• Início
  • Economia
  • Resumo semanal: Ata do Copom reforça possível fim do ciclo

Leitura de 15 min

Resumo semanal: Ata do Copom reforça possível fim do ciclo

Confira as principais notícias da semana (13/5 – 17/5), segundo a avaliação da equipe econômica do C6 Bank. Leia a íntegra do relatório.

Atualizado em

Felipe sales, head da equipe econômica do C6 Bank, em pé e com as mãos na cintura.
Felipe Salles, head da equipe econômica

Internacional

Estados Unidos: inflação resiliente

A inflação segue alta. O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) registrou variação de 0,3% em abril frente ao mês anterior, de acordo com o Departamento do Trabalho. O núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, também registrou um aumento de 0,3%. Na composição, a inflação de bens continua benigna e não causa preocupações, mas a inflação de serviços, que representa mais de 70% do núcleo, segue pressionada pelo mercado de trabalho aquecido. Em 12 meses, o núcleo do CPI subiu 3,6%, em linha com o esperado. O índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) registrou variação mensal de 0,5%, acima do esperado. Nos últimos 12 meses, o núcleo do PPI, que exclui alimentos e energia, acumula alta de 2,4%, acima do esperado

O setor imobiliário continuou apresentando dados fracos. O núcleo do indicador de permissão para construir diminuiu em abril frente ao mês anterior, a terceira contração consecutiva do índice, segundo dados divulgados pelo Departamento do Comércio. Este indicador costuma antecipar o início de construções, cujo núcleo também contraiu no mês. Em outra pesquisa, o índice de confiança das construtoras (NAHB Housing Market Index) perdeu força e diminuiu em maio. O índice segue abaixo da média pré-pandemia.

A atividade da indústria ficou estagnada em abril. A produção industrial permaneceu estável frente ao mês anterior, segundo dados do banco central americano (Federal Reserve, Fed). A produção de manufaturas encolheu levemente (-0,3%), pior que o esperado.

O índice de otimismo das pequenas empresas, medido pela Federação Nacional de Empresas Independentes (NFIB, na sigla em inglês), subiu 1,2 ponto para 89,7 em abril, mas permanece abaixo do nível pré-pandemia. Segundo a pesquisa, a inflação continua sendo o principal problema das pequenas empresas.

Em relatório semanal, os pedidos iniciais de seguro-desemprego foram de 222 mil na semana encerrada em 11 de maio. Os pedidos seguem baixos para padrões históricos.

O presidente do banco central americano, Jerome Powell, em evento recente, reforçou a mensagem anterior de que um novo aumento de juros é pouco provável, mas acrescentou que, para levar a inflação à meta, os juros devem permanecer elevados por mais tempo do que era esperado. Segundo Powell, é necessário aguardar por mais evidências de que a inflação está esfriando. Em nossa visão, a persistência da inflação é inconsistente com o início do ciclo de cortes este ano.

O presidente Joe Biden anunciou o aumento de tarifas de importação sobre alguns produtos chineses, entre eles: baterias de lítio, veículos elétricos, semicondutores e painéis solares. O presidente justificou a medida como necessária para proteger o emprego em meio a competição desleal.  O aumento de tarifas, que ocorrerá até 2026, não deve ter impacto relevante na economia americana, já que os produtos listados corresponderam a apenas 4% das exportações chinesas para os Estados Unidos em 2023. No entanto, a medida parece sinalizar um limite para os exportadores chineses no mercado americano.

Europa: indústria fraca em março

A guerra entre Rússia e Ucrânia está no terceiro ano e continua sem perspectiva de fim próximo.

A produção industrial teve leve aumento. O índice registrou alta de 0,6% em março frente ao mês anterior com ajuste sazonal, segundo o Eurostat, desacelerando em relação a fevereiro. No entanto, excluindo a produção da Irlanda – país que costuma introduzir volatilidade ao índice em razão de direitos de propriedade intelectual e multinacionais no país – o índice teve queda de 0,5%. Houve redução da produção das maiores economias do bloco: Alemanha (-0,4%), França (-0,3%), Itália (-0,5%) e Espanha (-0,7%).

O Banco Central Europeu (BCE) deve cortar juros em junho. Mensagens recentes de membros do comitê de política monetária do BCE sugerem que o corte é iminente. Em nossa visão, a redução das taxas é consistente com a desaceleração da inflação e com a fraqueza na atividade na região. 

