Relatório mensal: cenário global mais adverso

Equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulga projeções

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C6 Bank Felipe Salles Foto: Germano Lüders04/08/2021

A equipe econômica do C6 Bank, liderada por Felipe Salles, divulgou nesta quinta-feira (13) mais uma edição do seu relatório macroeconômico. Confira, abaixo, a íntegra do documento:

Resumo

Internacional

A economia global segue em um cenário turbulento e de crescimento baixo. O principal motivo é o aperto monetário que vem sendo implementado em vários países, visando reduzir a inflação. Adicionalmente, a escassez de gás na Europa e a desaceleração da economia chinesa, afetadas pelo longo conflito na Ucrânia e por medidas restritivas na China como resposta à Covid-19, pesam sobre a atividade global.

Nos EUA, a atividade continua desacelerando, refletindo o impacto da política monetária mais restritiva sobre a demanda. A inflação voltou a subir, com aumento maior no núcleo, que exclui alimentos e energia, e em particular no preço de serviços, enquanto bens permaneceram estáveis. O mercado de trabalho continua aquecido. Apesar da redução de vagas em aberto, as contratações seguem elevadas e a taxa de desemprego voltou a um mínimo recente, o que tem mantido salários pressionados. O Banco Central americano (Federal Reserve – Fed) continuou subindo juros em mais um aumento de 75 pontos-base e membros do Comitê de política monetária sinalizaram juros mais altos à frente.

Na área do euro, a crise de energia permanece. A guerra se intensificou mais recentemente, depois de contraofensivas ucranianas e ataques à Crimeia. A União Europeia definiu um pacote básico de medidas para conter a escalada no preço de energia e vários países já anunciaram restrições no consumo e planos para redução do preço. A atividade continuou contraindo, de acordo com o índice de gerente de compras (PMI, na sigla em inglês), que pelo terceiro mês consecutivo ficou abaixo de 50. Há sinais de que a atividade pode continuar em queda nos próximos meses em razão da crise de energia na região. O economista-chefe do Banco Central Europeu (BCE) falou da necessidade de mais aumentos dos juros para conter a inflação. Segundo ele, apenas a desaceleração da atividade econômica não deve ser suficiente para conter aumentos dos preços. Na Inglaterra, a inflação continua com tendência de alta, também pressionada por altos custos de energia. Além disso, a proposta de um pacote fiscal, anunciada no fim de setembro, tem gerado turbulências no mercado, exigindo ação do Banco Central inglês para estabilizar taxas de juros de longo prazo.

A China continua com um número persistente de casos de Covid-19, o que tem mantido o número de áreas de isolamento elevado no país e restrições associadas à política Covid zero continuam pesando sobre a economia. O governo continua apoiando investimentos principalmente em projetos de infraestrutura. O setor imobiliário segue fraco, com investimentos encolhendo e sem estímulos do governo além dos necessários para incentivar a entrega de imóveis comprados e evitar protestos. Os índices de atividade do país sinalizaram um crescimento mais fraco em setembro principalmente no setor de serviços, impactado por políticas restritivas associadas a surtos de Covid-19.

Brasil

As condições que possibilitaram o sólido crescimento do PIB de 4,6% para 2021 e início de 2022 não devem estar presentes no restante deste ano. Os dados de atividade referentes a agosto e setembro já mostram algum sinal de desaceleração. Projetamos crescimento para o ano de 2,3%. Para 2023, projetamos estabilidade do PIB. Os efeitos da política monetária contracionista e da desaceleração global devem se estender ao longo do próximo ano.

O resultado primário do setor público consolidado deve terminar o ano superavitário em 1,1%, influenciado por aumentos temporários da receita. A perspectiva de desaceleração do crescimento, as desonerações e os aumentos dos gastos do governo sugerem deterioração à frente. Projetamos déficit de 2% do PIB para 2023.

Em nossa visão, a taxa de câmbio nos patamares atuais, historicamente elevados, reflete riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público. A valorização do dólar globalmente também tem pressionado o real. Mantivemos nossa projeção para taxa de câmbio em R$ 5,50 no fim de 2022 e de R$ 5,80 ao final de 2023.

A dinâmica inflacionária recente mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada principalmente pela forte redução dos bens monitorados. O efeito da queda dos impostos sobre os preços se mostrou mais intenso do que esperávamos, enquanto os preços das commodities globais continuaram cedendo. Reduzimos nossa projeção de IPCA de 6% para 5,6% para 2022. Acreditamos que à frente, passado o forte alívio temporário da redução de impostos, a inflação irá continuar alta e desacelerar de forma gradual. Nossa projeção de IPCA de 2023 se manteve estável em 5,7%.

