• Início
  • Economia
  • Resumo semanal: EUA e Zona do Euro mais próximos do fim do ciclo

Leitura de 13 min

Resumo semanal: EUA e Zona do Euro mais próximos do fim do ciclo

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

Atualizado em

Confira as principais notícias da semana (24/7-28/7), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: Fed deixa em aberto próximas decisões

O banco central americano (Federal Reserve – Fed) subiu os juros em 25 pontos-base. Em decisão unânime e conforme esperado, o intervalo de juros aumentou para 5,25% a 5,50% ao ano – patamar mais alto em mais de 20 anos. O comunicado permaneceu praticamente inalterado, citando que a atividade econômica segue resiliente, o mercado de trabalho robusto e a inflação elevada. O Fed também manteve sua percepção de que o aperto nas condições de crédito para famílias e empresas provavelmente irá pesar sobre a atividade econômica, emprego e inflação – embora a extensão destes efeitos permaneça incerta. Na coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Jerome Powell, enfatizou que as próximas decisões serão tomadas a cada reunião e serão dependentes dos dados, não sinalizando qualquer movimento futuro e diminuindo a ênfase dada na reunião de junho quando pelo menos duas altas nos juros eram esperadas pela maioria dos membros do comitê de política monetária. Mantemos nossa visão que a inflação deve demorar a ceder em razão do mercado de trabalho aquecido, por esse motivo, acreditamos que o Fed ainda deve implementar uma alta de juros até o fim do ano e mantê-los elevados por um longo período. Não prevemos cortes de juros antes de meados de 2024.

A inflação desacelerou, mas continua alta. O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) subiu 0,2% em junho em relação ao mês anterior, segundo dados do Departamento do Comércio americano. O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, também subiu 0,2%. No acumulado em doze meses, o PCE e o núcleo acumulam alta de 3% e 4,1%, respectivamente, bem acima da meta de 2% do banco central americano. A composição do índice mostra que o preço de bens já não é um problema, mas o preço de serviços continua pressionando o indicador, com salários em alta. Em nossa visão, a inflação deve continuar cedendo em razão dos juros elevados na economia, mas de forma lenta.

O PIB registrou forte aumento de 2,4% no 2T23 em relação ao trimestre anterior, anualizado e com ajuste sazonal, de acordo com a primeira estimativa do Departamento do Comércio americano. O resultado veio acima do esperado. Na composição do indicador, o consumo das famílias teve a maior contribuição para o crescimento do PIB no período, refletindo o mercado de trabalho aquecido. Os investimentos também tiveram contribuição expressiva. Apesar do crescimento no primeiro semestre, nossa expectativa é de uma desaceleração da economia no segundo semestre, em meio a política monetária mais restritiva do Fed.

A atividade segue moderada, segundo as prévias dos índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês) do mês de julho. O PMI composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, diminuiu 1,2 ponto para 52. A queda no indicador ocorreu principalmente por conta da desaceleração do setor de serviços, que diminuiu 2 pontos para 52,4. O índice de manufaturas, por outro lado, aumentou 2,7 pontos para 49, sinalizando ainda contração. Na composição do índice, a produção segue em retração em manufaturas, mas sólida em serviços. A demanda doméstica tem desacelerado, mas segue em expansão. A geração de empregos aumentou tanto em manufatura quanto em serviços e os preços de produtos seguem subindo.

A renda e o consumo das famílias seguem altos. Houve aumento da renda de 0,3% em junho frente ao mês anterior. O consumo aumentou 0,5% no mês, com maiores gastos com serviços (0,4%) e bens (0,8%), segundo dados do Departamento do Comércio.

Os pedidos de bens duráveis e de bens de capital seguem fortes e bem acima do nível pré-pandemia. Os pedidos de bens duráveis subiram no mês de junho em relação ao mês anterior (4,7%), segundo relatório do Departamento do Comércio dos Estados Unidos. Os pedidos de bens de capital (excluindo aeronaves e equipamentos de defesa) também aumentaram no mês (0,2%). Ambos indicam que investimentos seguem sólidos.

