Conheça os fatores conjunturais e estruturais que contribuem para as taxas de juros no Brasil
Atualizado em
Pedro Rodrigues
Tempo de leitura · 8 min
Publicado em
16 de janeiro de 2026
É comum se deparar com notícias que falam sobre a elevação da Selic e a manutenção dos juros altos no país. Essa taxa é um recurso usado pelo Banco Central do Brasil (BCB) para controlar a inflação.
Uma vez que é referência para muitas operações financeiras, qualquer mudança na Selic pode causar efeitos gradativos em diversas variáveis econômicas. Por exemplo: quando está alta, o acesso ao crédito tende a ficar mais caro, mas quando baixa, tende a tornar financiamentos e empréstimos mais acessíveis.
Neste texto, serão explicados os conceitos de juros nominais e reais, fatores que pressionam a Selic e alguns efeitos desse mecanismo da política monetária.
Leia também para saber mais sobre outras instituições e conceitos econômicos:
A Selic é a taxa básica de juros da economia do Brasil e serve como referência para transações de crédito, como empréstimos e aplicações. Sobretudo, ela é um instrumento de política monetária usado pelo BCB para controlar a inflação.
Quem define se ela aumenta, diminui ou permanece a mesma é o Comitê de Política Monetária (Copom), a partir da consideração de fatores internos e externos. Por isso, podemos também definir a Selic como taxa básica alvo do Copom. Em geral, alguns movimentos que seguem sua definição são:
Dentro desse âmbito, temos ainda as distinções presentes no mercado:
Vale explicar que o juro real pode considerar a inflação passada, conhecida como ex-post, ou a inflação futura, que compõe os juros reais ex-ante. Neste segundo caso, o cálculo será feito a partir de indicadores de expectativas futuras como o relatório de mercado Focus do Banco Central.
O Brasil, historicamente já passou por longos períodos com juros altos. Nesse contexto, é importante lembrar que há motivadores de diferentes naturezas para tal, como é possível conferir a seguir:
No Brasil, está em vigor o regime de metas de inflação e a Selic é uma ferramenta usada para manter o avanço dos preços no intervalo estabelecido pelo governo. Quando há choques de preço em itens essenciais como combustíveis e alimentos ou mesmo no câmbio, a inflação sobe e o Copom eleva a taxa de juros para conter esses aumentos.
Porém, ainda que a inflação esteja controlada, se a expectativa do mercado estiver desancorada, ou seja, for de preços mais altos adiante, os juros altos tendem a permanecer.
O governo brasileiro tem uma dívida líquida que chegou a 65% do PIB em outubro de 2025, segundo o BCB. Em um cenário de aumento da relação dívida/PIB, as dúvidas sobre políticas fiscais e capacidade de pagamento do país também aumentam. Ou seja, os investidores percebem um maior risco e, como resultado, é preciso oferecer juros altos pelos títulos públicos para mantê-los atrativos.
Quando há instabilidade global, saída de capitais de países emergentes e valorização do dólar, o Brasil precisa manter os juros altos. Essa é uma forma de evitar a desvalorização excessiva do câmbio, que aumentaria a inflação na importação.
Empréstimos subsidiados ou programas públicos que ofertam parte do crédito por juros menores auxiliam no crescimento da economia. Mas, ao mesmo tempo, geram juros altos para o resto do mercado a fim de compensar esse subsídio.
Em outubro de 2025, foram registrados mais de 80 milhões de brasileiros inadimplentes, com um total de R$ 509 bilhões em dívidas, segundo dados do Serasa. Por conta desse maior risco de não receber, as instituições bancárias e financeiras tendem a aumentar os custos de empréstimos.
Em geral, o mercado brasileiro tem questões estruturais que contribuem para a manutenção de juros altos. São exemplos a baixa competição, custos regulatórios e exigência de garantias elevadas.