O Copom manteve a taxa Selic em 13,75% na última reunião, encerrando o ciclo de alta de juros. O Comitê sinalizou que a trajetória de juros extraída da Pesquisa Focus é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta. Essa trajetória incorpora corte de juros já no segundo trimestre do próximo ano. Revisamos, portanto, nossa projeção para a trajetória da taxa Selic. Passamos a projetar cortes de juros a partir do segundo trimestre de 2023, com a taxa Selic terminando o ano de 2023 em 11,25% (abaixo dos 12,25% previstos anteriormente).

Panorama Global

EUA

A economia americana continuou perdendo o fôlego em setembro. O índice de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês) divulgado pelo Instituto ISM sinalizou estagnação da indústria, depois de alguns meses de desaceleração, com queda na demanda e no emprego. O índice PMI-ISM para o setor de serviços teve leve redução, mas continua a indicar atividade sólida com demanda elevada. Ambos os índices sugeriram menor pressão inflacionária, mas ainda elevada em serviços.

O mercado de trabalho permaneceu forte. O número de contratações no mês de setembro continuou elevado, bem acima da média em 2018-2019. A taxa de desemprego diminuiu para 3,5%, voltando a um mínimo recente, causado pela menor taxa de participação no mercado de trabalho. O número de vagas em aberto diminuiu, mas segue elevado, em torno de 1,7 vaga em aberto por desempregado no país. A forte demanda por trabalhadores continua pressionando salários.

A inflação acelerou recentemente, principalmente por aumento no preço de serviços e alimentos, enquanto energia continuou cedendo. O núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia, subiu, refletindo principalmente um aumento no preço de aluguéis, que costumam ser mais persistentes. Em 12 meses, o núcleo da inflação permaneceu elevado, bem acima da meta de 2% do Fed. Nossa expectativa é que os preços voltem a desacelerar em razão da política monetária mais restritiva do Fed, mas que não voltem à meta em um horizonte próximo.

O Banco Central americano (Federal Reserve – Fed) elevou o intervalo de juros para 3% a 3,25% ao ano, subindo a taxa básica em 75 pontos-base pela terceira vez consecutiva. Membros do Comitê revisaram suas projeções para economia – menor crescimento e mais inflação – e sinalizaram uma trajetória de juros mais elevada ao longo dos próximos anos. Segundo a ata da reunião, a maioria dos membros do Comitê apontou que parte significativa da atividade econômica ainda não respondeu aos juros mais elevados. Membros esperam um desaquecimento do mercado de trabalho, com redução de vagas em aberto e de contratações em um primeiro momento. Planos para redução do ritmo de aumento de juros no futuro continuam, mas os membros ponderaram que o custo de pouca ação seria maior do que o de agir com vigor.  De qualquer modo, em nossa visão, a política monetária sinalizada pelo Fed ainda não é suficiente para trazer a inflação para a meta em um horizonte próximo. Seria necessário que o Fed mantivesse juros elevados por mais tempo do que tem comunicado.

O dólar continuou ganhando força frente às demais moedas, com expectativas do mercado de nova alta de 75 pontos-base nos juros depois de dados fortes de inflação, emprego e discursos de membros do Fed sinalizando a necessidade de juros altos até que a inflação comece a dar sinais de queda.

Europa

A guerra entre Rússia e Ucrânia entrou no oitavo mês e se intensificou mais recentemente, com bombardeios atingindo a capital ucraniana, Kiev, o que não acontecia desde junho. Infraestruturas de energia se tornaram o principal alvo na Ucrânia. A intensidade do conflito aumentou depois do ataque que destruiu uma ponte na Crimeia. No fim de setembro, o presidente russo, Vladimir Putin, já havia convocado reservistas para ampliar suas tropas e realizou um controverso referendo em 4 territórios ucranianos no leste. Segundo Putin, os referendos deram vitória à Rússia e os 4 territórios foram anexados. A União Europeia anunciou o oitavo pacote de sanções à Rússia como represália. Os Estados Unidos e aliados continuam apoiando a Ucrânia com ajuda militar, financeira e humanitária. As perspectivas para o fim de um conflito estão distantes. O presidente ucraniano assinou decreto que proíbe negociações com o atual presidente russo, apesar de continuar aberto ao diálogo desde que outro presidente esteja à frente do país vizinho.