O mercado de trabalho britânico segue com sinais de moderação. De acordo com a ONS, nos três meses até março, a taxa de desemprego subiu de 4,2% para 4,3%, foi o terceiro aumento consecutivo, enquanto a taxa de participação permaneceu constante. As contratações diminuíram, segundo pesquisa PAYE: o número de pessoas admitidas caiu 85 mil em abril em relação ao mês anterior (estimativa prévia), mas houve revisão do dado reportado em março, praticamente eliminando a queda anterior. A pressão de vagas abertas diminuiu consideravelmente, mas a razão vagas por desempregado está estabilizando acima do nível pré-pandemia. Apesar de dados mais fracos, os salários continuam crescendo em ritmo sólido. Nos três meses até março, o aumento no ganho médio semanal (excluindo bônus) para o setor privado foi de 5,9% comparado ao mesmo período do ano anterior, mantendo os ganhos acima da inflação, mas ficando pouco abaixo da expectativa do Banco da Inglaterra para o 1T24.

Em nossa visão, os juros devem permanecer em pausa no Reino Unido, em razão da persistência da inflação de serviços, no entanto, um corte de juros deve ocorrer no segundo semestre.

China: novas medidas para apoiar o setor imobiliário

A indústria cresceu em abril, mas a demanda doméstica permaneceu fraca. Segundo dados divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas chinês (NBS, na sigla em inglês), a produção industrial aumentou 6,7% comparada a abril de 2023. O dado veio acima do esperado, com forte crescimento na produção de automóveis, computadores e equipamentos eletrônicos. As vendas no varejo desapontaram, desacelerando para 2,3% no período. Os investimentos estão elevados. Houve aumento de 4,2% de janeiro a abril comparado ao mesmo período do ano anterior, puxados pelo setor de manufaturas e infraestrutura, ambos apoiados por políticas públicas. Investimentos imobiliários, no entanto, continuam encolhendo.

O setor imobiliário segue em baixa. As vendas de casas novas estão em queda. O início de novas construções também encolheu.  O preço de casas novas nas 70 maiores cidades chinesas diminuiu 0,6% em abril contra o mês anterior, décima primeira queda consecutiva. O preço de casas no mercado secundário também continua em queda. O estoque de casas não vendidas segue elevado, bem acima do pico de 2015.

O governo chinês e o Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) anunciaram medidas para ajudar o setor imobiliário. O governo irá comprar imóveis não vendidos de construtoras, o que ajuda a melhorar a confiança no setor. O impacto da medida, no entanto, dependerá da escala do programa e do financiamento a ser fornecido. Por sua vez, o PBoC comunicou a redução do custo de empréstimo para compra de imóveis e diminuição do valor de entrada dos financiamentos imobiliários. 

A taxa de desemprego urbano recuou de 5,2% para 5% em abril.

O fluxo do crédito agregado diminuiu em abril comparado ao mês anterior. O volume total foi de 12,7 trilhões de yuans, 199 bilhões abaixo do mês anterior, segundo o Banco Central da China (PBOC, na sigla em inglês). O menor volume de crédito ocorreu em razão da menor demanda de diversos agentes. Houve queda dos empréstimos a famílias, em meio a fraqueza na compra de imóveis e baixo consumo, e menor crescimento dos empréstimos a empresas, sinalizando cautela nos investimentos. A emissão de títulos públicos também contraiu.

O Ministério das Finanças anunciou o início da emissão de 1 trilhão de yuans em títulos especiais do governo central de longa duração (20, 30 e 50 anos) a partir desta sexta-feira (17/5). A emissão ocorrerá de maio a novembro deste ano e tem por objetivo financiar projetos chave em áreas estratégicas, como manufaturas de alta tecnologia, além de apoiar investimentos em infraestrutura. A emissão dos títulos deve apoiar o crescimento do crédito agregado para frente.

A inflação ao consumidor teve leve aumento de 0,3% no acumulado em 12 meses até abril, segundo o NBS. O preço de alimentos desacelerou, mas o preço de energia subiu acompanhando o movimento de commodities energéticas no mercado internacional. O núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, subiu 0,7% no período. O índice de preços ao produtor (PPI) continuou recuando pelo décimo nono mês, com queda de 2,5% no mesmo período, apesar do aumento do preço da energia. A inflação deve continuar baixa no país, em razão do excesso de capacidade instalada e da oferta acima da demanda.

