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Resumo semanal: inflação alta nos EUA pressiona o Fed

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

Atualizado em

C6 Bank Felipe Salles. Foto: Germano Lüders

Confira as principais notícias da semana (12/9-16/9), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: inflação volta a acelerar

A inflação voltou a subir, frustrando expectativas de queda. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,1% em agosto frente ao mês anterior, de acordo com o Departamento do Trabalho. Apesar da queda no preço de energia (-5%), o núcleo do CPI (exclui alimentos e energia) permaneceu forte (0,6%), em razão de uma aceleração no preço de serviços. A inflação desse setor vem sendo causada por preços de aluguéis elevados e salários acima da produtividade, consequência de um mercado de trabalho aquecido, que contribuem para aumentar custos e pressionar preços. Em 12 meses, o CPI acumula alta de 8,3% e o núcleo de 6,3%. Em nossa visão, a inflação deve desacelerar lentamente, mas não deve alcançar a meta em um horizonte próximo. O índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) contraiu 0,1% em agosto frente ao mês anterior, com queda no preço de bens em particular energia. Serviços continuaram subindo no período. Nos últimos 12 meses, o PPI acumula alta de 8,7%.

O índice de otimismo das pequenas empresas, medido pela Federação Nacional de Empresas Independentes (NFIB, na sigla em inglês), teve aumento de 1,9 ponto para 91,8 em agosto, mas permanece bem abaixo do nível pré-pandemia. Um número menor de empresas reportou pressões inflacionárias, porém continua sinalizando dificuldades na contratação de trabalhadores.

Os indicadores regionais de atividade industrial do Federal Reserve (Fed) vieram com sinais mistos em setembro. O índice do Fed da Filadélfia diminuiu 16,1 pontos, com piora na produção e demanda. O índice do Fed de Nova York subiu 29,8 pontos, depois de forte queda no mês anterior, com melhora significativa na produção e na demanda. Em ambos os índices os preços pagos seguem uma tendência de queda, mas continuam elevados e o tempo de entrega de mercadorias permaneceu razoável para o histórico da série.

As vendas no varejo subiram 0,3% em agosto em relação ao mês anterior, segundo o Departamento de Comércio. Houve aumento na venda de alimentos, veículos e peças. A produção industrial recuou 0,2% no mesmo período, segundo o Banco Central Americano, mantendo-se acima do nível pré-pandemia. Houve crescimento melhor do que o esperado em manufaturas.

O mercado de trabalho segue aquecido. Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego seguem em níveis baixos, em 213 mil na semana encerrada em 10 de setembro, 5 mil abaixo da semana anterior.

A confiança do consumidor subiu 1,3 ponto para 59,5 em setembro conforme relatório da Universidade de Michigan. Apesar da melhora, o índice permanece bem abaixo da média de 2018-2019 depois de alcançar mínima histórica em julho. A expectativa de inflação de 5 a 10 anos, divulgada pela mesma pesquisa, diminuiu de 2,9% para 2,8% ao ano.

Europa: plano para o mercado de energia como saída para a crise

A Comissão Europeia (CE) anunciou um plano para o mercado de energia como tentativa de conter uma crise provocada pela escassez de gás natural no continente. O plano determina uma redução de 5% no consumo de energia em horário de pico e propõe extrair € 140 bi do lucro excedente de empresas de energia para redistribuir às famílias e empresas. O plano define um teto para a receita de produtores que possuem menor custo de produção (eólica, solar e nuclear) e recolhe parte dos lucros extras (acima da média dos últimos 3 anos) de produtores que usam combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão). O plano ainda precisa ser aprovado pelos vários países do bloco e a intenção é unificar um mínimo de medidas a serem adotadas. Alguns países já anunciaram planos de maior suporte aos consumidores.