A crise de energia se intensificou na Europa. No último mês, uma explosão no gasoduto de Nord Stream, que estava fechado desde o mês anterior quando a Rússia interrompeu envio de gás para Alemanha, continua sob investigação. Em razão do ocorrido, diminuem as chances de um restabelecimento do fluxo de gás entre os países. Apesar do menor fornecimento russo, os estoques de gás na Europa estão acima da média dos últimos 5 anos e as importações de gás natural liquefeito continuam elevadas. A União Europeia definiu um pacote básico de medidas para conter preços de energia e vários países anunciaram restrições no consumo e planos para redução de preços. A Alemanha definiu um novo pacote que pode chegar a 200 bilhões de euros com a intenção de aliviar custos de energia para famílias e empresas.

Por mais que esses pacotes sejam justificáveis do ponto de vista social, eles não irão gerar maior crescimento no curto prazo. Isso ocorre porque a dinâmica da economia europeia será ditada pela capacidade da região de obter novas fontes de energia, o que parece complicado em pouco espaço de tempo. É muito provável que vários países do bloco enfrentem uma recessão nos meses à frente.

Em relação a outras commodities, o petróleo continua refletindo preocupações quanto a uma desaceleração global. A Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (OPEP+) decidiu cortar a produção em 2 milhões de barris por dia a partir de novembro para que preços se estabilizem frente a uma demanda mais fraca. Os grãos, que estavam com preços menores e mais estáveis com o aumento de exportações ucranianas depois de acordo com a Rússia, passaram a apresentar maior volatilidade com a intensificação do conflito e possível interrupção do acordo.

Em setembro, a atividade contraiu mais, de acordo com os índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês). Tanto em manufaturas quanto em serviços, os índices estão abaixo de 50 pontos. O PMI de manufaturas sinalizou contração pelo terceiro mês consecutivo em grandes economias do bloco – Alemanha, Itália e Espanha – e o de serviços apresentou crescimento mais fraco. Houve queda na demanda, estabilidade no emprego e maior pressão de preços em razão do aumento no preço de energia. O PMI composto – que inclui o setor de manufaturas e serviços – diminuiu 0,8 ponto para 48,1. Os riscos de contração maior da atividade à frente são elevados.

A inflação alcançou dois dígitos e atingiu novo recorde, 10% acumulada em doze meses até setembro, em razão da forte alta no preço de energia e de alimentos. O núcleo da inflação também subiu com aumento nos preços de bens, refletindo restrições de oferta e repasse de preços de insumos, em particular, energia. Preços mais altos de energia devem pesar sobre a inflação por mais algum tempo.

O Banco Central Europeu (BCE) divulgou ata da última reunião de setembro sinalizando que a magnitude de próximos aumentos continuará a depender de dados. Segundo o texto, o aumento de 75 pontos-base em setembro não foi consenso inicial: alguns membros preferiam aumento de 50 pontos-base em razão de risco maior de recessão à frente. No fim, houve unanimidade pelo aumento maior. O economista-chefe do banco, Philip Lane, alertou que a pressão de preços deve continuar e não deve diminuir sozinha. Mesmo um crescimento fraco da economia não será capaz de conter a inflação, segundo Lane. Por outro lado, é importante notar que membros do BCE não veem uma tendência de aceleração em salários, o que é positivo para manter expectativas de inflação ancoradas e reduzir necessidade de aumentos maiores nos juros.

No Reino Unido, o início do mandato de Liz Truss tem sido turbulento. O governo anunciou no fim de setembro um novo plano fiscal prevendo corte de impostos e aumento de gastos públicos, sem apresentar uma análise sobre o financiamento do programa. Investidores reagiram rapidamente às medidas, levando a uma desvalorização da moeda inglesa e dos títulos do tesouro britânico. Para acalmar a situação, o Banco Central Inglês (BoE, na sigla em inglês) comunicou de imediato a compra de títulos públicos de longo prazo por um período determinado, e o ministro das finanças voltou atrás com uma das medidas controversas do pacote que reduzia impostos sobre os mais ricos. No fim deste mês, um órgão independente do governo que analisa a sustentabilidade da dívida pública deve divulgar resultados de sua análise, o que pode ajudar a acalmar investidores.

O mercado de trabalho segue aquecido, com desemprego na mínima de quase 50 anos, e a pressão sobre salários continua. A inflação está elevada (9,9% acumulada em 12 meses até agosto), pressionada adicionalmente pelo alto preço de energia, e o BoE deve continuar com a política de aperto monetário para reduzir a inflação.