O setor imobiliário segue uma recuperação moderada. Os preços de casas subiram 0,7% no mês de maio em relação ao mês anterior, segundo dados da Agência Federal de Financiamento da Habitação (FHFA, na sigla em inglês). Em 12 meses, o indicador acumula alta de 2,8%. Os preços têm subido, apoiados em estoques baixos.  As vendas de novas moradias tiveram queda de 2,5% em junho, segundo o Departamento de Comércio. A queda ocorreu depois de um mês de forte aumento e pode refletir as elevadas taxas de hipoteca. As vendas pendentes de casas ficaram praticamente estáveis em junho frente ao mês anterior, segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês), sinalizando estabilidade nas vendas de casas usadas nos próximos meses.

Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego tiveram leve queda e continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 221 mil, com ajuste sazonal na semana encerrada em 22 de julho. Apesar de baixos, os pedidos estão acima do patamar observado desde o início de 2022, indicando um lento desaquecimento no mercado de trabalho.

Europa: BCE reforça dependência de dados

O Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas de juros em mais 25 pontos-base, conforme esperado. Este foi o nono aumento consecutivo. A taxa de depósito foi para 3,75% ao ano – alcançando o pico dos anos 2000. Em comunicado, o Banco justificou o aumento em razão de uma inflação persistente que deve demorar a ceder e reforçou que o foco continua sendo trazer a inflação para a meta de 2% no médio prazo. A maior mudança veio na coletiva de imprensa. A presidente do Banco, Christine Lagarde, enfatizou que as próximas decisões serão dependentes dos dados e descartou a mensagem anterior de que ainda teria um longo caminho a percorrer em termos de política monetária, acrescentando que o resultado da próxima reunião em setembro pode ser de alta ou pausa, mas mesmo uma pausa pode não ser definitiva. Lagarde disse que esta visão é unânime entre os membros do comitê de política monetária. A presidente reafirmou que um corte dos juros, no entanto, não está previsto. Em nossa visão, os juros devem permanecer elevados por um período prolongado.

A guerra entre Rússia e Ucrânia se estende pelo segundo ano. Bombardeios russos continuam ocorrendo em portos e terminais ucranianos de armazenamento de grãos no Mar Negro, região de Odessa, depois que Moscou não renovou o acordo de exportação com a Ucrânia em meados de julho. Uma contraofensiva ucraniana está ocorrendo no sul, na região da Crimeia.

A atividade segue perdendo força em julho, de acordo com as prévias dos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). O índice composto, que inclui o setor de manufaturas e serviços, diminuiu para 48,9 pontos, sinalizando contração pelo segundo mês seguido. Houve queda tanto no indicador de manufaturas, que segue em contração, quanto no de serviços, que continua em desaceleração. Na composição dos indicadores, a produção continuou diminuindo, a demanda caiu mais que a produção, sugerindo menor produção à frente, o emprego teve o menor aumento desde fevereiro de 2021 e a pressão inflacionária diminuiu em ambos os setores. Entre as maiores economias do bloco, o PMI da Alemanha teve forte contração em manufaturas pelo segundo mês seguido, mas permaneceu resiliente em serviços, enquanto o PMI da França contraiu em ambos os setores.

A confiança na economia continuou diminuindo. O índice de sentimento econômico, calculado pela Comissão Europeia, caiu 0,8 ponto na prévia de julho para 94,5. A queda na confiança ocorreu no setor de manufaturas e serviços, enquanto a confiança do consumidor segue abaixo do nível pré-pandemia, mas em recuperação.

No Reino Unido, a atividade também desacelerou em julho. A prévia do PMI da região diminuiu 2,1 pontos para 50,7, com serviços em expansão mais moderada e manufaturas contraindo mais que no período anterior. O índice de manufaturas recuou para 45 e de serviços para 51,5. Por dentro dos indicadores, o emprego continua crescendo, porém mais moderadamente. A demanda para indústria permanece fraca e a produção diminuiu pelo quinto mês consecutivo.