O conflito entre Rússia e Ucrânia está no sétimo mês. Contra-ofensivas ucranianas ganharam força esta semana principalmente na região norte, próxima a Kharkiv. O país já conseguiu recuperar 6.000 km2 desde o início do mês e segue recebendo ajuda militar, financeira e humanitária do Ocidente. A Rússia continua com ações militares principalmente no leste e sul do país, lançando mísseis sobre obras de infraestrutura. O conflito se estende por mais tempo do que era previsto.

Os preços das commodities continuam com alta volatilidade. Entre os dias 9 e 15 de setembro, o petróleo recuou mais, em meio a preocupações quanto à desaceleração global. A Agência Internacional de Energia revisou para baixo sua projeção de crescimento do consumo de petróleo para o ano em 110 mil barris por dia, levando o total para 99,7 milhões de barris por dia em 2022.  O gás natural voltou a subir depois de uma queda no início da semana provocada por expectativas em relação ao anúncio da CE sobre o plano de intervenção no mercado de energia. Os grãos (milho e trigo) tiveram leve queda na semana com exportações da Ucrânia se mantendo firmes a partir de seus portos no Mar Negro, desde que um acordo foi firmado entre o país e a Rússia no fim de julho.

A produção industrial (excluindo construção) contraiu 2,3% em julho frente ao mês anterior, com forte queda na Irlanda, que costuma ter dados mais voláteis. Excluindo a Irlanda, a produção industrial diminuiu 0,6%. Dentre as principais economias do bloco houve contração na produção da Alemanha (-0,7%), França (-1,5%) e Espanha (-1%). Restrições na cadeia produtiva melhoraram, mas continuam pesando principalmente sobre o setor automobilístico, que permanece bem abaixo do nível pré-pandemia.

No Reino Unido, a economia cresceu 0,2% em julho frente ao mês anterior, com ajuste sazonal, depois de encolhimento de 0,6% em junho, de acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas (ONS, na sigla em inglês). Houve expansão em serviços (0,4%), mas contração na produção industrial (-0,3%), que permanece abaixo da média de 2019.

O mercado de trabalho permaneceu apertado, segundo o Departamento de Estatísticas Nacional do Reino Unido: a taxa de desemprego diminuiu para 3,6% nos três meses até julho, menor nível desde 1974. Houve diminuição da participação na força de trabalho (63%), que continua abaixo do nível pré-pandemia. Os salários, excluindo bônus, aceleraram para 5,2% no mesmo período e o número de desempregados por vagas em aberto continua no mínimo da série. As vendas no varejo contraíram 1,6% em agosto frente ao mês anterior, mostrando sinais de fraqueza. A queda ocorreu em várias categorias e levou o índice de volta ao nível pré-pandemia.

A inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) no Reino Unido desacelerou em agosto, com queda no preço do petróleo. O índice subiu 0,5% frente ao mês anterior, com retração no preço de energia (-0,4%) e aumento no preço de alimentos (1,5%).  O núcleo (exclui alimentos e energia) seguiu forte. Em 12 meses, a inflação acumula alta de 9,9% e o núcleo de 6,3%. A inflação ao produtor (PPI, na sigla em inglês) contraiu, sugerindo que preços de bens podem continuar desacelerando.

China: atividade melhora com menor impacto de Covid

O quadro de Covid-19 teve melhora esta semana, com número de casos diários terminando a semana abaixo de 1.000, valor inferior à média da semana anterior. A cidade de Chengdu, de 21 milhões de habitantes, terminou o confinamento de 2 semanas depois de uma redução significativa no número de casos. O número de áreas de risco permanece elevado, o que significa que restrições à mobilidade continuam em várias áreas. A política de Covid zero adotada pelo país mantém um controle rigoroso sobre circulação de pessoas quando casos aumentam, o que traz dificuldades para economia. Restrições seguem rígidas este mês que antecede reunião quinquenal do partido comunista em meados de outubro.

