será importante acompanhar os desafios na sua implementação”. O Comitê ponderou que “manteve sua governança usual de incorporar as políticas já aprovadas em lei, mas reconhece que a execução de tal pacote atenuaria os estímulos fiscais sobre a demanda, reduzindo o risco de alta sobre a inflação”.

Um ponto importante foi a publicação de projeções para inflação em um cenário alternativo, no qual a taxa Selic é mantida constante ao longo de todo o horizonte relevante. Para 2023, para o terceiro trimestre de 2024 e para o final do ano de 2024, as projeções neste cenário situam-se em 5,5%, 3,1% e 2,8%, respectivamente. Com isso, o Comitê sugere que a Selic deve ficar estável em 13,75% até 2024.

O Comitê continuou dando ênfase à elevação das expectativas de inflação, em especial as de prazos mais longos.

Na nossa visão, a comunicação do Banco Central e o cenário prospectivo para a inflação sugerem uma queda da taxa Selic apenas a partir de 2024 e em ritmo lento. Projetamos Selic em 13,75% ao final de 2023. Vale notar que há um debate sobre a elevação da meta de inflação. Mesmo que essa mudança se concretize, mantemos nosso cenário de juros estáveis ao longo deste ano. No entanto, reconhecemos que neste caso há a possibilidade de um corte de juros antecipado na segunda metade deste ano. Para 2024, projetamos Selic de 12% ao final do ano.

Projeções macroeconômicas do C6 Bank

 2019202020212022P2023P2024P
Atividade     
Crescimento Real do PIB1,2%-3,3%5,0%2,9%1,0%0,5%
PIB Nominal (R$ bi)7.3897.6108.8999.91510.70711.432
Fiscal     
Resultado Primário (% PIB)-0,8%-9,2%0,7%1,3%-1,4%-1,2%
Dívida Líquida (% PIB)54,7%61,4%55,8%57,1%60,9%65,2%
Dívida Bruta (% PIB)74,4%86,9%78,3%72,9%79,0%85,7%
Setor Externo     
R$/US$ (final de período)4,035,205,585,285,606,00
Balança Comercial (US$ bi)273236443245
Conta Corrente (US$ bi)-68-28-46-56-67-48
Conta Corrente (% PIB)-3,6%-1,9%-2,8%-2,9%-3,4%-2,4%
Inflação     
IPCA (Var. a/a)4,3%4,5%10,1%5,8%6,0%5,0%
Juros     
Selic (dez)4,50%2,00%9,25%13,75%13,75%12,00%
P=Projeção
Fontes: IBGE, BCB, Bloomberg, C6 Bank. 

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

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