China: Politburo sinaliza suporte à economia

A semana começou com reunião do Politburo, órgão de cúpula do partido comunista responsável por decisões políticas e liderado pelo presidente Xi Jinping. O foco do evento foi a economia chinesa. Em meio a desaceleração atual, o evento ganhou maior relevância pelas possíveis indicações de estímulos. Segundo o comunicado divulgado após a reunião, líderes reconheceram uma demanda doméstica insuficiente e dificuldades para o crescimento econômico, citando acontecimentos no setor imobiliário e a complexidade do ambiente externo. Prometeram fortalecer políticas de suporte à economia em momentos de desaceleração, reduzir o risco associado à elevada dívida dos governos locais e fomentar o desenvolvimento econômico de qualidade.  Destacaram a necessidade de apoiar o consumo, em particular de automóveis, eletrônicos, eletrodoméstico, entretenimento etc., com algumas medidas já anunciadas na semana passada. Prometeram ajustar medidas relacionadas ao setor imobiliário de acordo com o mercado onde se situam os imóveis. A expectativa é que medidas mais específicas sejam anunciadas para frente.

O lucro da indústria contraiu 8,3% em julho comparado ao mesmo mês do ano anterior, de acordo com o Departamento Nacional de Estatísticas da China (NBS, na sigla em inglês). A contração no lucro foi maior entre as estatais chinesas, mas também diminuiu em empresas privadas e estrangeiras. A redução do lucro ocorreu por queda na receita e aumento nos custos.

Commodities: preços de grãos mais estáveis

Os preços das commodities energéticas seguem baixos. Entre os dias 20 e 27 de julho, o preço futuro do petróleo (Brent) subiu quase 5%, girando em torno de 84 dólares por barril. Na Europa, o preço futuro do gás natural ficou praticamente estável em razão dos estoques elevados que diminuem preocupações com abastecimento durante o inverno. O preço da commodity continua bem abaixo (menos da metade) da média de janeiro de 2022 (pré-guerra).

As turbulências diminuíram no mercado de grãos. Com o fim do acordo de exportação entre Rússia e Ucrânia em meados de julho, o preço do trigo teve alta volatilidade no início da semana, mas fechou o período (entre os dias 13 e 20 de julho) com queda de 2% na bolsa de Chicago. A Ucrânia é um dos maiores produtores e exportadores da commodity, mas a elevada oferta global de trigo tem diminuído pressões no mercado. Os preços do milho e da soja ficaram praticamente estáveis no mesmo período, com o clima mais favorável nos Estados Unidos.

Brasil

Focus: projeções de inflação apresentam leve queda

As projeções para o IPCA contraíram para 2023 (de 4,95% para 4,9%), para 2024 (de 3,92% para 3,9%) e para 2025 (de 3,55% para 3,5%), porém ficaram estáveis para 2026 (3,5%). Os números esperados para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não tiveram alterações para 2023 (2,24%) e nem para 2024 (1,3%). A taxa Selic está em 12% para 2023, em 9,5% para 2024, em 9% para 2025 e em 8,63% para 2026. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Atividade: taxa de desemprego em nível historicamente baixo

A taxa de desemprego da PNAD Contínua no trimestre terminado em junho veio abaixo da nossa projeção e do esperado pelo mercado, atingindo 8%. Na série com nosso ajuste sazonal, o indicador está em 7,9% contra 8% no trimestre encerrado em maio. A composição do dado mostrou aumento tanto da PEA (população economicamente ativa) quanto da ocupação. O crescimento da PEA indica uma leve melhora na dinâmica do mercado de trabalho, na medida em que aumentou o número de pessoas que buscam emprego. A renda real habitual do trabalhador acumulou alta de 6,2% em relação ao mesmo período de 2022. O crescimento da economia até agora foi suficiente para levar a taxa de desemprego para níveis abaixo do neutro, o que reforça o cenário de queda lenta da inflação. Para 2023, a taxa deve encerrar o ano abaixo de 8%. Nossa expectativa é que a taxa de desemprego (ajustada sazonalmente) registre apenas leve alta em 2024.

