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Resumo semanal: Fed sinaliza provável fim do ciclo de altas de juros

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

Atualizado em

Confira as principais notícias da semana (30/10-3/11), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: Fed mantém juros estáveis na reunião de novembro

O mercado de trabalho perde força na margem. O Departamento de Trabalho publicou dados referentes ao mês de outubro. De acordo com o Establishment Survey, houve criação de 150 mil empregos no período, abaixo da expectativa do mercado, e uma revisão dos dados diminuiu a criação de vagas de meses anteriores em cerca de 100 mil vagas. A criação de empregos continua robusta, mas tem diminuído gradualmente. O ganho médio por hora trabalhada subiu 0,2%, desacelerando em relação ao mês anterior, que foi revisado de 0,2% para 0,3%. O Household Survey mostrou que a taxa de desemprego aumentou para 3,9%, apesar da redução na taxa de participação para 62,7%. Outro relatório do Departamento de Trabalho, o Jolts, mostrou aumento do número de vagas de emprego em aberto no mês de setembro, depois de revisão para baixo no mês anterior. A proporção de vagas disponíveis por desempregado se mantém elevada, em 1,5, sinalizando mercado de trabalho ainda aquecido. Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 217 mil na semana encerrada em 28 de outubro, 5 mil acima da semana anterior revisada.

A atividade na indústria volta a dar sinais de fraqueza. O índice de gerentes de compras do setor de manufaturas (PMI, na sigla em inglês) do Instituto ISM diminuiu 2,3 pontos em outubro frente ao mês anterior para 46,7, se mantendo em contração. A queda do índice no mês reverteu uma tendência de recuperação desde a mínima recente em junho deste ano. Na composição do índice, a demanda, produção e emprego tiveram queda na margem. Preços pagos voltaram a aumentar, mas seguem abaixo de 50.

Preços de imóveis voltam a subir. Em razão dos estoques baixos, os preços de casas subiram 0,6% em agosto em relação ao mês anterior, segundo dados da Agência Federal de Financiamento da Habitação (FHFA, na sigla em inglês). Em 12 meses, o indicador acumula alta de 5,6%.

O setor de serviços dá sinais mistos. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) do Instituto ISM registrou queda de 1,8 ponto para 51,8 no mês, mas continua sinalizando expansão no setor. Os subíndices de atividade, demanda externa e emprego caíram, enquanto demanda interna aumentou e preços pagos se mantém elevados.

O banco central americano (Federal Reserve – Fed) manteve os juros em 5,25% a 5,5% ao ano – maior patamar em mais de 20 anos. A decisão veio conforme esperado. Em comunicado, a instituição reconheceu um crescimento sólido da atividade no terceiro trimestre, com o mercado de trabalho aquecido e a inflação ainda elevada. O texto acrescentou que as condições financeiras mais apertadas devem pesar sobre a atividade, emprego e inflação. Na coletiva de imprensa, o presidente do Fed, Jerome Powell, reforçou que a política monetária deve permanecer restritiva por um longo período até que haja confiança de que a inflação irá convergir para a meta de 2% ao ano. Adicionalmente, Powell disse que o comitê não tem certeza se o patamar atual de taxa de juros seria suficiente, deixando a porta aberta para novos ajustes, caso necessário. Powell reforçou que cortes nos juros não estão em discussão.

Na nossa visão, os dados de mercado de trabalho abrem espaço para o fim do ciclo de alta de juros pelo Fed. Os cortes de juros, no entanto, só devem começar de forma gradual no fim de 2024. Vemos algum risco na estratégia do Fed de trazer a inflação para a meta de forma gradual, pois a persistência da inflação em nível elevado por muito tempo pode levar a uma desancoragem das expectativas, o que acabaria exigindo um esforço maior da autoridade monetária para conter a escalada dos preços.

Europa: BoE reafirma juros elevados por longo período

A guerra entre Rússia e Ucrânia se estende pelo segundo ano. O conflito segue sem perspectiva de fim próximo.

O PIB da área do euro encolheu 0,1% no 3T23 frente ao trimestre anterior, segundo a prévia divulgada pelo Eurostat. A contração ocorre depois de um crescimento fraco no primeiro semestre. Detalhes da composição serão divulgados posterirormente. Por país, houve contração na Alemanha (-0,1%), estagnação na Itália (0%) e crescimento fraco na França (0,1%) e Espanha (0,3%). A atividade econômica na região tem sofrido com o alto preço de energia e ocorre em meio a política monetária apertada do Banco Central Europeu.

A inflação ao consumidor continuou desacelerando, mas o núcleo ainda está elevado. O índice (CPI, na sigla em inglês) subiu 2,9% nos últimos doze meses até outubro, segundo a prévia do Eurostat, com queda forte no preço de energia e desaceleração de alimentos. O núcleo da inflação, que exclui alimentos, energia, álcool e tabaco, alcançou 4,2% no período, com redução maior na inflação de bens, enquanto serviços cederam levemente. Entre as maiores economias do bloco, a inflação desacelerou na Alemanha, França e Itália, mas acelerou na Espanha. 