A atividade acelerou e veio melhor que o esperado no mês de agosto, segundo dados do Escritório Nacional de Estatística (NBS, na sigla em inglês), em meio a políticas de suporte à atividade e menores restrições relacionadas à Covid-19. A produção industrial expandiu 4,2% frente ao mesmo mês do ano anterior, impulsionada por melhora contínua na produção de veículos; as vendas no varejo cresceram fortemente, 5,4%. Mesmo excluindo a venda de veículos, o resultado foi positivo. A taxa de desemprego urbano diminuiu de 5,4% para 5,3%, mas permanece elevada entre jovens (18,7% na faixa de 16 a 24 anos).

O investimento em ativos fixos (FAI, na sigla em inglês) acelerou para 5,8% nos oito primeiros meses do ano frente ao mesmo período do ano anterior. Os investimentos em infraestrutura ganharam força e investimentos em manufatura melhoraram. No entanto, investimentos imobiliários continuam contraindo em razão de dificuldades enfrentadas pelo setor. As vendas de imóveis residenciais tiveram queda de 30,3% no período. O preço médio de casas novas em 70 cidades chinesas continuou cedendo, diminuindo 0,3% em agosto frente ao mês anterior e completando 1 ano de quedas consecutivas do índice. Isso ocorre apesar de medidas de suporte, como menores taxas de hipotecas anunciadas em maio, o que demonstra menor confiança de potenciais proprietários com empresas do setor.

O Banco Central chinês (PBOC) manteve inalterada a taxa de juros de referência para crédito de médio prazo de 1 ano em 2,75% ao ano, em meio a uma pressão maior sobre a moeda chinesa que tem se desvalorizado com a desaceleração da economia e expectativas de aumento de juros nos Estados Unidos na próxima semana.

Brasil

Focus: expectativas de inflação registram alta para 2024

A projeção para o IPCA apresentou queda para 2022 (de 6,61% para 6,40%) e para 2023 (de 5,27% para 5,17%), mas registrou alta para 2024 (de 3,41% para 3,47%). O número esperado para o Produto Interno Bruto (PIB) registrou alta para 2022 (passou de 2,26% para 2,39%) e leve alta para 2023 (de 0,47% para 0,50%). A taxa Selic ficou estável em 13,75% para o final deste ano, em 11,25% para 2023 e em 8% para 2024. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Inflação: bens industriais mostram deflação

O IGP-10 registrou deflação de 0,9% em setembro e acumula alta de 8,24% em 12 meses. A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com queda de 0,39% frente à alta de 0,19% no mês anterior. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – registrou retração de 0,10% ante alta de 0,18% em agosto. No acumulado em 12 meses, ambos indicadores apresentam desaceleração, ainda que em patamar elevado, em 12,48% para o núcleo dos bens industriais e em 6,45% para o IPA agrícola. À frente, esperamos que o núcleo do IPA industrial siga desacelerando em ritmo lento no acumulado em 12 meses, enquanto o IPA agrícola pode apresentar volatilidade.

Atividade: serviços crescem enquanto varejo recua em julho

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de julho mostrou alta de 1,1% no volume de serviços na comparação mensal. O dado veio acima das expectativas do mercado e em linha com a nossa projeção. O segmento de serviços prestados às famílias – o mais afetado pelas restrições de mobilidade – registrou alta de 0,6 % no mês, mas segue 5,7% abaixo do nível pré-pandemia. Ainda há algum espaço para recuperação.  

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) de julho mostrou queda de 0,7% frente ao mês anterior no volume de vendas no comércio varejista ampliado, resultado abaixo do que nós e o mercado projetávamos. Nos últimos meses, a composição do indicador mostra recuo maior nos segmentos sensíveis ao crédito, enquanto aqueles mais sensíveis à renda ficaram praticamente de lado.

O resultado negativo do comércio não muda nossa previsão de que o PIB deve crescer 2,3% em 2022. A alta de juros e a desaceleração global comprometem uma expansão maior da atividade. O pagamento de benefícios sociais mais altos e o aumento da massa salarial podem atenuar um pouco essa desaceleração para o segmento do varejo.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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