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Resumo semanal: PIB do Brasil forte no 2T23

Confira as principais notícias da semana, segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank

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Confira as principais notícias da semana (28/8-1/9), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Internacional

Estados Unidos: mercado de trabalho desacelera

O mercado de trabalho está dando sinais de desaquecimento. O Departamento de Trabalho publicou dados referentes ao mês de agosto. De acordo com o Establishment Survey, houve criação de 187 mil empregos no período, abaixo da expectativa do mercado (considerando revisões que diminuíram os dados de meses anteriores). A criação de empregos tem diminuído gradualmente, mas segue acima da média de 2019, período pré-pandemia, quando era de 163 mil por mês. O ganho médio por hora trabalhada desacelerou para 0,2% contra o mês anterior, ajudando a reduzir pressões inflacionárias à frente. O Household Survey mostrou que a taxa de desemprego subiu para 3,8%, ainda baixa, mas alcançando o maior nível desde fevereiro do ano passado. O aumento no desemprego está relacionado à elevação na participação da força de trabalho, que subiu para 62,8%. Outro relatório do Departamento de Trabalho, o Jolts, mostrou redução do número de vagas de emprego em aberto no mês de julho, com o total de 8,8 milhões de vagas não preenchidas no mês. A proporção de vagas disponíveis por desempregado, que diminuiu para 1,5, segue elevada, porém está no menor nível desde meados de 2021. Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego continuam em níveis baixos para padrões históricos, em 228 mil na semana encerrada em 26 de agosto, 4 mil abaixo da semana anterior.

A inflação continua alta e persistente. O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) subiu 0,2% em julho em relação ao mês anterior, segundo dados do Departamento do Comércio americano. O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, também subiu 0,2%. No acumulado em doze meses, o PCE e o núcleo aceleraram e acumulam alta de 3,3% e 4,2%, respectivamente, bem acima da meta de 2% do banco central americano. A composição do índice mostra que o preço de bens já não é um problema, mas o preço de serviços continua pressionando o indicador, com salários acima da produtividade puxando o índice para cima. Em nossa visão, a inflação deve desacelerar lentamente em razão da gradual desaceleração do mercado de trabalho em meio aos juros elevados.

Acreditamos que o Fed optará por uma pausa na decisão de juros em setembro para monitorar os efeitos defasados da política monetária implementada até aqui. No entanto, por ora, mantemos nossa visão de que o banco central americano deve implementar mais uma alta de juros este ano e manterá os juros elevados por um longo período. Não prevemos cortes de juros antes de meados de 2024.

A atividade na indústria dá sinais incipientes de melhora. O índice de gerentes de compras do setor de manufaturas (PMI, na sigla em inglês) do Instituto ISM subiu 1,2 ponto em agosto frente ao mês anterior, para 47,5, ainda em contração, mas com melhora nos últimos dois meses. Na composição do índice, a demanda e o emprego seguem fracos e a produção permaneceu estável.

A renda e o consumo das famílias seguem altos. Houve aumento da renda de 0,2% em julho frente ao mês anterior. O consumo aumentou 0,8% no mês, com maiores gastos com serviços (0,8%) e bens (0,7%), segundo dados do Departamento do Comércio.

O setor imobiliário segue fraco, mas com sinais de estabilização. As vendas pendentes de casas registraram leve aumento, de 0,9%, em julho frente ao mês anterior, segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis (NAR, na sigla em inglês). Vendas pendentes costumam antecipar vendas de casas existentes à frente. Os preços de casas subiram 0,3% no mês de junho em relação ao mês anterior, segundo dados da Agência Federal de Financiamento da Habitação (FHFA, na sigla em inglês). Em 12 meses, o indicador acumula alta de 3,1%. Os preços de casas têm subido em meio a estoques baixos. De modo geral, após apresentar dados melhores no início do ano, o setor imobiliário perdeu fôlego.

O PIB do 2T23 foi revisado para baixo, de 2,4% para 2,1% frente ao trimestre anterior, anualizado e com ajuste sazonal, de acordo com o Departamento do Comércio americano. A menor expansão do índice ocorreu em razão de uma desaceleração dos investimentos e menor formação de estoques. O consumo das famílias continuou elevado.