China

A política de Covid zero adotada na China e a permanência de surtos (ainda que de proporções menores) de infecções continuam tendo impacto sobre a mobilidade e economia do país. Apesar disso, esta política restritiva deve continuar para evitar uma disseminação maior de casos. Nenhum grande centro urbano está em lockdown completo no momento, mas o número de áreas classificadas como de risco alto e médio, onde são impostas duras restrições à mobilidade, está elevado.

A China tem sido menos afetada pelo conflito na Ucrânia do que as economias ocidentais. O país tem mantido uma postura neutra, sua exposição comercial aos países em conflito é baixa e não foram impostas sanções aos produtos russos. Dito isso, a China tem sido afetada indiretamente pelo menor crescimento global, que tem diminuído suas exportações, e pela maior volatilidade de preços de commodities no mercado internacional.

Os indicadores de atividade industrial e de serviços, reportados pelos índices de gerentes de compras (PMI, na sigla em inglês), calculado pelo Escritório Nacional de Estatísticas (NBS, na sigla em inglês), continuaram fracos em setembro. O PMI composto, que considera o setor de manufaturas e de serviços, diminuiu 0,8 ponto para 50,9, sinalizando uma expansão mais fraca que no mês anterior. A desaceleração na atividade ocorreu principalmente em razão de uma contração no setor de serviços, que sofre mais com medidas restritivas relacionadas aos surtos do vírus. O setor de manufaturas teve leve melhora no período associada a uma demanda interna, enquanto a demanda externa perdeu força. Há risco de a atividade desacelerar mais caso os surtos de Covid-19 aconteçam em grandes centros do país.

Os investimentos em ativos fixos na China aceleraram levemente nos oito primeiros meses do ano comparado ao mesmo período do ano anterior. Investimentos em infraestrutura permaneceram sólidos, apoiados por políticas públicas, mas investimentos imobiliários continuam encolhendo em razão de dificuldades do setor. Vendas de imóveis têm contraído e preços seguem diminuindo há 12 meses. O governo tem ajudado construtoras a entregar imóveis comprados, com a intenção de diminuir protestos e interrupções no pagamento de hipotecas.

O Banco Central chinês (PBOC) manteve inalteradas as taxas de juros de médio, curto e longo prazo (LPR 1 ano e LPR 5 anos), conforme esperado, em meio a uma pressão maior sobre a moeda chinesa, que tem se desvalorizado com a desaceleração da economia local e de políticas monetárias mais apertadas nos Estados Unidos e Europa. No entanto, o PBOC sinalizou que existe espaço para redução dos juros nos próximos meses.

No fim desta semana, ocorre o XX Congresso do Partido Comunista, evento quinquenal que apontará os líderes do país para os próximos 5 anos ou mais e que deve confirmar um terceiro mandato para o presidente Xi Jinping.  A expectativa é que não haja grandes mudanças em relação a políticas de longo prazo como as para promover menos desigualdades sociais e as que não estimulam o setor imobiliário em demasia – “casas são para morar e não para especular”. A política de Covid zero também deve continuar por mais um tempo.

Na maioria dos países do leste asiático, excluindo China – importantes elos na cadeia de suprimento global – os PMIs de manufaturas perderam força sinalizando contração ou expansão moderada em setembro. Em Taiwan, o índice sinalizou contração pelo quarto mês consecutivo, em razão de queda na produção, provocada principalmente por uma deterioração na demanda global e doméstica. Preços continuam diminuindo para atrair vendas.

Cenário Doméstico

Atividade

O PIB brasileiro cresceu 4,6% em 2021. A progressiva reabertura da economia, possibilitada pelo avanço da vacinação, permitiu a retomada do setor de serviços, particularmente os prestados às famílias. Os efeitos da pandemia sobre a economia estão praticamente superados.

Após crescer 1,1% no 1T22, o PIB do 2T22 registrou nova alta, de 1,2% frente ao trimestre anterior, com expansão em serviços, indústria e agropecuária. No entanto, os trimestres seguintes devem apresentar crescimento próximo de zero. Os dados mais recentes de atividade referentes a agosto e setembro já mostram algum sinal de desaceleração. Projetamos crescimento para o ano de 2,3%.