A confiança na economia segue baixa. O índice de sentimento econômico, calculado pela Comissão Europeia, diminuiu 0,1 ponto na prévia de outubro para 93,3. A confiança segue fraca entre consumidores e nos setores de manufaturas e serviços.

O mercado de trabalho continua robusto. A taxa de desemprego teve leve aumento para 6,5%, permanecendo próximo do mínimo histórico, em setembro, o que deve manter pressão sobre salários. O índice divulgado pelo Eurostat mostra heterogeneidade entre as economias do bloco. O desemprego permanece baixo na Alemanha (3%), mas alto na Espanha (12%).

O Banco da Inglaterra (BoE, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros em 5,25% ao ano – maior nível em 15 anos. A pausa foi a segunda consecutiva depois de 14 aumentos. O BoE prevê um crescimento mais fraco da economia no próximo ano (com chances de recessão), alertou para uma possível volta da inflação de energia em razão da guerra entre Israel e Hamas e adiou sua expectativa de inflação na meta de 2% para o fim de 2025. Na ata da reunião, o Banco manteve mensagens anteriores de que mais aperto na política monetária pode ser necessário se existirem evidências de continuidade na pressão inflacionária e de que a política restritiva deve continuar por tempo suficientemente longo para que a inflação retorne à meta no médio prazo, em linha com o mandato do Banco. O presidente da instituição, Andrew Bailey, ressaltou a importância de manter juros altos e que ainda é muito cedo para pensar em cortes. Em nossa visão, os juros devem permanecer elevados por um período prolongado.

Japão: flexibilização monetária a passos lentos

O Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) manteve a taxa de juros de referência em -0,1% e a meta dos rendimentos de títulos públicos de longo prazo em 0%. No entanto, o Banco flexibilizou o limite superior de flutuação dos rendimentos, dizendo que usará 1% como referência e não mais como um limite superior. A banda de flutuação também foi removida. O presidente do Banco, Kazuo Ueda, afirmou que a política monetária deve continuar expansionista até que haja sinais de crescimento sustentáveis dos salários e de preços. A projeção do BoJ ainda é de inflação diminuindo e voltando para abaixo da meta (2%) no ano fiscal de 2025.

Em setembro, o núcleo da inflação, que exclui alimentos frescos e energia, cresceu 4,2% no acumulado em 12 meses.

China: atividade perde fôlego

A atividade voltou a perder força em outubro, segundo os índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês), calculados pelo Escritório Nacional de Estatísticas chinês (NBS, na sigla em inglês). O PMI composto, que considera o setor de manufaturas, construção e serviços, diminuiu para 50,7 pontos, menor nível do ano, sinalizando fraca expansão no início do 4T. Houve piora no setor de serviços e de manufaturas, com o índice voltando a sinalizar contração.

Medidas de apoio do governo à economia continuam. Na semana passada, houve permissão para o governo federal aumentar o déficit público, o que deve impulsionar investimentos em infraestrutura e aliviar a situação financeira de governos locais. A expectativa é que a China alcance a meta de 5% de crescimento este ano.

Commodities: conflito no Oriente Médio mantém preço do ouro em alta

O conflito entre Israel e o Hamas se estende pela quarta semana. Israel entrou no território de Gaza por terra – depois de algumas incursões de curta duração – e continua lançando mísseis na região. O primeiro-ministro de Israel nega que um cessar-fogo esteja em discussão. A crise geopolítica pode demorar algum tempo. Não houve impacto relevante nos mercados globais por enquanto, mas a volatilidade dos preços de algumas commodities continua, dadas as preocupações quanto a uma escalada do conflito na região, que é a maior exportadora de petróleo.

O preço do ouro alcançou maior patamar em 12 semanas e desde o início do conflito (6/10) subiu 9%, refletindo maior busca por ativos seguros em meio à crise.

Os preços das commodities energéticas continuaram voláteis. O preço futuro do petróleo (Brent) chegou a passar dos 90 dólares por barril, mas recuou e fechou a 87 dólares. Desde o início do conflito, o preço do petróleo acumula alta de 3%. O preço futuro do gás natural na Europa recuou 4,5% no mesmo período, com previsão de temperatura mais amena no continente europeu e estoques elevados. Apesar da pressão sobre o gás natural em razão da guerra entre Rússia e Ucrânia, o preço já recuou e está abaixo da média de janeiro de 2022 (pré-guerra).

Os preços futuros das commodities agrícolas na Bolsa de Chicago acompanharam expectativas de colheitas. Enquanto os preços futuros do trigo e do milho recuaram 2,5% e 2%, respectivamente, o preço da soja subiu 2%.

