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Resumo semanal: déficit primário maior em 2023

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

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Confira as principais notícias da semana (20/11-24/11), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

C6 Bank Felipe Salles. Foto: Germano Lüders

Internacional

Estados Unidos: Fed sem pressa para cortar juros

A ata da reunião de novembro do banco central americano (Federal Reserve – Fed) trouxe poucas novidades. Na ocasião, o Fed optou por uma pausa, a segunda consecutiva, mantendo os juros entre 5,25% e 5,5% ao ano – maior patamar em mais de 20 anos. O documento mostra que todos os membros do comitê de política monetária (FOMC, na sigla em inglês) consideraram apropriado manter uma política monetária restritiva por algum tempo para avaliar o impacto do que já foi implementado. Segundo a ata, todos os membros concordaram que devem proceder com cautela, baseados em dados e ponderando o cenário econômico nas futuras decisões. Em nossa visão, o Fed não deve implementar mais altas de juros este ano. Acreditamos que os juros devem permanecer elevados por um longo período. Os cortes devem começar de forma gradual e somente no fim de 2024.

A atividade segue em expansão moderada, segundo as prévias dos índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês) do mês de novembro. O PMI composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, se manteve estável em 50,7 pontos, com leve piora em manufaturas (49,4), mas expansão em serviços (50,8). Na composição do índice, houve moderação na demanda o que levou a uma redução do emprego. Preços de insumos diminuíram, mas preços finais de produtos e serviços permanecem elevados.

O setor imobiliário continua fraco. A venda de casas usadas teve retração de 4,1% em outubro em relação ao mês anterior, segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês). A venda de casas usadas está abaixo da média de 2019 (pré-pandemia) e segue com tendência de queda desde março deste ano. Apesar das vendas menores, o estoque de casas disponíveis segue baixo, mantendo pressão sobre os preços.

Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 209 mil na semana encerrada no dia 18 de novembro, 24 mil abaixo da semana anterior revisada.

Argentina: vitória folgada da oposição

Javier Milei venceu as eleições presidenciais na Argentina com ampla vantagem sobre o candidato da situação, Sérgio Massa – peronista e atual ministro da economia. Milei, que se autodenomina anarcocapitalista, falou em substituir a moeda nacional pelo dólar e em fechar o Banco Central, culpando a autoridade monetária pela escalada da inflação. O novo presidente também quer afastar a Argentina do Mercosul e dos Brics. Milei prometeu ainda reduzir o tamanho do Estado e retirar a Argentina da grave crise econômica atual.

O contexto é de uma economia em retração em meio a uma inflação de três dígitos desde janeiro. O PIB do país encolheu 4,9% no 2T23 comparado ao mesmo trimestre de 2022, em meio a severa seca que destruiu a produção de grãos. A inflação acumulou alta de 143% nos doze meses até outubro e deve continuar subindo. Mais de 40% da população está abaixo da linha da pobreza. A relação do país com o Fundo Monetário Internacional se deteriorou: nenhuma meta quantitativa acordada com o Fundo para 2023 foi cumprida.

Após o resultado da eleição, Milei falou em ter pressa para adotar medidas, no entanto, o partido do novo presidente precisará de alianças para aprovar reformas no Congresso. Em relação ao comércio com o Brasil, não acreditamos que haverá mudanças, em razão dele ser benéfico para ambos os lados. Milei assume o comando da Argentina em duas semanas (10 de dezembro).

Europa: Reino Unido anuncia estímulos à economia

A guerra entre Rússia e Ucrânia se estende pelo segundo ano. O conflito segue sem perspectiva de fim próximo.

Na área do euro, a confiança do consumidor continuou fraca em novembro, segundo dados da Comissão Europeia. O índice segue bem abaixo da média pré-pandemia.

A atividade continua em retração em novembro, de acordo com as prévias dos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). O índice composto, que considera o setor de manufaturas e serviços, subiu 0,6 ponto para 47,1 em novembro, ficando pouco melhor que o esperado, mas permanecendo abaixo da marca dos 50 pontos pelo sexto mês consecutivo. Demanda e produção continuaram fracas, principalmente em manufaturas. O emprego diminuiu em manufaturas, mas continuou subindo em serviços. A inflação segue pressionada por salários elevados em serviços. Entre as maiores economias do bloco, o PMI da Alemanha (47,1) surpreendeu com melhora em manufaturas e serviços, sinalizando uma contração mais moderada. Em nossa visão, a região deve passar por uma recessão no fim do ano.

A ata da reunião de outubro do Banco Central Europeu (BCE) mostrou que membros do comitê de política monetária viram com bons olhos a desaceleração da inflação, mas continuam percebendo pressões sobre os preços, principalmente vindas do setor de serviços, em razão de salários elevados. Foi enfatizado que devem continuar vigilantes e evitar complacência ou excesso de confiança quanto a trajetória da inflação. As decisões continuarão dependentes de dados. O comitê, naquele momento, optou por uma pausa no ciclo de alta de juros, a primeira depois de dez aumentos seguidos, para observar os efeitos da política monetária já implementada. Não foi discutido sobre cortes de juros, como mencionado pela presidente do Banco, Christine Lagarde, durante a coletiva de imprensa. Em nossa visão, os juros devem continuar elevados por um período prolongado.