O PBoC manteve a taxa de juros de médio prazo em 2,5% ao ano, conforme esperado.

O Ministério do Comércio da China criticou o aumento de tarifas sobre produtos chineses (entre eles: baterias, veículos elétricos e painéis solares) anunciado pelo governo americano. Apesar da medida indicar uma postura comercial mais agressiva, as novas tarifas não devem ter impacto relevante para a economia chinesa neste ano – representam 0,4% das exportações totais do país.

Commodities: petróleo estável

O conflito entre Israel e o Hamas completou sete meses. A crise geopolítica pode demorar algum tempo. Até o momento não houve uma escalada do conflito na região, que é a maior exportadora mundial de petróleo.

O preço futuro do petróleo (Brent) permaneceu praticamente estável, fechando a semana (16/5) em torno de 83 dólares por barril. O preço reflete uma redução das preocupações com o Oriente Médio e um aumento da produção de países fora da Organização de Países Exportadores de Petróleo e aliados (OPEP+). A aliança decidirá, no início de junho, se mantém cortes da produção para além do 2T24. A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) revisou para baixo sua expectativa de demanda global por petróleo neste ano em razão da atividade mais fraca e temperaturas amenas na Europa.

O preço futuro do gás natural na Europa também permaneceu estável, depois de maior volatilidade nas semanas anteriores. Os estoques seguem elevados na região e o fim da temporada de aquecimento se aproxima, o que reduz o consumo da commodity. O preço segue baixo, menos de 40% do que era antes do início da guerra entre Rússia e Ucrânia.

Os preços futuros das commodities agrícolas na Bolsa de Chicago seguem em alta. Entre os dias 9 e 16 de maio, o preço do trigo voltou a subir (7%), alcançando o maior nível em 9 meses, com preocupações quanto a produção da Rússia, grande exportador global, em razão do frio intenso. Clima adverso também causa preocupação na produção de outros grandes exportadores (EUA, Europa Ocidental, Austrália). A produção da Ucrânia também segue com dificuldades em meio a guerra contra a Rússia. O preço do milho subiu 3% na semana e o da soja 2%. O preço da soja tem apresentado maior volatilidade desde as inundações que afetaram o sul do Brail. O país é o maior produtor e exportador de soja e o estado do Rio Grande do Sul representa 8% da produção nacional.

Brasil

Focus: alta nas projeções de Selic para 2026

As projeções para o IPCA subiram para 2024 (de 3,72% para 3,76%), para 2025 (de 3,64% para 3,66%) e não tiveram mudanças para 2026 (3,5%). O número esperado para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) teve leve alta para 2024 (de 2,05% para 2,09%) e ficou estável para 2025 (2%). A taxa Selic passou de 9,63% para 9,75% para 2024 e permaneceu em 9% para 2025. Para 2026, a taxa passou de 8,75% para 9%, sendo a terceira semana consecutiva com elevação nas projeções. As projeções estão no Boletim Focus, relatório do Banco Central que reúne a expectativa das instituições financeiras em relação aos principais indicadores econômicos do país.

Gráfico de linhas sobre projeções focus do IPCA porcentagem ano a ano. Analise das medianas desde janeiro de 2022 a maio de 2024 em comparação com a meta de inflação para 2024 e 2025, evidenciando projeções que se distanciam da meta.

Atividade: primeiro trimestre positivo para os serviços

A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de março, apontou que o volume de serviços cresceu 0,4% na comparação mensal. De modo geral, o setor de serviços teve um desempenho positivo, com crescimento em quatro das cinco atividades analisadas e estabilidade em uma delas. Dessas quatro, vale destacar os serviços prestados às famílias, que têm um peso importante no cálculo do PIB e tiveram uma alta de 0,6%. No trimestre, esse componente acumula alta de 1,3%, devendo contribuir para o PIB do período. Este dado confirma que a atividade econômica veio forte no primeiro trimestre, impulsionada por um cenário de aumento da massa salarial e de gastos do governo, como o pagamento de precatórios. Projetamos crescimento de 1% para o PIB do 1º trimestre em relação ao trimestre anterior. Para o ano de 2024, nossa expectativa é de expansão de 2,2%. 

Gráfico de linhas sobre Pesquisa Mensal de Serviços jan/22=100 com ajuste sazonal. Análise das medianas de janeiro de 2022 até março de 2024 evidenciando projeções que se distanciam da meta.