Inflação: IPCA-15 surpreende positivamente

O IPCA-15 de julho registrou deflação de 0,07%, abaixo da nossa projeção (-0,01%) e do consenso de mercado (-0,03%). O índice acumula alta de 3,2% na variação em 12 meses, número inferior à alta de 3,4% registrada no mês anterior. A média dos núcleos da inflação calculada pelo Banco Central, uma medida mais limpa da tendência dos preços, veio abaixo do esperado e mostra desaceleração, mas segue em patamar elevado. O índice está em 5,5% em 12 meses. A inflação de serviços, na mesma métrica, está em 5,6% e a de bens industriais em 3,6%. A inflação de serviços deve demorar mais a ceder em função do mercado de trabalho apertado. Nas nossas projeções, o IPCA acumulado em 12 meses deve atingir seu patamar mais baixo no meio do ano, mas deve encerrar 2023 em 5,8%, com viés de baixa. Para 2024, nossa previsão é que a inflação fique em 5,5%.

A inflação medida pelo IGP-M caiu 0,72% em julho, em linha com a mediana das projeções do mercado. Em 12 meses, o índice está em -7,7%, o menor nível da série histórica. A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com queda de 1,9% frente à contração de 4,4% no mês anterior. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – registrou queda de 0,7%. Em 12 meses, o IPA agrícola está em -16,3% e o núcleo do IPA industrial em -3,1%.

Setor externo: saldo negativo na conta corrente em junho

A conta corrente registrou déficit de US$ 0,8 bilhão no mês de junho. Considerando o dado com nosso ajuste sazonal, houve déficit de US$ 4,7 bilhões. O saldo foi positivo na balança comercial, porém negativo em serviços e rendas. Em 12 meses, o saldo de transações correntes acumula déficit de 2,5% do PIB (US$ -50 bi). O Investimento Estrangeiro Direto (IED) veio em US$ 1,8 bilhões. Para 2023 e 2024, projetamos déficit de US$ 40 bi e US$ 35 bi para as transações correntes, respectivamente.

Fiscal: resultado negativo do setor público consolidado

O setor público consolidado apresentou um déficit de R$ 48,9 bi em junho. Os governos regionais contribuíram para o resultado negativo com déficit de R$ 0,9 bi. No acumulado em 12 meses, o resultado consolidado está negativo em R$ 24 bi (0,2% do PIB). A dívida líquida encerrou o mês em 59,1% e a dívida bruta em 73,6%. Projetamos déficit do setor público consolidado de 1% do PIB para 2023, devido ao aumento de gastos e queda na arrecadação em função da desaceleração da atividade.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

Os números contidos nos gráficos de desempenho referem-se ao passado; o desempenho passado não é garantia de resultados futuros.

Cada analista de Macro Research é o principal responsável pelo conteúdo deste relatório e atesta que:

(i) todas as opiniões expressas refletem com precisão suas opiniões pessoais e eventual recomendação foi elaborada de forma independente, inclusive em relação ao Banco C6 S.A. e / ou suas afiliadas;

(ii) nenhuma parte de sua remuneração foi, está ou estará, direta ou indiretamente, relacionada a quaisquer recomendações específicas realizadas pelo analista.

Parte da remuneração do analista vem dos lucros do Banco C6 S.A. e / ou de suas afiliadas e, consequentemente, as receitas decorrem de transações mantidas pelo Banco C6 S.A. e / ou suas coligadas.

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A., uma instituição regulada por autoridades brasileiras.

O Banco C6 S.A. é responsável pela distribuição deste relatório no Brasil.