No Reino Unido, a atividade surpreendeu positivamente em novembro. A prévia do PMI voltou a indicar crescimento estável (50,1 pontos), subindo 1,4 em relação ao mês anterior. Houve melhora em manufaturas (46,7), que segue em contração, e serviços (50,5). Por dentro dos indicadores, a demanda continuou moderada e a produção cresceu no setor de serviços. As contratações ficaram estáveis e a inflação segue persistente, pressionada por salários elevados.

O governo inglês anunciou um pacote com mais de 100 medidas para impulsionar o crescimento da economia. As principais mudanças estão relacionadas a corte de impostos sobre indivíduos e empresas. O impacto sobre a arrecadação será de 20 bilhões de libras por ano até 2028-2029 e vem com uma diminuição nos gastos públicos. O salário-mínimo será aumentado em 9,8% a partir de abril do próximo ano. Em 2024, deve haver eleições gerais na região.

O anúncio, no entanto, foi parcialmente ofuscado por análise de órgão fiscal independente, o Escritório para Responsabilidade Orçamentária (OBR, na sigla em inglês), que prevê uma carga tributária total maior como proporção do PIB, alcançando o mais alto nível do pós-guerra (37,7%) até 2028-29. O OBR estima que o pacote anunciado terá uma contribuição de 0,3% no nível do PIB até 2028. Novas projeções do órgão apontam para um crescimento menor da economia em 2024 e 2025, em relação ao previsto no início do ano, e uma inflação acima da meta do Banco da Inglaterra de 2% até meados de 2025.

China: juros inalterados

O Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) manteve as taxas de juros de curto prazo (LPR 1 ano) e de longo prazo (LPR 5 anos) inalteradas, conforme esperado. A LPR 1 ano permaneceu em 3,45% e a LPR 5 anos em 4,2%. O PBoC tem injetado diretamente liquidez no sistema financeiro para apoiar a economia e estabilizar crédito, já que tem pouca margem de manobra com as taxas de juros. Um diferencial muito grande com os juros americanos pode levar a pressão maior sobre a moeda doméstica e aumentar a saída de capital.

Notícias mencionam que o governo pode estar chegando a um limite em relação à crise do setor imobiliário. Foi ponderado que bancos teriam recebido permissão para conceder empréstimos de curto prazo às empresas qualificadas e que o governo estaria preparando uma lista com nomes de empresas do setor imobiliário endividadas, mas elegíveis para apoio financeiro.

Commodities: tensões na OPEP+ para definir produção em 2024

O conflito entre Israel e o Hamas está no segundo mês. Ambos os lados chegaram a um acordo de trégua para libertação de 50 reféns mantidos pelo Hamas em troca de prisioneiros palestinos em Israel e entrada de ajuda em Gaza. A pausa deve durar 4 dias. A crise geopolítica pode demorar algum tempo. Não houve impacto relevante nos mercados globais por enquanto, mas a atenção continua quanto a uma possível escalada do conflito na região, que é a maior exportadora de petróleo.

O preço do ouro ficou praticamente estável na semana, mas segue 9% acima do registrado antes do início do conflito entre Israel e Hamas (6/10).

O preço futuro do petróleo (Brent) terminou a semana pouco acima de 80 dólares por barril, se estabilizando nesse patamar nas duas últimas semanas. Desde o fim de setembro, os preços começaram uma trajetória de queda interrompida brevemente pelo início do conflito. Os menores preços refletem em parte uma produção maior que a esperada, principalmente dos Estados Unidos, e a ausência de impactos do conflito nas exportações do Golfo Pérsico. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (OPEP+) adiou a decisão da produção do próximo ano para 30 de novembro, em meio a tensões sobre quotas de países membros. A expectativa é que cortes da OPEP+ continuem para que os preços permaneçam no patamar atual.

O preço futuro do gás natural na Europa segue baixo com estoques elevados da commodity no continente europeu. Desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, o preço do gás natural já recuou e está bem abaixo da média de janeiro de 2022 (pré-guerra).

Os preços futuros de commodities agrícolas na Bolsa de Chicago ficaram praticamente estáveis na semana. Trigo, milho e soja tiveram pouca variação de 16 a 23 de novembro.

Brasil

Focus: inflação estável para os horizontes mais longos

As projeções para o IPCA apresentaram leve queda para 2023 (de 4,59% para 4,55%) e ficaram estáveis para 2024 (de 3,92% para 3,91%), para 2025 (3,5%) e para 2026 (3,5%). O número esperado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) teve uma redução para 2023 (de 2,89% para 2,85%) e não teve mudanças para 2024 (1,5%). A taxa Selic permaneceu em 11,75% para 2023, em 9,25% para 2024, em 8,75% para 2025 e em 8,5% para 2026. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Fiscal: governo piora projeção de déficit de 2023

O Ministério do Planejamento e Orçamento divulgou nesta semana o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do 5º Bimestre de 2023, com um aumento de R$ 35,9 bi no déficit primário. Deste valor, R$ 14,5 bi são referentes à uma redução na receita líquida e R$ 21,9 bi referentes a um aumento de despesas. Resultado primário estimado pelo Governo é de R$ 177 bi, o que representa 1,7% do PIB.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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