Inflação:  IGP-10 forte em maio

A inflação medida pelo IGP-10 apontou alta de 1,08% em maio, acima da mediana das projeções do mercado (0,95%). A composição dos índices de atacado mostrou o IPA agrícola com expansão de 0,87%. O núcleo do IPA industrial – que inclui apenas os itens relacionados à inflação de bens industriais do IPCA, excluindo alimentos, combustíveis e minério de ferro – subiu 0,14%. No acumulado em 12 meses, o índice contraiu 1,3%, acima da deflação de 3,8% no mês anterior. Em 12 meses, o IPA agrícola está no patamar de -6,3% e o núcleo do IPA industrial em -1,3%.

Gráfico de linha sobre IGP-10 acumulado em 12 meses desde mario de 1996 a maio de 2024.

Política monetária: Ata reforça proximidade do fim do ciclo de corte de juros

O Banco Central divulgou nesta terça-feira (14) a ata das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) dos dias 7 e 8 de maio, apresentando mais detalhes sobre a decisão de política monetária.

No comunicado em que anunciou a decisão, o Copom optou por um corte menor do que o previamente sinalizado de 50 pontos-base. Houve, portanto, uma mudança no rumo da política monetária. A decisão não foi unânime. Dos nove membros votantes, cinco votaram a favor de uma redução de 25 pontos-base, inclusive o presidente Roberto Campos Neto. Os demais –todos indicados pelo governo atual- votaram a favor de uma redução mais intensa, de 50 pontos-base.

No texto divulgado, o Comitê traz os motivos da dissidência. O grupo que votou pelo corte menor de juros considerou que houve uma alteração no cenário por quatro motivos: 1) desancoragem adicional das expectativas; 2) elevação das projeções de inflação; 3) cenário internacional mais adverso e 4) atividade econômica mais dinâmica do que esperado. Os membros do Comitê que votaram pela redução maior de juros também compartilharam da percepção de aumento das incertezas, mas defenderam que o custo reputacional de não seguir o guidance poderia levar a uma “redução do poder das comunicações formais do Comitê”.  Esse mesmo grupo sugeriu também que o mais importante seria a taxa terminal de juros.

No âmbito doméstico, o Comitê se mostrou preocupado com o impacto do mercado de trabalho sobre a desinflação de serviços à frente. Como evidência preliminar dessa dinâmica, a autoridade monetária citou “a inflação nos serviços intensivos em trabalho, que tem se mostrado persistentemente acima do nível compatível com o cumprimento da meta”.

Por fim, a ata deu ênfase ao aumento do risco fiscal, observando que houve “um aumento do prêmio de risco e uma percepção de piora da situação fiscal”, segundo os agentes que respondem ao questionário Pré-Copom. Em seguida, o texto analisa os possíveis motivos para a recente desancoragem das expectativas de inflação, que poderiam estar associados à piora do cenário externo, à política fiscal ou a uma perda de credibilidade da autoridade monetária. Esse trecho mostra o incômodo do Comitê com a alta da expectativa de inflação de 2025 do Boletim Focus.

Projetamos, por ora, Selic em 10,25% ao final de 2024, com mais um corte de 25 pontos-base na próxima reunião. No entanto, diante da contínua piora das expectativas de inflação, acreditamos que a chance de não haver mais cortes de juros aumentou.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A.

Os números contidos nos gráficos de desempenho referem-se ao passado; o desempenho passado não é garantia de resultados futuros.

Cada analista de Macro Research é o principal responsável pelo conteúdo deste relatório e atesta que:

(i) todas as opiniões expressas refletem com precisão suas opiniões pessoais e eventual recomendação foi elaborada de forma independente, inclusive em relação ao Banco C6 S.A. e / ou suas afiliadas;

(ii) nenhuma parte de sua remuneração foi, está ou estará, direta ou indiretamente, relacionada a quaisquer recomendações específicas realizadas pelo analista.

Parte da remuneração do analista vem dos lucros do Banco C6 S.A. e / ou de suas afiliadas e, consequentemente, as receitas decorrem de transações mantidas pelo Banco C6 S.A. e / ou suas coligadas.

Este relatório foi preparado pelo Banco C6 S.A., uma instituição regulada por autoridades brasileiras.

O Banco C6 S.A. é responsável pela distribuição deste relatório no Brasil.