Como apresentado anteriormente, a taxa de juros real pode ser calculada a partir da taxa nominal com desconto da inflação. Para ter uma visão de futuro, os analistas costumam usar as expectativas de inflação para os próximos 12 meses na estimativa. A seguinte fórmula pode ser usada para fazer esse cálculo:
Taxa Real = (1+Taxa Nominal) / (1+Inflação)-1
O resultado dessa conta é muito importante para entender o grau de aperto monetário ao qual a economia em questão está submetida. Se os juros reais estiverem altos, a demanda costuma cair e a inflação tende a ser contida, mas, ao mesmo tempo, os investimentos e o crédito podem ficar mais caros.
A política monetária adotada pelo BCB, com a definição da meta da taxa Selic via Copom, não afeta a economia de forma direta. Seus impactos acontecem por meio de canais de transmissão e os principais são:
Com uma Selic alta, os juros reais se elevam. A partir daí, tem início uma sequência de reações: a queda de consumo das famílias e de investimento por empresas, a redução da demanda e, por fim, o controle da inflação.
Como referência para o custo dos bancos, se a Selic cai, a tendência é de redução das taxas de empréstimo. Assim, aumenta a demanda por crédito e, consequentemente, o consumo e os preços. Por outro lado, com juros altos, o ciclo é o inverso, com diminuição de compras e valores de serviços e produtos.
Juros altos tornam os ativos brasileiros mais atrativos e podem estimular a entrada de capital externo. Como resultado, há valorização do real e tendência de queda no preço dos importados, que contribui para uma inflação moderada nesse segmento.
Mudanças nos juros impactam no valor de ações, títulos e imóveis. Assim, quando a Selic sobe, tais ativos tendem a se desvalorizar, o que leva famílias e empresas a reduzir consumo e investimento.
A decisão sobre a taxa básica de juros também causa repercussão quanto ao que é esperado na trajetória da economia. Assim, se hoje a Selic é elevada para conter a inflação, a expectativa é de queda na atividade econômica e preços mais baixos no futuro.
Vale destacar que as decisões do Copom não produzem efeitos imediatos. Pelo contrário, o impacto de uma Selic mais alta ou baixa evolui ao longo de vários meses. Inclusive, esse é o motivo pelo qual o comitê não considera apenas a inflação de curto prazo, mas sim um horizonte relevante.
Saber se um cenário de Selic alta é bom ou ruim, vai depender do objetivo do agente econômico. Para quem pretende financiar um imóvel, um carro ou expandir um negócio, juros baixos são mais vantajosos por reduzir o custo do crédito. Já a quem interessa juros altos, como investidores que aplicam em títulos públicos atrelados à taxa básica, esse ambiente pode ser positivo, por elevar a rentabilidade dessas aplicações.
Em resumo, como benefícios da elevação da taxa de juros básica, é possível observar:
Por outro lado, a redução da taxa Selic também causa efeitos como:
Então, não há apenas uma resposta afirmativa ou negativa para essa pergunta. O custo-benefício dessa medida varia conforme fatores como inflação, atividade econômica e risco fiscal.
Há diversas fontes confiáveis para acompanhar os juros no Brasil. Como exemplo, o Boletim Focus traz as expectativas do mercado quanto à Selic e a inflação, bem como PIB e câmbio, para os anos de 2025 a 2028. Há também as atas do Copom, que detalham os temas debatidos nas reuniões do Comitê e justificam as decisões sobre a taxa básica de juros.
Nesse sentido, é possível se atualizar sobre tendências e projeções de juros altos ou baixos de forma prática. Um bom exemplo são as análises macroeconômicas produzidas pelo time de economistas do C6 Bank e divulgadas em relatórios e também em formato de áudio, no Podcast Macro Review.
O conteúdo traz uma visão original sobre os fatos econômicos do Brasil e do mundo e permite o acompanhamento da Selic, inflação e curva de juros, com leitura quanto aos impactos no crédito, consumo e investimentos.
Sim, vale a pena acompanhar os principais indicadores para saber se há perspectiva de juros altos agora ou no futuro e, sobretudo, para entender o ciclo econômico.
Com esse conhecimento sobre a economia brasileira, é possível tomar decisões mais alinhadas não apenas aos próprios objetivos, mas ao estado atual e futuro do país.
Para se manter informado, confira os textos selecionados:
Acompanhe as Análises Macroeconômicas do C6 Bank para entender, com
Tags relacionadas
Índice