As condições que possibilitaram o sólido resultado para 2021 e início de 2022 não devem estar presentes no restante deste ano. A taxa Selic em território contracionista já afeta a atividade. A forte desaceleração do crescimento global deve impactar a atividade doméstica. A normalização da política monetária dos bancos centrais globais e, em particular, do Banco Central americano impõe desafios à atividade global, num contexto em que a Europa sofre um choque na oferta de energia e a China ainda enfrenta problemas com um novo surto de Covid-19. Os altos preços de commodities, que beneficiaram o Brasil no primeiro semestre, já mostram reversão e não devem se manter à frente.

Projetamos estabilidade da atividade para 2023. Os efeitos da política monetária contracionista e da desaceleração global devem se estender ao longo do próximo ano.

A taxa de desemprego seguiu caindo em agosto e já se encontra ao redor do seu nível neutro. A perspectiva de crescimento abaixo do potencial a partir do segundo semestre deste ano nos leva a projetar uma taxa de desemprego que volta a subir no ano que vem.

Fiscal

O resultado primário do setor público consolidado encerrou o ano de 2021 positivo em 0,7% do PIB. Foi o primeiro superávit primário desde 2013. Para 2022, houve surpresa forte na arrecadação, o que deve levar o setor público consolidado a ter um novo superávit. As divulgações dos resultados fiscais recentes melhores do que o esperado refletem, na nossa visão, preços de commodities elevados, que fortalecem a arrecadação, além de receitas extraordinárias pontuais. Por outro lado, projetos aprovados este ano (dentre eles a LC 194, a zeragem de alguns impostos federais e estaduais sobre combustíveis e a redução de IPI) têm o potencial de afetar negativamente a arrecadação, principalmente no 2º semestre, em cerca de R$ 130 bi (1,3% do PIB) este ano e cerca de R$ 200 bi (2% do PIB) em 2023, caso as medidas temporárias sejam prorrogadas.

Para o ano que vem, na nossa visão, essas medidas provavelmente serão prorrogadas e já vemos sinais disso. Além disso, o cenário mais provável é de aumento de gastos em 2023. Projetamos um superávit de 1,1% em 2022 para o resultado primário do setor público consolidado, mas devemos voltar a ter déficit fiscal a partir do ano que vem. Projetamos déficit de 2% para 2023 para o setor público consolidado.

Nossa projeção de dívida líquida passou de 59,7% para 58,8% do PIB para 2022, principalmente em função de um pagamento de juros mais baixos do que prevíamos. A dívida deve voltar a subir em 2023, puxada pela perspectiva de juros elevados, pelo baixo crescimento do PIB e pelas medidas recentes de desonerações e aumento de gastos. Nossa expectativa para a dívida líquida de 2023 passou de 64,4% para 63,5% do PIB ao final do ano. A redução explica-se pela perspectiva de juros mais baixos no próximo ano. No entanto, a incerteza fiscal segue alta e vemos uma deterioração das perspectivas de longo prazo para a sustentabilidade das contas públicas.

Setor externo

Acreditamos que o atual nível do câmbio em patamares historicamente elevados esteja alinhado com os fundamentos da economia, principalmente considerando os riscos fiscais. A taxa de câmbio possui forte correlação com a dívida líquida do setor público.

Continuamos acreditando que a piora da trajetória da dívida líquida do governo e o fortalecimento do dólar frente às demais moedas, decorrente da retirada de estímulos monetários nos EUA, são fatores que devem levar a uma depreciação do real. Mantivemos a projeção de taxa de câmbio em R$ 5,50 para o final de 2022. Para 2023, o câmbio deve continuar a registrar depreciação, pelos mesmos motivos citados acima. Nossa projeção para a taxa de câmbio ao final de 2023 está em R$ 5,80.

Com relação às contas externas, as importações em patamar elevado, apesar da taxa de câmbio depreciada, levarão a um saldo negativo das transações correntes para 2022. Nossa projeção para o resultado da conta corrente é de déficit de US$ 32 bi em 2022. Para 2023, o câmbio mais depreciado ajuda a reduzir o déficit, mas a revisão para baixo na projeção para a atividade global nos fez ampliar a projeção de déficit. Nossa projeção passou de déficit de US$ 11 bi para US$ 26 bi.

Inflação

A forte elevação de preços em 2021 de 10,1% impactou a inflação deste ano via inércia. Por outro lado, a LC 194, que limita o ICMS de energia elétrica, combustíveis, telecomunicações e isenta de impostos federais a gasolina e o etanol, está reduzindo a inflação de 2022. Nos últimos meses, o efeito da queda dos impostos sobre os preços se mostrou mais intenso do que esperávamos, em especial no segmento de telecomunicações. Além disso, os preços das commodities globais continuaram cedendo. Reduzimos nossa projeção de IPCA de 6% para 5,6% para 2022. Acreditamos que à frente, passado o forte alívio temporário da redução de impostos, a inflação irá continuar alta e desacelerar de forma gradual.