Brasil

Focus: projeções de Selic registram alta para 2024 e 2025

As projeções para o IPCA ficaram estáveis para 2023 (de 4,65% para 4,63%), para 2024 (de 3,87% para 3,90%), para 2025 (3,5%) e para 2026 (3,5%). O número esperado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não teve alterações para 2023 (de 2,9% para 2,89%) e 2024 (1,5%). A taxa Selic ficou estável em 11,75% para 2023, passou de 9% para 9,25% para 2024, de 8,5% para 8,75% para 2025 e ficou estável em 8,5% para 2026. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Atividade: produção industrial de setembro corrobora cenário de estagnação

A produção industrial de setembro registrou leve alta de 0,1% frente ao mês anterior. O resultado veio em linha com as projeções do mercado. A indústria de transformação e a indústria extrativa registraram variações de -0,2% e 5,6%, respectivamente. Bens de capital – categoria ligada a investimentos em máquinas e equipamentos – registraram queda de 2,2% e acumulam contração de 12,9% em relação a setembro de 2022. À frente, nossa expectativa é que a indústria feche o ano próxima da estabilidade. A política monetária apertada e a desaceleração global contribuem para esta tendência. Projetamos crescimento do PIB de 3% neste ano, com leve viés de queda, e de 1,5% para 2024.

Atividade: mercado de trabalho aquecido

A taxa de desemprego da PNAD Contínua no trimestre terminado em setembro veio em linha com a nossa projeção e a do mercado. Na série com nosso ajuste sazonal, o indicador também está em 7,8%, estável frente ao trimestre encerrado em agosto. A composição do dado mostrou tanto a PEA (população economicamente ativa) quanto a ocupação praticamente estáveis. A renda real habitual do trabalhador registrou expansão de 1% no mês e acumulou alta de 4,2% em relação ao mesmo período de 2022. O crescimento da economia até agora foi suficiente para levar a taxa de desemprego para níveis abaixo do neutro, o que reforça o cenário de queda lenta da inflação. Para 2023, a taxa de desemprego deve encerrar o ano um pouco abaixo de 8%. Nossa expectativa é que a taxa de desemprego (ajustada sazonalmente) registre apenas leve alta em 2024.

Inflação: IGP-M abaixo do consenso

A inflação medida pelo IGP-M registrou alta de 0,5% em outubro, abaixo da mediana das projeções do mercado (0,63%). Em 12 meses, o índice está em -4,6%, acima do mês anterior (-6%). A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com retração de 0,3% (frente à contração de 2,5% no mês anterior). O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – registrou leve queda de 0,1%. Em 12 meses, o IPA agrícola está em -17% e o núcleo do IPA industrial em -2,9%.

Selic: Copom mantém o rumo

O Banco Central do Brasil (BCB) reduziu a taxa Selic de 12,75% para 12,25%. A projeção de inflação do BCB no cenário de referência passou de 5% para 4,7% para 2023, de 3,5% para 3,6% para 2024 e de 3,1% para 3,2% para 2025. O cenário supõe trajetória de juros que diminui de 13,25% para 11,75% até o final de 2023, para 9,25% ao final de 2024 e para 8,75% ao final de 2025. Ou seja, as projeções de inflação do Banco Central registraram pequena alta. A projeção situa-se acima da meta em 2024 e ligeiramente acima da meta em 2025.

O comunicado trouxe alguns ajustes que deixaram a linguagem um pouco mais dura. O texto manteve o balanço de riscos inalterado, mas adicionou que “o Comitê avalia que a conjuntura, em particular devido ao cenário internacional, é mais incerta do que o usual e exige cautela na condução da política monetária”. Ele afirmou também que “a inflação cheia ao consumidor manteve trajetória de desinflação, mas segue acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta de inflação, enquanto as medidas mais recentes de inflação subjacente ainda se situam acima da meta para a inflação”, indicando que ainda não está satisfeito com o grau de desinflação ocorrido.

Apesar dessas mudanças no sentido de um cenário mais incerto, o comunicado manteve o plano de voo ao prosseguir sinalizando que “em se confirmando o cenário esperado, os membros do Comitê, unanimemente, anteveem redução de mesma magnitude nas próximas reuniões e avaliam que esse é o ritmo apropriado para manter a política monetária contracionista necessária para o processo desinflacionário”. Ou seja, ao manter essa frase, o texto sinaliza mais duas quedas de 50 pontos-base nas reuniões de dezembro e janeiro. Esperamos cortes de 50 pontos-base para as próximas duas reuniões. Projetamos Selic em 11,75% ao final de 2023 e 9,25% ao final de 2024. Aguardamos a ata da reunião, que será divulgada na próxima terça-feira (7), para termos mais detalhes sobre os rumos futuros da política monetária.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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