Europa: inflação persistente

A guerra entre Rússia e Ucrânia se estende pelo segundo ano. O conflito tem se concentrado principalmente na região do Mar Negro, principal rota de escoamento de grãos ucranianos, atrapalhando o fluxo de navios.  A capital ucraniana foi atacada por mísseis e drones depois que uma base aérea russa foi atingida. O conflito segue sem perspectiva de fim próximo.

A confiança na economia continuou diminuindo. O índice de sentimento econômico, calculado pela Comissão Europeia, caiu 1,2 ponto na prévia de julho para 93,3. A queda na confiança ocorreu no setor de manufaturas e serviços.

A inflação ao consumidor segue alta e com núcleo resiliente. O índice (CPI, na sigla em inglês) continuou subindo 5,3% nos últimos doze meses até agosto, segundo a prévia do Eurostat, com queda no preço de energia e crescimento menor no preço de alimentos. Entre as maiores economias do bloco, a inflação desacelerou na Alemanha (6,4%), Itália (5,5%) e Espanha (2,4%), mas acelerou na França (5,7%).  O núcleo da inflação, que exclui alimentos, energia, álcool e tabaco, também subiu 5,3%, continuando bem acima da meta.

O mercado de trabalho continua robusto. A taxa de desemprego permaneceu no mínimo histórico, em 6,4% em julho, e deve manter pressão sobre salários. O desemprego entre jovens segue baixo (para padrões históricos), em 13,8%. O índice divulgado pelo Eurostat mostra heterogeneidade entre as economias do bloco. O desemprego permanece baixo na Alemanha (2,9%), mas alto na Espanha (11,6%).

China: mais medidas para apoiar a economia

A atividade segue fraca em agosto, segundo os índices de gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês), calculados pelo Escritório Nacional de Estatísticas chinês (NBS, na sigla em inglês). O PMI composto, que considera o setor de manufaturas, construção e serviços, teve leve aumento para 51,3 pontos, sinalizando crescimento moderado no 3T. Houve melhora no setor de manufaturas, que segue em contração pelo quinto mês seguido, e desaceleração no setor de serviços para 50,5.

O lucro da indústria contraiu 6,7% em agosto comparado ao mesmo mês do ano anterior, de acordo com o Departamento Nacional de Estatísticas da China (NBS, na sigla em inglês). A contração no lucro continua sendo maior entre as estatais chinesas, mas também acontece em empresas do setor privado e estrangeiras.

Medidas para ajudar a frear a contração do setor imobiliário continuam. Depois de anúncio do governo central na semana passada permitindo alívio de certas condições para potenciais compradores de imóveis, duas grandes cidades chinesas, Guangzhou e Shenzhen, anunciaram a adoção de medidas locais para facilitar o financiamento na compra do segundo imóvel. A expectativa é que outras cidades grandes também sigam a orientação do governo central. O Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) e o órgão de regulação financeira reduziram o percentual do valor do imóvel cobrado como entrada nos financiamentos e diminuíram a taxa de juros sobre empréstimos imobiliários.

No lado fiscal, os governos locais aumentaram a emissão de títulos especiais voltados principalmente aos investimentos em obras de infraestrutura. O governo também anunciou maior dedução no imposto de renda das famílias para gastos com cuidados de crianças e idosos e para gastos com educação infantil. A medida, que entra em vigor no início do próximo ano, tem por objetivo aumentar o consumo e se adequar às mudança demográficas do país.

Acreditamos que o governo continuará propondo medidas de alívio gradualmente, com o objetivo de promover um crescimento próximo da meta (5%) em 2023. Não esperamos nenhum grande estímulo para impulsionar a economia.

Commodities: preço do petróleo pressionado

Os preços das commodities energéticas estão em alta. Entre os dias 24 e 31 de agosto, o preço futuro do petróleo (Brent) subiu 4%, ficando pouco acima de 85 dólares por barril no fim do período. Os preços estão pressionados por diminuição da oferta da Arábia Saudita e Rússia. Nos próximos dias, a Arábia Saudita irá decidir se mantém os cortes de 1 milhão de barris por dia na produção de outubro. A Rússia já se comprometeu a estender a menor produção. O preço futuro do gás natural na Europa seguiu com alta volatilidade em meio às negociações de trabalhadores de empresas exportadoras de gás natural liquefeito na Austrália, que ameaçam entrar em greve, colocando em risco a oferta global da commodity. No período considerado, o preço futuro do gás natural subiu 10%, mas continua bem abaixo (menos da metade) da média de janeiro de 2022 (pré-guerra).