A dinâmica inflacionária recente mostra queda do IPCA no acumulado em 12 meses, influenciada principalmente pela forte redução dos bens monitorados. A inflação de bens industriais mostra sinais claros de desaceleração, enquanto a de serviços segue alta (quando excluímos o efeito dos impostos). Acreditamos que a inflação de serviços deve continuar elevada nos próximos meses em função da inércia inflacionária. Para 2023, mantivemos nossa projeção de IPCA estável em 5,7%.

Política monetária

O Copom (Comitê de Política Monetária) iniciou um ciclo de alta de juros em março do ano passado. Na última reunião, em setembro, o Comitê manteve a taxa Selic em 13,75% e afirmou que se “manterá vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período suficientemente prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação”.

A projeção de inflação do BCB no cenário de referência passou de 6,8% para 5,8% para 2022, ficou estável em 4,6% para 2023 e passou de 2,7% para 2,8% para 2024. Este cenário supõe trajetória de juros que permanece em 13,75% até o final de 2022, reduz-se para 11,25% ao final de 2023 e para 8% ao final de 2024. O Comitê “optou novamente por dar ênfase ao horizonte de seis trimestres à frente, que reflete o horizonte relevante, suaviza os efeitos diretos decorrentes das mudanças tributárias, mas incorpora os seus impactos secundários”. A projeção para este período no modelo do Banco Central se manteve em 3,5%.

A ata esclareceu que “no cenário em que se utiliza a trajetória de juros extraída da Pesquisa Focus” a projeção da inflação de doze meses no primeiro trimestre de 2024, para a qual o Comitê passou a dar ênfase, “segue compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante”. Esse trecho foi alterado em relação à última ata, enfatizando que o Comitê acredita na convergência da inflação usando o cenário de juros do Focus, que considera cortes de juros já no primeiro semestre do ano que vem.

Além disso, manteve no texto que “a projeção de inflação para o ano-calendário de 2024 também se encontra ao redor da meta.” Ou seja, para o horizonte que o BCB está mirando, as projeções dos seus modelos se encontram ao redor da meta e com isso ele justifica o fim do ciclo de aperto monetário.

Por fim, o Comitê antecipou que “voltará a enfatizar horizontes que incluam o primeiro trimestre de 2023”, caso a manutenção da desoneração tributária sobre combustíveis em 2023 se materialize. Mas reiterou que “não haverá impactos relevantes sobre a condução de política monetária”. Acreditamos que a comunicação e as projeções do BCB são condizentes com a sinalização da manutenção da taxa Selic em 13,75% por algum tempo, seguida de um início de ciclo de corte de juros no 2º trimestre, um trimestre antes do que tínhamos no nosso cenário anterior. Revisamos, portanto, nossa projeção para a trajetória da taxa Selic. Passamos a incorporar no nosso cenário cortes de juros a partir do segundo trimestre de 2023, com a taxa Selic terminando o ano de 2023 em 11,25% (abaixo dos 12,25% previstos anteriormente).

Projeções macroeconômicas do C6 Bank

2019202020212022P2023P
Atividade
Crescimento Real do PIB1,2%-3,9%4,6%2,3%0,0%
PIB Nominal (R$ bi)7.3897.4688.6799.63710.358
Fiscal
Resultado Primário (% PIB)-0,8%-9,4%0,7%1,1%-2,0%
Dívida Líquida (% PIB)54,7%62,5%57,2%58,8%63,5%
Dívida Bruta (% PIB)74,4%88,6%80,3%78,4%84,6%
Setor Externo
R$/US$ (final de período)4,035,205,585,505,80
Balança Comercial (US$ bi)2732364953
Conta Corrente (US$ bi)-65-24-28-32-26
Conta Corrente (% PIB)-3,5%-1,7%-1,7%-1,8%-1,5%
Inflação
IPCA (Var. a/a )4,3%4,5%10,1%5,6%5,7%
Juros
Selic (dez)4,50%2,00%9,25%13,75%11,25%
P=Projeção
Fontes: IBGE, BCB, Bloomberg, C6 Bank.

Equipe Econômica C6 Bank

Felipe Salles Head
Claudia Moreno Head Brasil
Claudia Rodrigues Head Internacional
Felipe Mecchi Internacional
Heliezer Jacob Brasil

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