Os preços das commodities agrícolas desaceleraram. O preço futuro do trigo negociado na bolsa de Chicago recuou 5% no período, apesar da interrupção frequente de navios cargueiros no Mar Negro depois do fim do acordo de exportação de grãos entre Rússia e Ucrânia. A Ucrânia é um dos maiores produtores e exportadores da commodity. O preço do milho recuou 2% e da soja permaneceu estável.

Brasil

Focus: projeções estáveis

As projeções para o IPCA ficaram estáveis para 2023 (4,9%), para 2024 (de 3,86% para 3,87%), para 2025 (3,5%) e para 2026 (3,5%). Os números esperados para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não tiveram alterações para 2023 (de 2,29% para 2,31%) e nem para 2024 (1,33%). A taxa Selic segue em 11,75% para 2023, em 9% para 2024 e em 8,5% para 2025 e para 2026. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Atividade: PIB do 2T23 surpreende consenso

O PIB do 2T23 registrou alta de 0,9% na comparação com o 1T23, em linha com o esperado por nós (1,1%) e acima do mercado (0,3%). Do lado da oferta, a indústria registrou alta (0,9%) enquanto o setor de agropecuária registrou contração de mesma magnitude (-0,9%). Serviços contribuíram positivamente, com um crescimento de 0,6%. Do lado da demanda, houve crescimento em todas as séries, com destaque para o consumo das famílias (0,9%). À frente, a atividade deve desacelerar, impactada pelos juros ainda elevados e pela desaceleração global. A nossa previsão para o PIB do 3T23 é, por ora, de uma leve queda de 0,1%. Após a confirmação do dado do 2º trimestre, revisamos nossa projeção para o PIB de 2023 e de 2024 de 2,5% para 3% e de 1% para 1,5%, respectivamente.

A taxa de desemprego da PNAD Contínua no trimestre terminado em julho veio em linha com a nossa projeção, atingindo 7,9%. Na série com nosso ajuste sazonal, o indicador está em 7,8% contra 7,9% no trimestre encerrado em junho. A composição do dado mostrou aumento tanto da PEA (população economicamente ativa) quanto da ocupação. O crescimento da PEA indica uma leve melhora na dinâmica do mercado de trabalho, na medida em que aumentou o número de pessoas que buscam emprego. A renda real habitual do trabalhador acumulou alta de 5,1% em relação ao mesmo período de 2022. O crescimento da economia até agora foi suficiente para levar a taxa de desemprego para níveis abaixo do neutro, o que reforça o cenário de queda lenta da inflação. Para 2023, a taxa deve encerrar o ano abaixo de 8%. Nossa expectativa é que a taxa de desemprego (ajustada sazonalmente) registre apenas leve alta em 2024.

Inflação: IGP-M em patamar negativo

A inflação medida pelo IGP-M caiu 0,14% em agosto, abaixo da mediana das projeções do mercado. Em 12 meses, o índice está em -7,2%. A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com alta de 0,02% frente à contração de 1,9% no mês anterior. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – registrou queda de 0,45%. Em 12 meses, o IPA agrícola está em -16,7% e o núcleo do IPA industrial em -3,4%.

Fiscal: resultado negativo do setor público consolidado

O setor público consolidado apresentou um déficit de R$ 35,8 bi em julho. Os governos regionais contribuíram para o resultado negativo com déficit de R$ 4,2 bi. No acumulado em 12 meses, o resultado consolidado está negativo em R$ 80,5 bi (0,8% do PIB). A dívida líquida encerrou o mês em 59,6% e a dívida bruta em 74,1%. Projetamos déficit do setor público consolidado de 1% do PIB para 2023, devido ao aumento de gastos e queda na arrecadação em função da desaceleração da atividade.

O governo federal enviou ontem ao Congresso Nacional a PLOA de 2024, apresentando um superávit de R$ 2,8 bi (0% do PIB). O documento prevê também uma arrecadação extra de R$ 168 bi. As despesas irão crescer 1,7% em termos reais. O ministro da Fazenda reconheceu o desafio de zerar o déficit primário, porém reafirmou sua viabilidade.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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